Para entender o caso: Conar, blogs de moda e o vazio

Estadão

29 de agosto de 2012 | 15h00

Aconteceu. As blogueiras de moda foram parar na página de economia dos jornais, no noticiário do “dia”. Motivo: o Conar está investigando três delas e a loja Sephora, que supostamente pagaria para que elas falassem bem de seus produtos sem avisar que aquilo era publicidade.
Vamos lá. Pelo que sei, se o Conar resolver investigar de verdade o quanto existe de publicidade disfarçada de estilo de vida em alguns blogs de moda e maquiagem (negócios milionários), muitos deles vão perder praticamente todo seu conteúdo.
Basicamente, a coisa funciona do seguinte jeito. A blogueira X é muito influente na rede, tem 500 mil seguidores no Twitter, audiência incrível, suas fotos de look do dia (com serviço do que ela está usando) são curtidas por mais de mil pessoas no Instagram. As tais “it girls” são as garotas que as outras querem ser. O exemplo SUPREMO. A líder de torcida da internet.
Normal. Todo mundo sempre precisou de modelo de inspiração. E isso não é necessariamente ruim. A coisa começa a ficar complicada quando o tal modelo não é um poeta, uma roqueira, alguém que vive de uma maneira incrível. Mas alguém que “consome” a peça Y, mistura com o acessório Z e usa o esmalte X. Essa fulana vira objeto de adoração porque consome. Só por isso (e frequentar o cabeleireiro “certo”, usar o make “certo”, morar na casa bem decorada, tudo isso é consumo, não esqueçam).
As denúncias que o Conar começa a investigar mostram que o buraco é mais embaixo. Na verdade, as meninas que servem de exemplo para tantas outras Brasil à fora não usam muitas daquelas roupas, ou elogiam aqueles produtos porque realmente gostam deles, mas porque SÃO PAGAS PARA ISSO.
Exemplo. Blogueira X ganha 20 mil reais de uma marca para usar seus produtos por um mês. Usa, faz “matérias” e diz no seu blog que está apaixonada por aquela peça. A leitora pobre coitada, que se espelha na blogueira X, além de ter como ídola alguém que está ligado a um “life style” (elas usam essas palavras em inglês para parecer mais chique?) glamouroso, está sendo enganada. Sua ídola nem gosta tanto assim daquela peça que disse que a outra TINHA QUE TER. Ela finge que gosta para ganhar uma grana (alta).
Enganar leitores é uma coisa cruel. Enganar leitoras muito jovens mais ainda. Viver de aparência é péssimo para todo mundo: a menina que faz o blog não deve ser tão feliz assim vivendo de perfumaria e postando fotos em espelhos de elevador. Ou vai ver é. Mas triste mesmo é a leitora, que vai na onda, gasta mais do que tem e se endivida para ser como a blogueira X.
É a época do hiperconsumo. Da imagem como expressão máxima (única?) de quem se é. Ok. A imagem, quando é original, fala muito. Lembremos dos “Apaches, Punks, Existencialistas, Hippies, Beatniks de todos os Tempos.”
Não é o caso da blogueira X nem da leitora Y, que apenas copiam para “serem alguém” “A sua roupa nova é só uma roupa nova, você não tem ideias para acompanhar a moda”, cantava Renato Russo em 1985. Com a facilidade de comprar, comprar, comprar e a oferta de produtos, a quantidade de roupa nova disponível e que VOCÊ TEM QUE TER só aumentou. E a vontade de refletir parece ter diminuído.
O Conar talvez tenha que começar a investigar a “era do vazio.”