Carta a Paulo Gustavo
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Carta a Paulo Gustavo

Murilo Busolin Rodrigues

05 de maio de 2021 | 16h47

Lembro de sentir o meu peito ardendo em chamas. Sabe a adrenalina máxima que só o amor consegue gerar? Que nos tira o ar por instantes?

Era o meu coração transbordando alegria por ver Adriana gargalhar das cenas de um filme em que, eu, facilmente, sentiria medo de me ver representado no passado.

Foi assim que me senti todas as vezes em que levei minha mãe para me acompanhar nas sessões dos três filmes da franquia Minha Mãe É Uma Peça. Realizado.

‘Dona Hermínia’ estreitou os laços entre incontáveis mães e filhos pelo Brasil, principalmente das mães de filhos assumidamente homossexuais. FOTO : Instagram / Divulgação

Quando descobri Paulo Gustavo, em 2012, seus personagens já eram conhecidos no explosivo 220 Volts, televisionado pelo Multishow. Estava em meu primeiro estágio da faculdade de jornalismo e ainda não lidava bem com o fato de que eu era ‘diferente’, desde sempre.

Nascer gay em uma cidade do interior é uma caminhada complicada. Ou você tem a grande sorte em ser aceito desde que você entende a sua orientação sexual (que já é uma tarefa difícil), ou você luta – e até apanha – para ter respeito.

Por conflitos familiares, adolescência, bullying e toda a carga pesada que os anos na escola pública carregam, atingi a maioridade sem a leveza e brilho no olhar daquele formando promissor do ‘terceirão’, que teve condições financeiras de viajar pra Porto Seguro e festejar a formatura.

Tenho certeza de que eu não sou o único (e muito menos o último) a compartilhar um relato semelhante.

Anos depois, me pego encarando aquele comediante careca usando peruca, vestido, salto alto, com todos os trejeitos que a minha, que a sua, que todas as mães desse imenso Brasil têm. E o melhor, fazendo a piada mais simples possível sobre o cotidiano dos filhos.

Como assim, essa tal de Dona Hermínia tem traços da minha Adriana? Como posso achar engraçado eu conseguir enxergar a minha mãe naquela mãe ‘fictícia’?

A Dona Hermínia aceita o seu filho homossexual Juliano. Naquele momento, eu já era independente e pensei: “Então há chances de eu também ser aceito numa boa? Também vamos rir disso um dia?“.

Foi assim que descobri que o humor era a peça chave para encontrar a minha leveza. Indiretamente, Paulo me ensinou que rir de si mesmo é uma dádiva – e fazer o outro rir, uma honra.

Se eu me tornei amigo e confidente da minha mãe, foi por influência de sua arte. Se eu me reconectei com a minha família, foi por ter introduzido a sua gargalhada dentro da casa dos meus pais.

O seu riso virou o nosso riso. Seus programas são os favoritos deles desde 2013.

Quando eu volto do Rio de Janeiro até Araras (SP), onde mora minha família, ainda me deparo com todos sentados no sofá, acompanhando a reprise da reprise daquele episódio de Vai Que Cola que já vimos diversas vezes.

E foi comendo pelas beiradas e rebatendo parte da militância extremista com seu trabalho que Paulo introduziu pautas importantíssimas de nossa sociedade em suas maiores produções.

Na TV paga, na TV aberta, nos teatros, no cinema, todo mundo entendeu o recado e riu. Precisava ser sutil – afinal o brasileiro nunca aceitou tanta progressão com rapidez e confronto.

Ser aceito e amado por tantos é uma conquista homérica. Principalmente aqui no Brasil.

Paulo Gustavo soube dosar e acertar o ponto como ninguém. Era tão bom que levava milhões e colecionava recordes atrás de recordes. Ele era a bicha que conseguia juntar bolsonaristas e petistas e ainda tinha a proeza de fazer todos rirem em um mesmo espaço.

 ‘É a bicha da família brasileira’. Foi assim que carinhosamente o chamei quando escrevi minha análise sobre o seu último trabalho, o especial de 220 Volts, em dezembro de 2020.

Paulo não só notou o meu texto, como repostou inteiro em seu perfil no Instagram e me agradeceu: “Amei a matéria, querido! Um 2021 lindo pra você e com vacina”’. Sorri de orelha a orelha por um dia inteiro.

O reconhecimento de um ídolo foi o maior presente da minha, ainda, curta carreira. FOTO: Instagram/@murilobusolin.

A segunda metade deste ano não vai ser tão linda sem você. A alegria vai ficar triste por um tempo, querido.

Você era a forma mais genuína do bom humor brasileiro e foi a inspiração dos melhores e mais felizes anos da minha vida.

Obrigado pela graça e também por ser meu amparo, mesmo que imaginário. Devem existir milhares de Murilos por aí compartilhando desse mesmo sentimento.

Com muito amor e admiração, do seu melhor amigo.

Vamos sim, pra sempre. Ilustração de @isabellagalvao/Instagram

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