Os ’30’ de Adele também podem ser os seus – confira a análise do melhor disco da cantora
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 Os ’30’ de Adele também podem ser os seus – confira a análise do melhor disco da cantora

Murilo Busolin Rodrigues

19 de novembro de 2021 | 20h01

Confesso que sempre consumi o trabalho da britânica Adele de maneira moderada.

Eu e meio mundo ficamos apaixonados por todos os singles do arrebatador disco 21, o que me fez dar uma nova chance para o estreante 19, pois esse havia passado batido na época de lançamento.

Sabe aquela história do jovem vivendo seus primeiros momentos de glória pós- adolescência? As músicas mais rasas que as de Adele, é claro, se encaixavam perfeitamente.

E se os 30 anos da Adele fosse semelhantes ao seus? FOTO: Estadão Conteúdo/ Divulgação

Anos se passaram. Tomei algumas boas doses de maturidade no bar da vida enquanto infinitos prêmios e os prestígios de uma carreira consolidada acompanharam a vida de Adele, também mais madura.

Em 2015, Adele elevou seu próprio patamar e se fincou de vez no topo da indústria musical com o lançamento de 25, guiado pelo super hit Hello. Ela fez o álbum para continuar jogando no mesmo time que já estava ganhando. Errada? Jamais. A sua gravadora deve ter respirado aliviada também.

A premiada cantora estava casada com o empresário Simon Konecki e juntos cuidavam do pequeno Angelo, nascido em 2012. As novas músicas tratavam de suas experiências de vida imprimidas em letras ainda mais pessoais, mas nada muito impactante e nem longe de sua zona de conforto – não que isso fosse necessário ou problemático.

Adele e Simon Konecki. FOTO: Estadão Conteúdo

Todos nós temos uma fase estável em nossas vidas, a grande diferença é que a fase estável de Adele foi repleta de sucessos, recordes, visualizações e exposições. Esse terceiro projeto me fez entender a Adele como aquela amiga que tem sempre mais a oferecer do que um tapinha nas costas.

Em 2019, Adele se separou de Simon e automaticamente pensei no óbvio: ‘o próximo disco vai ser o material mais triste que vou ouvir em toda a minha vida’.  Com seis anos de hiato nas costas e a expectativa dos fãs nas alturas, a cantora lançou o aguardado 30 na última sexta, 19 de novembro.

A dona de uma estatueta Oscar e de 15 prêmios Grammy escreveu todas as faixas do disco ainda em 2019, na época da separação, e decidiu lançar só agora, no auge de seus maduros 33 anos.

A hitmaker divulgou a insossa primeira música de trabalho Easy On Me, afirmando em entrevistas que o novo álbum era sobre seu divórcio e como ela explicaria o término para o filho. Não digo que ela mentiu, mas Adele escondeu o ouro e fez isso muito bem.

Enquanto Easy On Me nos remete às antigas músicas da britânica (para segurar o seu fiel público sedento por uma clássica sofrência), todas as outras faixas de 30 são surpreendentemente diferentes e superiores.

Destaques.

Strangers By Nature. Adele entregou uma perfeita trilha de Hollywood produzida pelo compositor Ludwig Göransson, coautor do estrondoso sucesso ‘This Is America’, de Childish Gambino. A inesperada faixa tem o início mais dramático de todo o álbum: ‘Eu vou levar flores para o cemitério do meu coração’. Doeu aí?

Easy On Me. A mais fraca do disco. Bem escrita, com ótimos vocais, mas com certeza foi trabalhada como primeiro single somente para aliviar seus fãs acostumados com a ‘Adele de sempre’.

My Little Love. Impossível não se emocionar com esse ótimo e denso R&B. A comovente música é carregada de áudios de Adele e de seu filho Angelo, de 9 anos. “Eu amo o seu pai, porque ele me deu você”, “Eu sei que você se sente perdido e é completamente a minha culpa”, “Eu me sinto muito solitária e eu tenho medo de me sentir assim para sempre”.

Cry Your Heart Out. A música é sobre aquele aguardado momento em que a nossa sofrência vai saindo dos holofotes após exaustivas noites de choro. Adele está quase superando sua ‘bad’ com um pop/r&B mais animado, diferente de tudo que já ouvimos em seus outros álbuns. Forte candidata a uma de suas próximas músicas de trabalho.

Oh My GodA vibe do disco mudou completamente. A mulher está finalmente se divertindo e sim, temos aqui uma canção de Adele para dançarmos. Ótima composição de Adele com seu parceiro de longa data, Greg Kurstin.

Can I Get It. Estava curioso pra ouvir a junção da britânica com um dos maiores produtores da música pop mainstream, Max Martin. E não é que esse casamento não foi um fracasso? Após muitas taças de vinho, o disco atinge seu ápice pop. Adele está livre, leve e solta.

I Drink WineA melhor música de 30. A mãe de Angelo está ciente de todo o drama que passou e canta com leve pitada de sarcasmo sobre a sua superação, sem esconder os seus recentes desejos. “Eu espero aprender a me superar. Parar de tentar ser outra pessoa para eu só querer te amar. Te amar de graça”.  Tenho certeza que ela escreveu essa pra mim.

Love Is A GameCom a mesma pegada da faixa que abre o 30, a música que encerra o álbum tem uma grande pincelada dos clássicos filmes de Hollywood. Dessa vez o foco é nas resoluções que Adele tirou na sua mais sincera caminhada até aqui.

A capa do disco ’30’. FOTO: Divulgação/@adele

Lembra quando disse que a minha relação com as músicas de Adele sempre foi mais contida? Isso deve acabar. Meus 30 anos chegaram em maio deste ano e eu posso afirmar que nunca me senti tão vivo e tão ligado às experiências mais cruas e transparentes entregues em seu melhor disco, o 30.

Adele não pegou leve quando decidiu escancarar os prazeres e desprazeres dos 30 anos.

Há muito mais frustrações, o erro tem mais peso, o perdão tem mais valor, relacionamentos se tornam constantes alinhamentos, a maturidade machuca e a conversa se torna muito, mas muito mais necessária.

E sabe o que é de mais valioso que Adele nos ensina no novo projeto e a que a nossa eterna rainha da sofrência Marília Mendonça já havia nos alertado? Todo mundo vai sofrer, mas não pra sempre. Cheers!

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