Associação dos dependentes de “Avenida Brasil”

Estadão

18 de julho de 2012 | 13h39

Uma amiga operou o joelho. Ao acordar da anestesia geral, dizia. “Eu quero ver a novela, quero saber o que vai acontecer com a Carminha. Cadê a Carminha! A Carminha!”. A história é verídica. “As enfermeiras ficaram meio chocadas e me falaram: ‘nossa, a gente não esperava isso de uma jornalista séria”. A amiga R., mãe de dois filhos, viciada em ioga, aproveitou e, ainda com o efeito da anestesia, contou todo o enredo da trama para a tia que estava com ela no hospital. “Não lembro de nada, mas ela disse que eu acertei tudo, que expliquei que a Nina na verdade era a Rita e tudo.”

Sim, a novela das nove é responsável por um fenômeno de vício. E em breve alguém vai criar a ADAB (Associação dos Dependentes de Avenida Brasil). “PELO AMOR DE DEUS TO NA RUA ALGUÉM ME CONTA O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA NOVELA!”. O apelo de A. pelo twitter não surtiu efeito. Ele insistiu. “Gente, é sério, estou na rua, alguém me ajuda e conta o que está acontecendo pelo amor de deus”. Na mesma hora em que esse amigo fazia o apelo, acontecia o de sempre. Eu olhava para a tela do timeline e ela estava tomada de “oi, oi, oi”.

Explico. Quando a novela começa e a vinheta (horrível) fala“oi, oi, oi”, uma espécie de “flashmob” para avisar que a novela já começou acontece todas as noites; Todos estão loucos, sim.

Eu sou do tempo em que os pais criavam os filhos falando que novela era coisa do demônio. Meu pai me proibia de assisti-las e chegou a colocar a televisão na área para que eu não visse TV. Ver novela era coisa de alienado e de burro.  O tempo passou. Sou mais uma viciada em Avenida Brasil.

Assim como a amiga E.. às vezes quero que a novela acabe logo. “Para saber de uma vez o que vai acontecer.” Ou faço texto tentando me justificar por ver novela. Tipo a mãe da J., historiadora, da geração dos pais que não deixavam os filhos verem novela porque era coisa de alienado etc. Por culpa da J., pegou vício. E veio comentar com a filha toda contente: “li que a Fernanda Montenegro também gosta da novela!”. Como se o fato de uma atriz “intelectualizada” gostar da trama a liberasse a cometer tal pecado.

Quem é viciado em Avenida Brasil ama o Tufão, acha o núcleo do Cadinho meio idiota e nutre paixão carnal por Darkson. Temos vontade de morar em uma casa que tenha uma mesa de café da manhã animada e cheia de briga como a do Tufão no Divino. E queríamos ter um avô chamado Leleco. Talvez a gente sinta saudades de ter uma família grande, da mesa da casa da avó no domingo. Ou talvez a novela só seja boa mesmo. Amanhã é dia sagrado para os dependentes de Avenida Brasil. A novela chegou ao capítulo 100. E os autores vêm avisando desde o início que esse momento marcaria uam mudança na trama radical. Vamos assistir, claro. E ainda “fazer oi, oi, oi” no twitter”.  Se eu sinto culpa por ser viciada em novela? Sim. Se eu pretendo largar o vício? Não.

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