Globo de Ouro, Carrosel e o surto de melancolia

Estadão

24 de maio de 2012 | 18h16

“Tente entender em que ano estamos”. Bem, não vai ser fácil. Na firma, pessoas comentam os capítulos da novela “Que Rei Sou Eu”. Você se pergunta: “mas como? Isso não era uma história tão do passado que eu nem lembro mais que existia?” De noite, a programação é outra. Assistir ao Globo de Ouro. Hã? E uma das novelas sensações do momento é “Carrossel”.
Os responsáveis diretos pelo surto de melancolia no Brasil 2012 são, entre outros, o Canal Viva (na TV paga, que passa principalmente atrações antigas da TV Globo). Mas, claro, tanta nostalgia encontra eco na audiência, formada pela gente mesmo.
O “Especial Globo de Ouro”, que vai ao ar de terça a sexta, virou uma febre. “Você vai ver o Globo de Ouro hoje?”, me perguntaram ontem. Achei que era a premiação. Juro.
Por que tanto apego ao passado? Será que o presente anda tão ruim assim? Será que é preciso lembrar (e ver e rir) da época em que a Angélica cantava “Vou de Taxi”? Como somos melancólicos! Só uma lembrancinha. Os anos 80 não foram tão legais assim, não. O presidente era o Sarney. E tinha também o Collor e a Casa da Dinda. Aquela era a época da inflação. Nossas mães iam correndo para o supermercado porque os preços seriam remarcados. A dívida externa nos dava pesadelos e quando crescêssemos não conseguiríamos trabalhar no que queríamos, porque o mercado estava péssimo. Vocês lembram?
E a programação de TV…. A gente via Globo de Ouro porque não existia internet nem youtube. E se é para falar de novela. Bem, “Avenida Brasil”, a trama das nove, mostra que até a teledramaturgia evoluiu no Brasil. Quem diria? E na música também tem uma moçada nova fazendo coisas bem legais por aí. Muita gente sabe disso. Mas mesmo assim, o Globo de Ouro continua chamando nossa atenção.
Estamos irremediavelmente presos ao passado. E também com uma certa preguiça de sair de casa, presos que somos aos nossos bens (TV, celular, I pad, i pod i phone).
Claro, sentimos saudades da infância. Normal. Quem não sente? Saudades da adolescência? Todo mundo, absolutamente todo mundo tem. (Momento querido diário: eu tenho tanta saudade que nem consigo assistir à reprise do programa).
Mas é engraçado ver que a distancia do tempo faz a gente esquecer todo o lado ruim do passado e o bom do presente. Aquela musica que eu detestava passa a ser emocionante. O que era brega vira cult. Aquele ex-babaca vira uma lembrança doce. E somos capazes até de gostar de novela ruim.
A grama do vizinho é sempre mais verde. A grama do passado também.

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