A volta de “Dallas” e o declínio do império americano

Estadão

23 de junho de 2012 | 15h53

Era o fim da década de 70, ou início dos 80. Não lembro direito porque era criança. Sei sonhava que com os Estados Unidos (por mais que meu pai falasse que aquele país era a terra do demo). Grudadas na televisão, víamos “Dallas”, a novela americana que foi exportada para 67 países (!!). Nos deslumbrávamos com o prédio onde funcionava os escritórios da família Ewing e éramos todas apaixonadas pelo Bobby, o irmão bonzinho da família milionária do Texas.

Isso deve ser alguma anomalia de “geração Coca-Cola que desde pequena comeu lixo”, mas “Dallas” foi mais marcante na minha infância do que “Gabriela”, a novela que voltou com altos índices de audiência na TV Globo. E acho que não sou a única.

Eu queria mesmo era ser a Pamela, mulher do Bobby, e inimiga da Sue Ellen, esposa do monstro J.R. Atenção: não confundir com a personagem periguete-libertária de “Avenida Brasil”. A Sue Ellen gringa era má, sem caráter, só queria saber de dinheiro e de ferrar com os outros. Dallas era uma série pré yuppie. Falava-se muito de dinheiro, de milhares de dólares. Não, não existia euro. E a gente devia muito dinheiro para o FMI e os Estados Unidos mandavam muito no mundo (mais que hoje) e tínhamos amor e medo por eles.

Agora, a série voltou em nova versão e é exibida pela Warner. A trama mostra vida dos filhos dos personagens principais, Bobby e J.R. Engraçado imaginar. Será que a série-novela vai ter força agora que os EUA não estão assim com essa bola toda? Será que vale a pena mostrar montanhas de dólares na televisão quando a moeda norte-americana vale bem menos que o Euro, que mesmo assim está em crise?

Pode ser que os personagens, em época politicamente correta, voltem culpados. Vai ver os herdeiros da fortuna (ganha com PETRÓLEO) vão doar parte do dinheiro para ONGs. Ou vão andar por aí deprimidos porque o nome da família não vale mais tanta coisa, investindo em energia solar.  E os filhos do Bobby, o bonzinho, talvez entrem para algum movimento estilo Ocuppy.

Fato. Riqueza americana jogada na cara dos outros provavelmente não ganha ibope. Os novos Estados Unidos precisam ser, antes de tudo, politicamente corretos. Lembrança. O seriado Beverlly Hills 9210, que voltou em versão moderna, com Brendon, o galã bonzinho, transformado em um negro que foi adotado pelos pais.

Dinheiro não vale mais tanto como marketing. Mas correção política vira marketing e dinheiro. Vai ser bem engraçado ver no que vai dar essa versão 2012 de “Dallas”

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