A “tendência” das empregadas e a esquizofrenia da TV

Estadão

25 de julho de 2012 | 13h27

“Madame, ligaram para a senhora”. Até pouco tempo, essa era a fala padrão de uma empregada doméstica em uma novela de televisão. As moças invisíveis vestidas de branco continuavam invisíveis na TV, apesar de ser audiência das emissoras. Bem, tudo mudou por causa da ascensão da chamada Classe C. E as duas principais novelas da TV Globo mostram gente “do povo”. E empregadas, curiosamente, se vingando de patroas.

Luta de classes em novelas da Globo? Incrível. Em “Cheias de Charme”, três moças montam o grupo Empreguetes e se vingam das patroas más. E em “Avenida Brasil”, a personagem Nina (que tem muitos outros motivos para vingança além da luta de classes etc) colocou ontem sua ex patroa madrasta Carminha para limpar o chão e gritou: “me serve, vadia”. A frase logo virou sucesso na Internet.

Será que uma espécie de Saltimbancos (quem não lembra do jumento, do gato, da galinha e do cachorro se vingando de seus donos?) começou a tomar conta da TV?

Bem, nem tanto. Enquanto muitas moças que trabalhavam como escravas pedem demissão para ter uma vida melhor (aleluia!), na rua, nos prédios neoclássicos e também na televisão existe um assunto entre as “donas de casa”: “falta empregada”, “ninguém mais quer dormir no serviço”. Sim, há quem reclame disso ao invés de comemorar. E essa parcela da audiência também precisa ser contemplada, certo?

Dia desses, no problemático programa de Fátima Bernardes, o tema era relação de empregadas com patroas. No auditório, todos ficaram boazinhas. A patroa que tinha empregada que dormia em casa disse orgulhosa que até pagava o plano de saúde da moça, porque ela era uma pessoa “da família”. Como se pagar plano de saúde não fosse pura obrigação de um empregador minimamente decente.  E como se alguém ainda caísse nesse papo furado de “parte da família”.

Esquizofrenia da vez. Nas novelas, as empregadas se vingam de patroas que as tratam muito mal. Nos programas “jornalisticos” todos se dão bem e a casa grande e a senzala continuam “em harmonia”. Sugestão. Fazer um debate de verdade entre empregadas domésticas e patroas na TV. Sim, o
bicho vai pegar. Mas não é isso o que ainda acontece na vida real? Ah, uma dica, não vale convidar, como se tem feito, a empregada para ir ao programa ao lado da patroa. Parece obvio que a moça vai ficar acuada. Certo?

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