Uma noitada com um morto quase vivo

Estadão

21 de maio de 2010 | 12h28

Quincas é um funcionário público cujos amigos o levam à farra mesmo morto (Foto Divulgação)

Quincas é um funcionário público cujos amigos o levam à farra mesmo morto (Foto Divulgação)

‘Quincas Berro d’Água’ mostra cadáver levado por amigos para celebrar o aniversário em Salvador

Inspirado no romance de Jorge Amado (1912-2001), o filme Quincas Berro d’Água entra em cartaz hoje. Dirigida por Sérgio Machado, a produção conta a história de um ex-funcionário público, vivido por Paulo José, que um dia deixa sua família e cai na farra. Quando é encontrado morto, a sua vida atual e seu passado de pai de família entram em conflito.

Para Machado, a estreia é também uma forma de retribuir o apoio que o escritor baiano deu a ele no início da carreira. “Comecei a trabalhar com cinema graças a ele. Um dia, Jorge Amado me ligou e disse que tinha visto um dos meus curtas. Ele mandou o meu filme Troca de Cabeças (1993) para Walter Salles, com um bilhete. Virei assistente do Waltinho, aprendi muito com ele. Devo muito ao Jorge. Até dei ao meu filho o nome dele”, conta o diretor.

A divertida narrativa parte da morte de Joaquim Soares da Cunha, que se transformou no beberrão Quincas Berro d’Água. Para quem espera drama, o protagonista, em sua narração, avisa: “Minha vida de morto é mais animada do que a de muito vivo por aí”. Quincas morre ao lado de uma garrafa de cachaça no dia em que completaria 72 anos. A notícia de sua morte chega rapidamente à casa de sua única filha, Vanda, papel da atriz Mariana Ximenes. Membros da aristocracia baiana, Vanda e seu marido (Vladimir Brichta) se desesperam com a possibilidade de que seus amigos ricos descubram as condições em que Quincas vivia.

Do outro lado, estão quatro de seus companheiros de bebedeira. Desconsolados por Quincas não estar presente para comemorar seu aniversário, aproveitam um descuido dos familiares para roubar o corpo do caixão. Juntos, partem para uma saga com direito a botecos, bebidas, furtos, fuga da polícia, brigas e uma visita ao bordel de Manuela (Marieta Severo). “É uma ode a estar vivo, apesar dos problemas”, diz Machado.

Passado e presente
Tendo como cenário uma Salvador que mistura beleza e decadência, o longa-metragem se passa entre os anos 50 e 60, mas não perde sua contemporaneidade. “Basicamente, nossa ideia foi fazer um filme que se passasse nas décadas de 50 e 60, mas com a cara de uma produção feita em 2010”, destaca. Para o diretor de arte, Adrian Cooper, o filme é ambíguo. “Apesar de gestos e roupa de época, é muito centrado na Salvador de hoje. Tendo Paulo José, fica sempre moderno”, diz Cooper.

Aos 73 anos, Paulo interpreta o morto Quincas. Sérgio Machado vê a presença do ator como um presente. “Começo meus filmes fazendo desenhos das cenas. Quando fazia o Quincas, ele tinha a cara do Paulo José. Em contato com a Quica Lopes, mulher do Paulo, descobri que ele estava bem (o ator sofre de Mal de Parkinson) e que poderia fazer o filme. Fui falar com ele, que me recebeu animadíssimo e cantando uma música de Dorival Caymmi”, revela.

Dar vida ao morto deu trabalho a Paulo. “É mais difícil interpretar um cadáver do que um vivo. Fizeram dois bonecos parecidos comigo, mas quase não foram usados. O Quincas é um morto muito vivo”, diz o ator. Para Machado, o problema foi a falta de habilidade dos modelos. “Os bonecos não têm o menor talento”, brinca.

(Maiara Camargo)

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