Uma ode ao chavismo

Estreia amanhã 'Ao Sul da Fronteira', filme dirigido por Oliver Stone que fala sobre Hugo Chávez. O filme tem uma visão parcial que praticamente santifica o presidente da Venezuela

Estadão

03 de junho de 2010 | 08h06

Oliver Stone e Hugo Chávez (Foto: Divulgação)

Oliver Stone e Hugo Chávez (Foto: Divulgação)

Fernanda Brambilla

A nação mais poderosa do mundo é governada por um presidente capitalista, belicista e inescrupuloso quando se trata de seus vizinhos menos desenvolvidos do sul. Esse presidente é rodeado por uma corja de mentirosos e ignorantes que comandam o noticiário e, assim, influenciam (mal) a opinião pública, com seus comentários preconceituosos sobre os latinos. Enquanto isso, os líderes da América do Sul comungam sonhos esquerdistas de liberdade e crescimento econômico. Nesse contexto, há um herói que desafia os comandos de Washington. Seu nome é Hugo Chávez.

Essa é a premissa de Ao Sul da Fronteira, documentário do diretor Oliver Stone (de Platoon), que chega aos cinemas brasileiros amanhã. O cineasta norte-americano viajou à Venezuela em 2008 para acompanhar a rotina de trabalho de Chávez, protagonista do filme, e discutir a relação tortuosa – e injusta, para Stone – com os Estados Unidos. De lá, o diretor seguiu a outros países de esquerda para discutir o desenvolvimento do continente e as relações entre os vizinhos, e colheu entrevistas com amigos do venezuelano: Evo Morales, da Bolívia; o casal Kirchner, da Argentina; o paraguaio Fernando Lugo; o irmão de Fidel, Raúl Castro, em Cuba; e, finalmente, o presidente Lula.

Em tom quase messiânico, o documentário lembra a infância, o passado militar e a trajetória de Chávez ao poder, em 1998, após as revoltas sociais do final dos anos 80 e a tentativa frustrada de golpe de Estado, em 1992. As passagens mais inflamadas ganham refresco quando os episódios célebres de provocação mútua entre o venezuelano e o alto escalão de George Bush são lembrados. Um dos mais divertidos é seu discurso de 2006 na Assembleia da ONU, quando Chávez se benze ao subir ao púlpito e diz que o salão cheira a enxofre pela presença do desafeto.

Mas a grande crítica de Stone não é direcionada a Bush, mas à postura dos meios de comunicação dos EUA. Passagens de programas de TV são misturadas – à la Michael Moore –, e mostram âncoras e analistas que se referem a Chávez como “ditador”, “crápula” e “tirano” – que não é nada mais do que a verdade. Os jornalistas falam da coca boliviana de forma equivocada como ‘cacau’ e até como ‘cocaína’ (a droga é resultado de um processo químico da folha da coca). O próprio Michael Moore, aliás, dita a linha de pensamento de Stone ao atacar um dos apresentadores. Em resumo, a culpa da guerra é da imprensa. Stone critica jornalistas americanos, mas esquece que a imprensa venezuelana tem sofrido nas mãos de Chávez, que, ditador que é, já fechou seis emissoras de TV e mais de 30 rádios que se negavam a mostrá-lo como salvador da pátria venezuelana.

Momentos curiosos também recheiam o documentário e o tornam mais palatável a quem não se deixar impressionar pela lista de façanhas chavistas. Ao desembarcar na Bolívia, visivelmente abatido pelo ar rarefeito na altitude de La Paz, Stone pede ao presidente Evo Morales para ensiná-lo a mascar folhas de coca. Depois, convida o boliviano para um futebol no quintal. Em Buenos Aires, o cineasta discute com Cristina Kirchner a recessão enfrentada pela Argentina no início dos anos 2000, mas a desconcerta ao perguntar sobre seus sapatos.

O diretor também enfrenta sua saia-justa, quando Chávez o guia até uma fábrica de processamento de milho e solta a piada: “É aqui que escondemos a bomba do Irã”. Stone fica sem graça. A bomba, de processamento de milho, é resultado de negociações com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, com quem os EUA cortaram relações. A participação de Lula, ainda que breve, retrata o brasileiro como o irmão rico do sul. Às vésperas da posse de Barack Obama (o filme termina em janeiro de 2009), Lula diz: “O Obama precisa saber que tem três grandes desafios pela frente: cessar o bloqueio a Cuba, estabelecer a paz no Oriente Médio e depois, claro, convidar o Chávez para viajar para Miami.”

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