‘Pose’ se encerra e entra para a história da TV
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‘Pose’ se encerra e entra para a história da TV

Murilo Busolin Rodrigues

02 de outubro de 2021 | 22h00

Eu sempre achei Pose uma série pretensiosa. Desde que tomei conhecimento da produção de Ryan Murphy – conhecido por desgastar a imagem de suas produções ao arrastar histórias em temporadas desnecessárias – fiquei intrigado com o trabalho que seria apresentado ao público.

Afinal, Pose se destacou por ser uma das séries que mais abraçou minorias na televisão.

As três temporadas de ‘Pose’ estão disponíveis na Star+. Recomendo a maratona. FOTO: Divulgação/FX

Murphy não me decepcionou dessa vez. Ele decidiu encerrar Pose logo na terceira temporada, atualmente disponível na nova plataforma Star+. O belo ciclo foi fechado da mesma maneira em que se iniciou, com grande impacto.

Nos últimos sete capítulos, podemos ver o lado mais vulnerável dos personagens moradores de Nova York.

Latinos, negros, gays, trans e travestis que cravaram importantes lutas por direitos nas décadas de 1980 e 1990, fizeram parte da construção de uma cultura sustentada por muito drama e luxo e ainda lidaram, de mãos dadas, com o impacto causado pelo HIV na comunidade LGBTQia+.

Spoilers. A fria realidade sobre o alastramento da epidemia foi colocada em cena da maneira mais humana possível.

A série representou famílias que jamais foram colocadas em holofotes em grandes produções. A representatividade de ‘Pose’ é para gerações. FOTO: Divulgação/FX

Era necessário encerrar Pose mostrando o avanço dos tratamentos contra a aids e o surgimento de grupos (como o Act Up) iniciando a luta para que todos pudessem ter acesso aos medicamentos.

Blanca Evangelista (MJ Rodriguez) encerrou seu arco com o maior grau de generosidade que uma personagem pode apresentar. Ela faz a gente torcer tanto para um típico final feliz de novela que por diversos momentos eu esqueci que se tratava de uma obra fictícia.

Apesar de ter perdido a estatueta, MJ se tornou a primeira atriz trans indicada ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Emmy deste ano.

MJ Rodriguez fez história sendo a primeira mulher trans a ser indicada nas principais categorias do Emmy. FOTO: Divulgação

Dominique Jackson exala talento pelos poros. Impossível não ficar fascinado pela complexidade da história de Elektra, diante de sua postura, seus trejeitos e diálogos icônicos. Não vou mentir que sonhei com um spin-off dela.

O premiado  ator Billy Porter foi o grande nome desse encerramento. Todos os arcos que envolvem Pray Tell possuem grande representatividade para a comunidade.

Família, religião, aceitação e superação são as feridas abertas de qualquer LGTBQia+, e Porter fez da resolução dos seus problemas as mais incríveis cenas da terceira temporada.

Billy Porter em seu momento drag queen. Pray Tell foi responsável pelas cenas mais marcantes da última temporada. FOTO: Divulgação/FX

Até os coadjuvantes conseguiram momentos de brilho extra na reta final, como o casal Angel (Indya Moore) e Papi (Angel Bismark Curiel), Lulu (Hailie Sahar) e Ricky (Dyllon Burnside).

Centro de toda a narrativa da série, a cultura dos bailes não foi finalizada da mesma maneira degradante que a realidade e sim, considero um ponto positivo.

Depois de três temporadas assistindo a tantos velórios e despedidas repentinas, o dueto de Blanca e Pray Tell ao som de Diana Ross era o magnífico ato de alívio que eu não sabia que tanto precisava.

Ah, e antes que eu me esqueça, eu errei. A série nunca foi pretensiosa.

Ela cresceu e se tornou mais do que uma produção extravagante e ambiciosa. Pose foi um marco.

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