Dias de Gloria, Groove: um bate-papo com a multifacetada drag queen
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Dias de Gloria, Groove: um bate-papo com a multifacetada drag queen

Murilo Busolin Rodrigues

31 de julho de 2021 | 23h00

Acontecimento é tudo aquilo que se realiza de modo inesperado, acaso, eventualidade.

Essa foi a definição que Ivete Sangalo escolheu para a drag queen Gloria Groove após o dueto arrepiante das artistas nessa última semana de julho, no palco do Música Boa Ao Vivo (Multishow).

O elogio da baiana foi tão certeiro quanto a sua presença nos carnavais. Gloria é a maior expressão artística que o jovem Daniel Garcia criou em 26 anos, e que vem conquistando espaços importantes.

Tive agradáveis 42 minutos de bate-papo com a artista, uma entrevista que mais pareceu uma conversa de amigos em um boteco aos arredores da Praça Roosevelt (SP), e concordo com Veveta.

A Gloria é um agradável acontecimento em meio a um país de histórico caótico.

Gloria é fã de hip-hop e pop dos anos 2000, cantou Alicia Keys no Raul Gil aos 11 anos e sonha em conhecer Beyoncé. Gente como a gente.

Ela acumula mais de 5 milhões de seguidores nas redes sociais e quase 3 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

É no mínimo curioso um dos maiores nomes da música brasileira atual ser um “homem de peruca”.

“Estar fazendo sucesso, como drag queen, no Brasil de 2021? É a sensação de estar fazendo o impossível, de estar superando mais de cinco dificuldades de uma vez só, é como estar escrevendo o futuro”, disse a artista.

A paulistana – que já foi do elenco do Balão Mágico – transita por diversos estilos musicais desde o início da sua carreira, em 2015. FOTO: Rodolfo Magalhães

“É como trabalhar para um Brasil que a gente ainda acredita que é possível de acontecer, pela beleza que a gente ainda vê na pluralidade, na diversidade. Ser Gloria Groove é um espelho para quem está do outro lado também se sentir representado.”

A cantora cresceu mergulhada no R&B e pagode, muito influenciada por sua mãe, a ex-backing vocal do Raça Negra Gina Garcia.

Ela não esconde a animação ao afirmar que se alimenta do suco mais puro do pop e hip-hop, principalmente dos nomes responsáveis por marcarem os anos 2000. Flora Matos, Karol Conká, Erykah Badu, Lauryn Hill, Mariah Carey, Lady Gaga e Beyoncé fazem parte do leque de mulheres que influenciaram a sua veia artística.

“Na minha primeira era (o álbum de rap ‘Proceder’) eu procurei o destaque pelas características do hip-hop e do trap. Na minha cabeça, eu tinha definido que quando eu entrasse na cena como drag queen as pessoas iam supor que eu faria uma parada pop, eletrônica, dance. Foi maravilhoso ter essa sacada de ser a drag queen do hip-hop nesse primeiro momento”, destaca.

A paulistana transita por diversos estilos musicais desde o início da sua carreira, em 2015.

Seu último lançamento é o pagode Presente do Céu, uma versão do hit Best Part (Daniel Caesar & H.E.R.), cantada por ela e Thiaguinho. Versatilidade, vocal e flow são os elementos que constroem a sua persona.

Groove coloca gregos e troianos para dançar seus funks popalizados como Coisa Boa e Bumbum de Ouro, ao mesmo tempo em que mostra uma potência vocal absurda nas deliciosas A Tua Voz e Apaga a Luz.

O seu EP Affair (2020) entrega um mix entre o R&B mais clássico e o atual, é como se o grupo Fat Family convidasse a Rihanna para fazer um álbum.

“Existem vários estilos nacionais que eu nunca visitei, como o bregafunk e o forró. Acho que o que me faz ficar interessada no que eu estou fazendo é justamente essa brincadeira de conseguir passear pelos ritmos. A drag me ajuda a vesti-los, de um single pro outro, de um álbum para o outro.”

Em tanta evidência nos últimos meses, não foi apenas da rainha do axé music que Gloria Groove arrancou elogios. A sua participação no LudSessions, o projeto acústico de Ludmilla, rendeu uma análise apurada de ninguém menos que Caetano Veloso.

“Ludmilla está divina e Gloria é mais impressionante do que me pareceu numa visita à minha casa, em Salvador. As duas juntas agora têm a mais coesa, intensa e rica expressão de musicalidade e bom gosto que se pode encontrar neste momento”, publicou o ícone da Tropicália.

Aos berrinhos de felicidade, Gloria comentou a sua reação: “É inexplicável tentar falar o que é ter a validação de uma figura nacional como o Caetano Veloso. Eu trabalho desde criança pra isso e eu só tenho 26 anos. Ele é uma pessoa maravilhosa, um professor, assim como a Ivete, que é também uma professora”.

A cantora recebeu elogios de Ivete Sangalo, Caetano Veloso e H.E.R. só neste mês de julho. FOTO: Instagram/@caetanoveloso

O mais recente single da drag, Bonekinha, já é um dos maiores virais nacionais de 2021 no TikTok. A viciante música é a primeira amostra do seu novo álbum Lady Leste, que deve ser lançado até o fim deste ano.

“Não tem como definir esse novo material, nem limitar. Já tem mais de quatro estilos e abriram-se várias vertentes nesse processo. É a Gloria Groove sendo um polvo musical e colocando todos os braços pra funcionar. Se preparem, porque o Lady Leste é uma viagem”, respondeu a cantora sobre o seu processo de criação, que deve contar com mais de 30 faixas até chegar em seu resultado final.

Gloria Groove já passou da fase de ser apenas um “alter ego do entretenimento” ou pseudônimo de um nicho específico. Ela é cada vez mais inserida nas massas por conta do seu talento – e vive a sua melhor fase.

Foram muitos dias de luta, para os merecidos dias de Gloria.

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