Majur chegou
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Majur chegou

Murilo Busolin Rodrigues

15 de maio de 2021 | 19h00

Que voz potente é essa e porque eu não ouvi antes? Essa foi a minha reação ao notar os suaves (mas impactantes) trechos que Majur entoa no refrão de AmarElo, sucesso de Emicida com participação de Pabllo Vittar e sample de Sujeito de Sorte, clássico de Belchior.

Desde 2019 venho compartilhando de uma curiosidade atiçada em descobrir o que Majur iria reservar para sua grandiosa estreia.

Algumas músicas soltas foram lançadas antes do seu debute, como Andarilho e 20ver, mas o terreno que a cantora queria e precisava pisar com seu primeiro álbum tinha de ser novo e fértil.

Com 10 faixas imersas em religião e afropop, Ojunifé chegou no dia 12 de maio em todas as plataformas digitais. Horas antes do lançamento, bati um papo sincero com a artista.

Atualmente, Majur está viciada em ‘Kiss Me More’ de Doja Cat e SZA, mas foram as artistas Alicia Keys, Dona Summer, Whitney Houston e Beyoncé que inspiraram a criação de seu primeiro álbum.

“Quando eu era criança, não via mulheres como eu nos espaços de visibilidade, mulheres trans, o meio LGBTQIA+.

Ojunifé é uma carta da Majur do futuro contando o seu caminho, a sua experiência. É a minha vida moldada para inspirar outras a serem elas mesmas, para chegarem no mesmo espaço em que me encontro agora”, analisa a baiana.

Fotos: @mar___vin (Marcos Florentino e Kelvin Yule) / Divulgação.

Libriana amorosa, filha de uma socioeducadora e apaixonada pelo R&B de Iza e Ludmilla, Majur passou dois anos colecionando vivências para transformá-las em faixas que iriam para o seu disco, que levou menos de um semestre para ser finalizado.

“Eu trago uma ideia do verdadeiro afropop, os instrumentos, batidas, sons, efeitos de matrizes africanas e indígenas, toda a minha ancestralidade junto ao pop, que é o novo.

Em todas as músicas é feito um questionamento sobre como nossa cultura preta, que foi disseminada e contada de uma forma deturpada, perdeu detalhes. Ela é muito mais rica do que imaginam e é isso que eu procuro resgatar nessa estreia.”

Aquela Majur de AmaRelo ainda procurava senso estético. Agora, aos 25 anos, finalmente se encontrou e quer multiplicar o sentimento.

“Quero que saibam que, apesar de morar no País que mais mata gays, lésbicas, travestis e trans no mundo, eu tenho orgulho de mim e quero que as pessoas também tenham orgulho de ser o que elas são através do meu disco.”

Ojunifé começa explosivo, com um recado nada discreto de que Majur chegou pra fazer a diferença. É um álbum que se inicia 100% voltado aos ritmos africanos e vai ganhando elementos e uma roupagem mais pop no decorrer das faixas.

Particularmente, gostei mais das seis primeiras músicas e destaco as deliciosas participações de Luedji em Ogunté e de Liniker em Rainha de Copas.

Majur fez questão de enaltecer seu marcante afropop com referências que resgatam sua ancestralidade. Majur chegou e não está para brincadeira. FOTO: Divulgação

As letras são carregadas de fé e ânimo, características que mantêm o brasileiro em pé, mesmo diante de períodos sombrios – como este que vivemos agora.

E é por esse motivo que a cantora acredita que o público vai adicionar as novas produções em suas playlists pessoais: “É a minha verdade, um ato de coragem, um chamamento para que as pessoas se identifiquem e acreditem nelas”.

Ela compartilhou uma playlist que a inspirou no processo de criação do Ojunifé:

“Eu fui uma criança pobre, periférica, de Salvador, que saí, venci, sou trans, e consegui acessar e chegar aqui, onde estou agora. Precisamos amar pra ter coragem e acreditar para chegar em qualquer lugar. Essa é a receita do mesmo disco” – foi assim que ela encerrou a entrevista, me arrepiando.

Majur sangrou demais, chorou pra cachorro e está pronta pra escrever uma interessante história.

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