A estréia do programa “Ídolos Kids”: desde pequenos nós comemos lixo

Estadão

06 de setembro de 2012 | 14h39

“Onde está o juizado de menores?” Essa foi a pergunta que veio a cabeça de qualquer pessoa sensata que teve o desprazer de ligar a televisão ontem na hora em que a Record estreava sua nova atração, o programa “Ídolos Kids”, versão infantil do programa “Ídolos”.

A proposta oferecida por “Ídolos”, “American Idol” e qualquer outra nova modalidade de shows de calouros é questionável em si.  O que é ser um ídolo? Por que todos querem ser famosos? Que sonho está sendo vendido? Mas tudo ganha ares de terror quando quem se exibe são crianças (uma delas tinha cinco anos).

Os pais são um show de terror a parte. Ontem, enquanto cada criança entrava para uma audição-entrevista com os jurados (Kelly Key, João Gordo e Afonso Nigro, ex Dominó) eles ficavam do lado de fora, ouvindo tudo por um fone. Mães choravam, rezavam, tinham ataques. Pobres criancinhas.

Exibir crianças como animaizinhos de estimação não é novidade no mundo. Os concursos de beleza infantil são sucesso nos Estados Unidos. Mães dão a vida e seu dinheiro para ver sua filha de dois anos ganhar um prêmio porque “ela adora desfilar” (sei, criança de dois anos sabe do que gosta, conta outra!).  Essa praga andava longe do Brasil. Só assistíamos aos tais shows de horror em documentários e em filmes como o sensacional “Pequena Miss Sunshine”.

Agora, o pesadelo está perto de nós. Nossas criancinhas estão na arena pronta para serem julgadas. Pérola do absurdo. Kelly Key, para um menino tímido de óculos. “Me convence de que você deve ficar?”. Como uma criança pode convencer um adulto?  Por que uma criança teria que fazer isso? No que depender da TV, dos pais e dos jurados, a criança é o novo adulto com sede de sucesso, pronto para ser humilhado.

“Desde pequenos nós comemos lixo”.

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