Fátima Bernardes e o jornalismo de geladeira

Estadão

25 de junho de 2012 | 16h00

As imagens mais marcantes de Fátima Bernardes são as dela como repórter. A apresentadora, que sempre segurou com competência a apresentação do “Jornal Nacional”, brilhava de verdade quando cobria ao vivo uma tragédia ou entrava no ônibus da seleção e era eleita musa da copa. E foi exatamente esse lado que ficou de lado na estreia do aguardado “Encontro com Fátima Bernardes”, que aconteceu hoje.

O programa apresentou um jornalismo frio como uma geladeira. “Ficar na geladeira”, por sinal, é o termo usado no meio jornalístico para deixar alguém pendurado ou encostado no emprego. Claro, não dá para falar que uma pessoa que ganha um programa diário ao vivo de uma hora esteja exatamente na geladeira. Mas Fátima Bernardes, destituída de brilho da repórter intrépida, estreou falando de adoção, tema importantíssimo, mas tratado sem clima de calor da hora, viagem para o exterior e depilação. Uma jornalista como ela merece mais. E antes ela estava ali, pronta, falando com cara séria dos assuntos mais importantes do dia.

A matéria sobre viagem para o exterior merece um parágrafo só para ela. A TV Globo agora fala da chamada Classe C sem parar. Às vezes funciona. Às vezes não, como no caso da história dos três amigos que conseguiram realizar o sonho de conhecer a Disney. A matéria, arrastada, parecia sem propósito, sem ritmo. Eles viajaram e voltaram, poderia ser o resumo.

Fátima conta com auditório, ajuda de um humorista e convidados, no molde de programas americanos como Oprah, a comparação mais óbvia. A diferença é que Oprah tem sangue, suor e lagrimas. O programa de Fátima, por enquanto, não tem nada disso. A parte mais quente foi a pequena participação de William Bonner, que além de mostrar um clima festa de firma, falou sobre os destaques jornalísticos do dia. O pau quebrando ali no Paraguai e Fátima falando sobre depilação?? Ela não merece. Nem o público. Sensação. O programa só começou quando acabou e entrou no ar o telejornal.

Dizem que pela manhã as pessoas (mulheres donas de casa, ainda) gostam de ver coisas leves. Há duvidas. Em todo caso, leve é diferente de gelado. Ok. Era estreia. Pode melhorar. Deve melhorar. Espera-se. Uma repórter como Fátima Bernardes merece.

 

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