O funk carioca venceu no palco do Grammy
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O funk carioca venceu no palco do Grammy

Murilo Busolin Rodrigues

15 de março de 2021 | 21h44

A edição 2021 do Grammy foi realizada no último domingo, 14, se tornando uma noite especialmente feminina, já que foram as mulheres as grandes vencedoras das principais categorias da premiação.

Elas também foram responsáveis pelas melhores apresentações – exceto pela estreia da banda Silk Sonic, já que ninguém bate Bruno Mars em um palco.

Acima de Beyoncé? Ninguém. A texana se consagrou como a maior artista da história dos #Grammys e agora coleciona 28 estatuetas no total. A maioria delas foram vitórias em categorias voltadas ao estilo r&b e nenhum para o Álbum do Ano.

É chocante saber que os aclamados BEYONCÉ e LEMONADE não levaram esse prêmio? Poderia chocar, mas é o Grammy. A última vez que uma mulher negra ganhou o tão cobiçado gramofone foi em 1998 – Lauryn Hill e seu icônico The Miseducation of Lauryn Hill.

Beyoncé é a maior artista viva que temos e não se fala mais nisso, ok? FOTO: Robert Gauthier/Los Angeles Times

Em mais de sessenta anos de premiação, o Grammy premiou 12 artistas negros em Álbum do Ano e apenas três mulheres. Lauryn, Whitney Houston e Natalie Cole.

Mesmo com esse contexto vitorioso de Queen B, e vergonhoso para o evento, eu ouso dizer que o maior vencedor da última noite foi o funk brasileiro.

Quê? Enlouqueci? Longe disso. A rapper Cardi B carregava o peso de entregar uma das apresentações mais esperadas da noite e ela, sempre sendo mais brasileira que muitos de nós, fez algo bem valioso pela nossa cultura no palco da premiação mais relevante e controversa do mundo musical.

Cardi B ama tanto a cultura brasileira que decidiu levar o funk para o palco dos Grammy’s. FOTO FRANCIS SPECKER/CBS

Após emplacar muita coreografia com o atual single UP, Cardi recebeu Megan Thee Stallion (premiada como Artista Revelação) para juntas cantarem, e rebolarem bastante, um dos maiores hits de 2020, a polêmica WAP.

A rapper pegou todo mundo de surpresa, quando nos momentos finais da apresentação utilizou a versão funk remixada pelo Dj carioca Pedro Sampaio. Eu, você e todos que estavam acompanhando os Grammy’s fomos impactados.

É a primeira vez que um funk é tocado no evento. Histórico.

Com apenas 23 anos e uma coleção invejável de hits, Pedro me contou que foi pego de surpresa. “Estava dormindo e meu pai me acordou com essa notícia sensacional. A trajetória da Cardi B é admirável! Eu só tenho a agradecer o fato dela ter escolhido o meu remix de WAP para o Grammy”, disse o DJ, em resposta exclusiva ao Estadão.

“Fiquei muito feliz com o reconhecimento e pelo funk brasileiro também.”

Pedro Sampaio disse que foi pego de surpresa com seu remix no palco dos Grammy’s. Já podemos ter a versão funk de ‘WAP’ nas plataformas digitais? Obrigado! FOTO: Instagram/ @pedrosampaio

 

Após a euforia nas redes sociais, Cardi B foi ao Twitter para demonstrar seu carinho pelo Brasil e pelo ritmo, afirmando que queria retribuir todo o amor que vem recebendo de seu fandom brasileiro. “Eu me apaixonei pelo funk desde que eu ouvi Onda Diferente, de Anitta e Ludmilla. Eu espero que elas possam fazer uma música como essa ou Favela Chegou novamente.”

Mal sabe ela que Onda Diferente é um sucesso com gostinho de caos e cheirinho de fim de amizade, igual à Motorsport, sua parceria com Nicki Minaj, que se transformou em um dos desafetos mais emblemáticos da indústria da música. Mas isso é tema para outra coluna.

Felicidade geral, não só para Pedro Sampaio, que viu seu remix despretensioso virar tema de uma apresentação da maior rapper da atualidade, como para os próprios funkeiros, que tentam há anos exportar o estilo mundo afora.

Quem não se contagiou por essa conquista foi Rick Bonadio. Pra quem não se lembra, Bonadio é um produtor musical que fez sucesso nos anos 2000 e também foi responsável por um dos grupos que mais vendeu álbuns no Brasil, os Mamonas Assassinas.

 

O musicista assistia à premiação e desabafou em um tuíte já deletado: “Já exportamos Bossa Nova, já exportamos Samba Rock, Tom Jobim e Jorge Ben Jor. Até Roberto Carlos. Mas o barulho que fazem por causa de 15 segundos de funk na apresentação da Cardi B me deixa com vergonha. Precisamos exportar música boa e não esse fica de quatro”.

É a famosa e persistente síndrome do roqueiro, que se recusa a aceitar outros tipos de música, diferentes do seu habitual nicho, fazendo um enorme sucesso. Como diria meu amigo Pedro Antunes (@poantunes), ele pertence ao temido grupo dos ‘terraplanistas musicais’.

O produtor apagou o tuíte após críticas, mas continuou a tecer comentários preconceituosos em sua rede social. FOTO: Twitter

O estranhamento do ritmo originado nas periferias – também conhecido como preconceito ou elitismo – não é novidade para os funkeiros e funkeiras em atividade.

Pra completar o momento careta, Rick pediu desculpas e argumentou que o funk tem sempre as mesmas batidas, letras com palavras de baixo calão, sem ousadia e pouca evolução. Não poderia ser ainda mais contraditório, já que seu último sucesso foi em 2018 com a música O Sol de Vitor Kley, que nada em um mar contrário de qualquer produção considerada ousada.

Letras de baixo calão eram proferidas em rede nacional nos anos 90, mas com os Mamonas Assassinas. FOTO: Letras / Vira-Vira

Nossa maior representante da relação entre o funk e artistas gringos, Anitta, rebateu o produtor em uma série de tuítes didáticos, lembrando inclusive do preconceito que a Bossa Nova também sofreu ao ser ‘exportada’ há muitos anos.

O funk é um fenômeno sociocultural que coloca alimento no prato de milhares de brasileiros. Ultrapassou as barreiras da periferia.

Está presente nas parcerias de sucesso dos mais variados estilos de música e agora atinge patamares que pareciam impossíveis de serem conquistados no passado.

15 segundos de um funk brasileiro em uma premiação não é motivo de vergonha e sim de comemoração. Obrigado, Cardi B. Funk é o momento.

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