VMB: Emicida, Criolo e Racionais mostram que rap é dedo na ferida

Estadão

21 de setembro de 2012 | 10h21

 

“O rap ainda é o dedo na ferida”. A frase, de Emicida, nunca fez tanto sentido como na noite de ontem. Parecia roteiro de filme. Na mesma hora em que os principais artistas de rap eram coroados no VMB 2012, a polícia entrava em confronto com moradores da Favela do Moinho, que pegou fogo no início da semana. De um lado, a premiação. Do outro, porradaria. Relatos falam que houve bomba de gás, bala de borracha e um homem baleado por bala de verdade mesmo. Esse foi o ano em que o VMB mais valorizou e premiou o rap na história. E, mais que nunca, o rap é a voz da periferia e da favela. “Rap é atitude política”, costuma dizer o “artista masculino do ano”, Criolo.

Sim, parecia filme. O vencedor da noite, Emicida, estava na festa para ser premiado justamente por causa da música e do clipe de “Dedo na Ferida”, que fala sobre o massacre de Pinheirinho. Ele próprio já ficou sem casa por conta de desocupações de favelas quando era criança e essa é uma das suas maiores causas.  O refrão é:  “foda-se vocês, fodam-se suas leis”. E a frase: “o rap ainda é o dedo na ferida” é dessa música.

Na noite de ontem, Emicida e seus “irmãos” mostraram que o rap é o dedo na ferida, sim. E demonstraram a tal atitude política de que Criolo fala. “O momento não é de festa”, disse Emicida ao subir no palco para ganhar o prêmio de música do ano por “Dedo na Ferida”. “A polícia está impedindo moradores de voltarem para suas casas na favela do Moinho. O momento não é de festa.” O rapper empunhava uma bandeira do MST e usava uma camiseta do Cólera, banda de punk rock ativista que acabou ano passado após a morde de seu líder, Redson.

Criolo já tinha mostrado que “a família” não estava ali para brincadeira. Ao ser eleito o melhor artistista masculino do ano, dedicou o prêmio “às autoridades do Brasil que com certeza vão investigar os incêndios que castigam as favelas de São Paulo”.

No fim da noite, os mitológicos Racionais MCs mostraram o quanto a música pode ser absurdamente política. Clipe do ano vencedor: “Mil faces de um homem leal, Marighella”. A  música foi feita para o líder da ALN, morto durante a ditadura militar. “Super herói mulato, defensor dos fracos”.

Se alguém tinha dúvida, ontem ficou provado. Os meninos do rap são hoje os artistas com mais coragem e atitude política no Brasil. E, graças a eles,  foi bonita a festa, pá.

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