Sim, o morro (agora) tem vez

Longa braseileiro '5 Vezes Favela', estrelado por Cario Blat e dirigido por Jeferson De, estreia hoje (27) nos cinemas brasileiros

Estadão

27 de agosto de 2010 | 03h00


Trailer de ‘5 vezes Favela’

Luiz Carlos Merten

Foi uma bela festa, a de encerramento do 38.º Festival de Gramado. Caio Blat, melhor ator por Bróder, disse que o Kikito foi o melhor presente que ganhou na vida. “Agora já posso dizer – sou negão.” A euforia do diretor Jeferson De não era menor e, no palco, ele puxou o ‘Parabéns a você’ para a filha, que comemorava aniversário – longe do pai, por causa do festival. Em outro evento anterior, o Festival de Paulínia, a festa havia sido de 5 Vezes Favela, a nova versão – Agora por Nós Mesmos – da obra cultuada dos anos 1960, considerada um dos marcos do Cinema Novo.

Bróder abriu Gramado e foi o grande vitorioso da competição brasileira. O filme estreia em novembro, mês da consciência negra. Hoje estreia 5 Vezes Favela, grande vencedor de Paulínia. Com esses dois filmes, algo se passa no cinema brasileiro. Foi o que disse Jeferson De, que a reportagem reuniu para uma conversa com diretores de 5 Vezes Favela. Ela ocorreu à tarde, na véspera da premiação. Os dois filmes não apenas dialogam entre si – a periferia vista por ela mesma –, como dialogam com o próprio cinema brasileiro. E isso é uma novidade na produção nacional.

Qual é a importância, para vocês, de filmes como ‘Bróder’ e ‘5 Vezes Favela’, que retratam a periferia a partir de dentro?
Jeferson De: A gente começou a década com Cidade de Deus e agora termina não com o negro na frente das câmeras, mas com um cara como eu, que está atrás delas. Isso me parece a própria diversidade brasileira bem representada, mas o importante é que também é uma forma de nos libertarmos da influência de Cidade de Deus. O filme de Fernando Meirelles teve um impacto extraordinário sobre o cinema brasileiro, virou a representação do Brasil para o estrangeiro. Mas a gente, da periferia, mesmo admirando o filme, não se sentia representado por ele, nem queria ser. A relação era de admiração e ódio. Acho que, de alguma forma, está ocorrendo aqui a nossa superação do complexo de Édipo. Fernando é o pai cuja influência precisamos matar, para seguir em frente.

‘Bróder’ representa a periferia de São Paulo, ‘5 Vezes Favela’ retrata as comunidades do Rio. É curioso, porque a favela está no título e na tela, mas vocês não a nomeiam. Por que isso?
Jeferson De:
No imaginário brasileiro, a favela é um fenômeno carioca, mas ficou tão depreciativo que a gente prefere usar as outras denominações. Filmei no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, mas sou de Taubaté. Lá, eu era um garoto remediado, mas não tinha consciência da minha situação nem da minha cor. Só tive consciência de que era negro quando cheguei a São Paulo para estudar. E ou você se rebela contra isso, tenta se superar, ou aceita que as coisas não têm solução.
Roberta Rodrigues: Acho que todos nós sabemos bem o que o Jeferson está dizendo. Voltando ao Cidade de Deus, o filme foi importante, criou oficinas de interpretação, abriu mercado de trabalho para mim e para muitos atores negros jovens. Tudo muito bacana, mas a nossa representação na tela era uma. A favela como espaço da violência, do tráfico. A comunidade implica outro conceito. Não quero ser só a negra sexy no ambiente de violência. A comunidade é muito mais rica, as pessoas são muito mais complexas do que os estereótipos a que o cinema pode reduzi-las.

Assisti a ‘5 Vezes Favela’ em Cannes, em maio, e gostei, mas muitos coleguinhas da crítica acharam o filme ‘ingênuo’ e ‘maniqueísta’. Como vocês reagem a essas críticas?
Manaíra Carneiro: Eram previsíveis. 5 Vezes Favela nasceu como um projeto do Cacá (Diegues), que já vinha trabalhando em comunidades, fazendo oficinas de cinema. Ele sentiu a nossa vontade, dos de dentro, de nos retratarmos, fugindo a esse olhar ‘de fora’. O cara chega de carro à favela, monta sua câmera, seu plano, e diz como nós somos. Mas quem e como somos, nós é que sabemos. Qual é a ingenuidade do Arroz com Feijão? Ou do meu filme, o Fonte de Renda? Meus garotos são roubados pelos branquinhos de classe média. O Silvio (Guindane, em Fonte de Renda) dá a maior dura, vai para a universidade e, quando chega lá, nem é por maldade, mas o colega riquinho tem essa visão do negro pobre, traficante e tenta fazer dele seu fornecedor. Uma coisa é ser simples, direto, outra é ser ingênuo. Acho que o filme dá conta disso e o que faz a diferença é o (Hugo) Carvana.

O eterno malandro aplica um corretivo no personagem de Silvio Guindane e o confronta com sua opção – ou ele dá a volta por cima ou vai ser só o fornecedor.
Rodrigo Felha:
Pô, cara, o Carvana é demais. Somos essa garotada cheia de sangue, de ideal, mas o Carvana, ele sabe. Nas oficinas a gente discutia o roteiro, a interpretação. O personagem precisa do ator para sair do papel. Quando o ator traz uma vivência, até mesmo o menor papel ganha significado. A gente pode falar do Carvana, mas Ruy (Guerra), que também é ator no meu filme, Nelson Pereira dos Santos, Cacá (Diegues), todos foram muito generosos.
Jeferson De: Cacá foi um dos produtores associados de Bróder, por meio da Luz Mágica. Daniel Filho foi outro, na Lereby. Os dois sempre me estimularam a ser eu mesmo. Eu vejo o Cacá no 5 Vezes Favela e no meu filme. Tem ali uma ternura que digo – isso é do Cacá.
Silvio Guindane: Fiz os dois filmes. Me lembro do Cacá dizendo que a gente tinha de fazer o 5 Vezes porque sabia do que estava falando. Acho que o melhor desses filmes é que nos livram da melancolia e da culpa do olhar da classe média. Somos nós!
Rodrigo Felha: O Ruy (Guerra) foi a uma oficina preparatória do filme. O garoto que fazia a distribuição do pessoal não sabia quem ele era e foi determinando: “Agora, seu Ruy, o senhor fica ali.” E o Ruy, na maior boa vontade, nada de “Sabe com quem está falando?” Temos de agradecer a muita gente por ter confiado em nós, Com os defeitos que possa ter, o filme é nosso, tem a nossa cara. Estava fazendo um trabalho voluntário com crianças quando recebi a notícia da seleção para Cannes. “Caraca, vamos a Cannes!”, explodi. Desde então, tem sido só alegria.

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