Quanto um artista ganha com streamings? Pouco
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Quanto um artista ganha com streamings? Pouco

Murilo Busolin Rodrigues

09 de janeiro de 2021 | 23h00

Era 25 de dezembro de 2020, a nossa Mamãe Noel Mariah Carey havia acabado de quebrar, mais uma vez, o recorde de música mais reproduzida no Spotify. Mais de 17 milhões e 223 mil reproduções foram feitas do hit supremo natalino All I Want For Christmas Is You apenas na plataforma durante todo o dia da véspera do Natal.  Mas o  que mais me chamou atenção foi a maneira com que a diva comemorou seu recorde.

Em um único tuíte, Mariah ficou surpresa com os exorbitantes números e fez um adendo: “Eu sei que as pessoas acham que eu estou fazendo fortuna (um pequeno segredo: artistas ganham pouco com os streams), mas a real razão é que eu estou aqui admirada e grata em ver a alegria que essa pequena canção, que eu escrevi, trás para o público.”

Drake, Ariana Grande e Billie Eilish, os campões do streaming. FOTOS: Reprodução

Mas como assim artistas ganham pouco com streams? Pois é, meus amigos, eu pesquisei e isso é um fato. Nos dias atuais, o lucro de artistas já conhecidos pelo grande público está na venda de produtos, turnês e outros métodos nada convencionais ligados à música.

A cada stream, os músicos envolvidos em uma canção ganham, por plataforma e em dólares: Spotify (0,00348); Apple Music (0,00675); YouTube Content ID (0,00022); Amazon Music Unlimited (0,01123); Deezer (0,005652); Google Play (0,00554); Pandora (0,00203); Tidal (0,00876).

A recordista All I Want For Christmas is You faturou, apenas no Spotify, US$ 59.856, cerca de R$ 324 mil. Desses quase US$  60 mil, Mariah deve levar menos da metade, já que a gravadora fica com a maior parte, além da questão de direitos autorais de uma música.

Se a recordista Mariah precisa beirar 20 milhões de reproduções diárias para ter um bom lucro, imagine os artistas que batalham para conseguir seu primeiro hit? FOTO: Twitter / @mariahcarey

O mais importante dessa conversa envolvendo a dona do vozeirão, recorde de reproduções diárias e lucros, é o seguinte: a renda desses streamings só é gerada a partir dos plays de usuários premium, que pagam para utilizar o app com músicas baixadas e outros benefícios.

Atualmente, o Spotify possui mais de 320 milhões de assinantes ativos em todo mundo, sendo que 176 milhões usam a versão gratuita. Agora dá para entender os motivos que fizeram Taylor Swift declarar guerra contra a plataforma em meados de 2014? Todos querem moeda por moeda e errados não estão.

Quer um exemplo mais próximo de nossa realidade? Os mais novos  hitmakers do Brasil, Os Barões da Pisadinha.

Até o fechamento desta coluna, o hit ‘Recairei’ acumula mais de 114 milhões de streamings na plataforma, o que resultaria em 397 mil dólares e aproximadamente mais de 2 milhões de reais em uma única canção. É bom lembrar que esse total não é repassado diretamente para os artistas, ok? E estamos falando, mais uma vez, de um mega hit.

Os Barões da Pisadinha e Anitta foram os únicos artistas brasileiros, na história, a emplacar duas entre as 50 músicas mais reproduzidas no Spotify mundial. FOTO: Reprodução / Instagram / Hugo Gloss

Imagine a realidade de um artista novo ou independente, que comumente leva um bom tempo para emplacar seu primeiro hit, com sorte consegue emplacar outro, com alcance suficiente começa a lotar shows, vender álbuns e finalmente passa a ter números cada vez maiores para viver de música.

O buraco é ainda mais embaixo em relação aos podcasts. O lucro de cada reprodução? Zero. Os envolvidos em um podcast só passam a lucrar quando ele já é bastante conhecido no mercado e enfim consegue o tão sonhado patrocínio, ou patrocínios.

No fim das contas, o streaming pode ser considerado mais como uma estratégia de marketing e status de visibilidade de um artista do que  fonte de renda inesgotável, que a maioria acredita que seja.

Para não esquecer, se é que isso é possível, estamos entrando no segundo ano de uma pandemia.

Você, que consome streams diariamente: que tal começar a olhar com outros olhos as lives pagas, desafios no TikTok, hashtags no Twitter e outras táticas utilizadas no meio artístico?

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