Os 70 anos de Caetano e o medo de ver os ídolos envelhecendo

Estadão

06 de agosto de 2012 | 19h57

“Ai, meu deus, essa semana ainda vai ter o aniversário de 70 anos do Caetano, tô muito mexida”. Minha amiga comenta isso domingo de noite. E arremata falando que começou a fazer sozinha uma homenagem. “Estou ouvindo todos os discos. “Cinema Transcedental” é lindo, né?”. Essa mesma amiga deu uma choradinha básica na semana em que Gilberto Gil fez 70 anos. “Tô muito sensível”, avisou.

Há tempos esse assunto surge em conversas de bar em tom de preocupação e medo: “nossos ídolos estão envelhecendo!”. Não falamos muito sobre isso, na verdade. Não conseguimos. Só de vez em quando. E não, não achamos que eles envelheceram como artistas. MUITO PELO  CONTRÁRIO.

A gente tem medo de ver nossos ídolos envelhecendo. Na verdade, a gente tem PAVOR. Isso não só porque os amamos. Mas também porque temos medo de encarar nossos pais envelhecendo, nossos tios, nossos amigos, o mundo inteiro envelhecendo!  E claro, se estão todos ficando velhos, é porque nós também estamos, certo? Medo.

No show “Recanto”, da Gal, não só eu, mas muitos choraram na hora em que ela cantou: “eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista, o tempo não para e no entanto ele nunca envelhece” e demos uma olhada para o cabelo do Caetano sentado na primeira fila.

Há anos entrevistei o Caetano para a “Revista Tpm” junto com o Fernando Luna e ele disse que preferia se ver em fotos mais jovens. “Não fala isso, Caetano”, eu disse, bem louca. “Mas eu prefiro, não posso fazer nada”, respondeu.  Claro, eu esperava que ele dissesse que adorava se ver mais velho e assim eu me sentisse melhor e tranquila com esse assunto “eu comigo mesma”.

O que importa, além do nosso medo de ficar velhos: repito o que já disse aqui em outro post. Os tropicalistas (e não só eles, olhem para Wanderléa, Erasmo e Roberto) nos ensinaram tanta coisa e agora nos ensinam a envelhecer. Continuamos querendo  ser iguais a eles quando crescer. E quando a gente envelhecer (medo) também.