A prisão Emicida, a música pop de combate e o racismo

Estadão

14 de maio de 2012 | 13h39

O rapper Emicida foi preso ontem em Belo Horizonte por desacato à autiridadade. Motivo:  cantar a música “Dedo na Ferida”. E falar para a platéia levantar o dedo no refrão que diz: “fodam-se suas leis, fodam-se vocês.”

Vamos lá. Emicida não mandou ninguém atacar a policia, praticar vandalismo, quebrar o estádio. Sugeriu que levantassem o dedo em uma música que chama dedo na ferida e que fala mal da policia, mais precisamente da desocupação de Pinheirinho.
Usar palavrões em música é parte da cultura rap e das musicas pop de protesto. Normal. Assim como as gírias. As letras de rap são escritas do jeito que se fala no “dialeto suburbano”, como diz Criolo, amigo e parceiro de Emicida na música “Mariô”. A mesma em que diz: “eu odeio explicar gíria.”

Emicida também deve odiar. Então, não vamos fazer o garoto explicar sua letra, certo?
Quando ouvi Dedo na Ferida pela primeira vez, achei a música leve para um rap com esse nome. No bar, eu e amigos lembramos que os Racionais já haviam cantado “Não confio na policia raça do caralho.”

E agora lembro de “Policia”, da mega ultra mainstream banda Titãs. Eles falavam “policia para quem precisa. Policia para quem precisa de policia” nos anos 80, época em que a ditadura não tinha nem acabado direito. Renato Russo, no famoso episódio do estádio Mané Garrincha, xingou a policia e quem mais passasse pela frente. Lembranças antigas da minha adolescência. Mas  nenhum artista foi preso (ainda bem).

Em 97 os integrantes do Planet Hemp foram presos. Além de cantar coisas como “eu canto assim porque fumo maconha”, eles eram quase todos pretos. E cantavam rap.

Emicida sempre é “quase preso”. Ele conta que vive tomando dura da policia: porque é pobre, preto e mora na periferia.
O rapper que foi preso ontem pode, sim, de alguma maneira, ser comparado aos titãs dos anos 80. Ele é um artista pop, com amplo sucesso na MTV. Os filhos dos meus amigos, meninos de seus nove anos, são fãs do Emicida. E faz sentido. Nos palcos, ele é simpático, muitas vezes engraçado e tem cara de menino. E ele é mesmo um menino de 26 anos.

A história de Emicida é impressionante. Ele saiu da linha da miséria absoluta cantando sua luta. Hoje, trabalha muito, muito mesmo. O artista tem uma agenda de shows lotada. É um guerrilheiro do rap que trabalha muito e honestamente. Mas, como diz seu amigo Criolo, de novo,” trabalhador brasileiro é tratado como lixo”. Principalmente se for preto e pobre e cantar rap.

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