Professor Emicida
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Professor Emicida

Murilo Busolin Rodrigues

12 de dezembro de 2020 | 23h00

Parecia que estava premeditado. O rapper Emicida encerrou o seu significativo ano de 2019 com um show de prender a respiração no Theatro Municipal de São Paulo. O resultado audiovisual daria força para um ano caótico.

Para quem acredita no ditado, “quem canta os males espanta”, eu passei 2020 a plenos pulmões e as faixas do rico projeto AmarElo (último lançamento de estúdio do rapper), foram responsáveis por compor uma boa parte da trilha sonora dessa minha busca por sanidade e autocontrole.

O documentário reconstrói a história da cultura preta no Brasil, ressaltando a suas bases no samba . FOTO: Netflix/Divulgação

O espetáculo de Emicida foi simbólico para a música nacional e, principalmente, para a história da cultura preta no Brasil. A apresentação em São Paulo foi baseada nas mesmas canções que me ajudaram a equilibrar este último ano, e é com o conteúdo dos bastidores da criação deste disco e do show em questão, que o documentário AmaRelo – É Tudo Pra Ontem chegou ao público pela gigante Netflix.

A produção de Fred Ouro Preto tem como pilar principal o acontecimento no Theatro Municipal. Pra quem não sabe, o local foi construído (1903-1911) na base de uma mão de obra feita por trabalhadores negros, mas que após a inauguração, adotou, por anos, uma política de exclusão, os impedindo de frequentar o espaço.

É como assistir a um reparo histórico e o próprio Emicida faz questão de ressaltar isso. A obra é carregada com todos os detalhes necessários em sua narração e roteiro e sem soar descolada da atual realidade, extremamente diferente após um ano de sua produção. Sim, estou falando do coronavírus.

Escravidão, imigração, São Paulo, samba, hip-hop e periferia. O professor Emicida dá uma aula de história completa e reescreve tão bem a linha do tempo do povo negro brasileiro que poderia converter o material para ser ministrado em escolas pelo País todo.

Pensando nas lágrimas inevitáveis nos minutos finais, Emicida lançou juntamente ao doc, a parceria musical É Tudo Pra Ontem, com ninguém menos que o mágico Gilberto Gil.

Emicida entrega uma das melhores parceria do ano de 2020, nos 45 minutos do segundo tempo. Golaço! FOTO: Reprodução/Youtube/ Laboratório Fantasma

A música consegue transmitir o mesmo sentimento de um abraço, aquele que não podemos dar neste momento, mas que estamos lutando para assumir que precisamos – e muito.

É como Gil entoa e nos ensina no final da canção: ‘Viver é partir, voltar e repartir’. Voltaremos quantas vezes for necessário. Vivendo, cantando e espantando nossos males. Sempre.

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