Eu sou cringe e você também
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Eu sou cringe e você também

Murilo Busolin Rodrigues

24 de junho de 2021 | 20h00

Você se classifica como fã da Disney, da saga Harry Potter e da série Friends? Utiliza emojis nas conversas de WhatsApp, e principalmente os emojis de risos?

Falando em risada, você ri nas redes sociais com um ‘rs’? E a pergunta crucial: é apaixonado por café? E, como qualquer ser humano na face da terra, também é adepto ao café da manhã?

Se a maioria de suas respostas para as perguntas for um sonoro SIM, sinto muito lhe dizer (talvez não sinta tanto), mas você é classificado como cringe para a geração Z.

Eu sou cringe, sempre fui cringe, talvez me torne ainda mais cringe e quem sabe, em um futuro distante eu deixe de ser? É o ciclo da vida.

Não entendeu absolutamente nada? Te explico! Cringe é um termo utilizado pelos mais jovens para designar algo que é considerado por eles como cafona, mico, defasado, ultrapassado, em desuso.

A tradução literal é próxima da ‘vergonha alheia’, ou o que eu carinhosamente chamaria de ‘uó’.

Os adolescentes criadores do termo são provenientes da geração Z, pessoas que nasceram entre 1995 e 2010 e que cresceram com o avanço desenfreado das tecnologias e redes sociais.

É a primeira geração totalmente conectada, que ultrapassa limites e promove cancelamentos e descancelamentos.

Este ex-jovem de 30 anos que vos escreve – e millennial orgulhoso de 1991 – tem a obrigação de informar que o termo cringe invadiu as redes sociais há poucos dias e viralizou até para quem nasceu há três gerações passadas.

Uma guerra virtual se acirrou nesta última semana entre a minha geração (anos 90), contra os nascidos até 2010, e tudo porque os mais jovens decidiram expor publicamente todas as ações e gostos que eles consideram… cringe.

Dividir o cabelo de lado, falar ‘tomar litrão’ ao invés de ‘tomar uma cerveja’, falar ‘boletos’, gostar de objetos de cerâmica, usar calça skinny, usar hashtags (#) em fotos e até os viciados em cafés e gatos, tudo isso é considerado algo ultrapassado por eles.

Sinceramente? Eu ri.

Te desafio a marcar menos de 5 alternativas deste teste.

É quase que bizarro imaginar que os mais novos não têm ideia do que é rebobinar uma VHS, ouvir música num discman, em um reprodutor de mp3 ou numa fita cassete.

Imagina se eu tento explicar a internet discada e o uso dos disquetes? E se eu contar que assoprava uma fita para jogar Super Mario no Nintendo?

Digitei isso e ganhei mais dois fios de cabelo branco.

Os mais novos não fazem ideia da tormenta que era assoprar uma fita de Super Nintendo para jogar um simples Donkey Kong Country.

Assim como uma boa parte das pessoas da minha geração usou e posteriormente debochou da calça de cintura baixa, chegou a vez da nova geração condenar os nossos hábitos.

Como tudo que vai, volta, a própria calça de cintura baixa já é considerada aceitável em novos looks.

A própria Shakira já usou calça de cintura baixa para receber o Grammy Latino, nos anos 2000. Agora, Emily Ratajkowski desfila por aí com um modelo sem pensar duas vezes. Foto: REUTERS/Adrees Latif

E o vinil? O item aqueceu o mercado por volta de 1980 e despencou em vendas com o avanço dos CD ‘s, que hoje em dia perderam a força com a popularização do streaming.

Adivinha quem voltou a alavancar as vendas de álbuns físicos em pleno 2021, sendo um item muito mais caro nos dias de hoje e disputado a tapas (ou filas online)?

Tcha-ram, o vinil.

A venda do vinil anda impulsionando diversos álbuns lançados recentemente. Taylor Swift e Ariana Grande foram beneficiadas pelas vendas dos físicos em 2021 e são consumidas (em sua maioria) pelos millennials, que resgataram esse ‘costume’ lá de 1980. FOTO: Amazon

Vivemos uma eterna reciclagem de gostos e costumes e aposto, que até o final desse texto, a geração Z vai achar cringe dizer cringe para o que eles consideram cafona.

Sim, eu sei que a minha geração gosta de reclamar e saturar memes em menos de uma semana. Todos nós temos uma mania natural de achar que seremos cool pro resto de nossas vidas.

Ops, usei um termo em inglês. Eu sou cringe demais – e você também.

‘Quando a palavra cringe começa a se tornar uma gíria vergonhosa de se usar’.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.