Marina Sena e o sucesso feminino que incomoda
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Marina Sena e o sucesso feminino que incomoda

Murilo Busolin Rodrigues

15 de dezembro de 2021 | 14h31

Escolhida como Revelação do Ano no Prêmio Multishow 2021, Marina Sena está, há semanas, estampada nos lugares mais midiáticos deste país. Se você ainda não a conhece, ao menos ouviu um trechinho do seu atual sucesso, ou algum meme relacionado à canção Por Supuesto.

Marina recebeu o troféu diante das apresentadoras do Prêmio, Iza e Tatá Werneck. FOTO: Divulgação/Multishow

Após lançar o seu viciante disco de estreia De Primeira em agosto, a ex-vocalista da banda Rosa Neon se deparou com o som em questão – que ainda não tinha sido escolhido como música de trabalho – viralizando de forma orgânica e na velocidade da luz por conta das famosas dancinhas do aplicativo TikTok.

Você sabe que uma música fez sucesso no Brasil quando ela não só ganha uma versão em funk, como também uma nova roupagem no ritmo de forró.

Agora em dezembro o hit já acumula quase 50 milhões de streamings na somatória dos números do Spotify e YouTube, sendo certificado como single de platina no país.

Alcançando atuais números gigantescos para quem já percorreu sete anos de carreira, era de se esperar que Marina ganhasse uma nova legião de novos fãs, e infelizmente, um bocado de haters.

Em novembro, quando Por Supuesto fazia acampamento entre as 10 mais reproduzidas do Spotify Brasil, diversas montagens do desenho animado Pica-Pau cantando a música de Sena surgiram nas redes sociais.

A infeliz comparação entre a voz da cantora com o personagem ganhou força e ela fez questão de rebater em seu Twitter.

Em entrevistas e posicionamentos nas redes sociais, Marina sempre se manteve disposta a enfrentar os infinitos percalços de uma artista feminina (pop) na indústria musical.

Das 50 músicas mais tocadas atualmente na maior plataforma de streaming no Brasil, Marina Sena, Anitta, Maiara e Maraísa e Marília Mendonça são as únicas figuras femininas entre uma enxurrada de sucessos de cantores sertanejos, forrós e funks.

Se considerarmos apenas as cantoras do estilo pop, sobram Marina, Anitta e Luísa Sonza entre as 100 mais executadas. Sim, a diferença é gritante.

E o que todas elas têm em comum? Todas são constantemente alvos na internet, atacadas por atos que não são relacionados à música. Sabemos o nome disso.

Marina entrou rapidamente para o time das mulheres de sucesso na indústria musical brasileira, que são atacadas semanalmente por motivos nunca ligados ao trabalho. FOTO: Marina Sena/Anitta/ Luísa Sonza.

A musicista de Taiobeiras também levou pra casa os troféus de ‘Capa do Ano’ e ‘Experimente’ do Prêmio Multishow 2021, que foi realizado no dia 8 de dezembro. Vitórias essas que culminaram em mais uma onda de ataques – dessa vez, a maioria foi orquestrada por parte dos seguidores do músico João Gomes, que concorria com Marina em uma das três categorias em que ela se saiu vitoriosa.

Não deu outra, a conta de Marina Sena no Instagram, com mais de 320 mil seguidores, foi desativada por horas na última segunda-feira, 13.

Após conseguiu recuperar o seu perfil, Marina postou um longo desabafo nas redes sociais sobre o acontecido: “Ser mulher na musica é f*. Você começa a crescer e as pessoas já colocam o mérito das suas conquistas em algo que não é você. Que dia em que as pessoas vão aprender a ver uma mulher crescendo?”.

Marina está na estrada há tempos, mas só despontou agora em carreira solo, já conta um super hit em mãos, diversos shows agendados em festivais, prêmios importantes em sua estante e com um dos discos mais elogiados pela crítica especializada deste ano… e, mesmo assim, se tornou alvo de ataques vazios de certa patrulha online.

Essa mesma patrulha, completamente machista, não faz questão de fazer vista grossa para os problemáticos homens que vivem morando nos primeiros lugares do streaming brasileiro, como Ávine Vinny, dono de um dos maiores hits do ano, Coração Cachorroa versão irritante de Same Mistake de James Blunt. O artista foi preso nos últimos dias por ter ameaçado a sua ex-mulher, mas já foi solto.

Sem nenhuma surpresa, Ávine havia declarado apoio para outra figura masculina detentora de recordes no Spotify Brasil há alguns meses, o Dj Ivis.

O produtor de piseiro ficou preso por três meses após praticar violência doméstica também contra a sua ex-mulher, em julho deste ano. Agora solto, já foi sondado por artistas como Léo Santana e Wesley Safadão para futuras produções.

‘Você vai se arrepender’ disse Ávine em uma das mensagens enviadas à ex-companheira. Diversos vídeos contendo as cenas de agressão do Dj Ivis contra a sua ex-mulher foram veiculados na internet. O produtor teve a sua liberdade concedida em outubro.

“O que estão fazendo não é apenas dando suas opiniões, o que estão fazendo é bullying, e isso é muito sério. Muita gente me fala: seja forte, sucesso é assim! Mas eu não posso achar normal isso, nem ninguém deveria, isso mostra a decadência em que se encontra a sociedade”, completou Marina Sena em seu recado via Instagram Stories.

A cantora está certa, não é normal ter que lidar com esse tipo de ataque em meio ao crescente  batalhado sucesso.

Enquanto uma boa parte do Brasil vai deitando para o seu sorriso, Sena, vamos continuar batendo o pé para que os atos cometidos na internet – e fora dele – tenham seu devido julgamento e peso levados a sério.

 

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