Ozon e o mistério de ser mãe

Em 'O Refúgio', seu novo longa, que estreia hoje, François Ozon fala sobre a maternidade. Curiosamente, sobre o desejo de maternidade de uma mulher que não quer ser mãe, como ele conta numa entrevista por telefone, de Paris

Estadão

10 de setembro de 2010 | 05h00


Trailer de ‘O Refúgio’

Luiz Carlos Merten

François Ozon tem investigado a família contemporânea por meio de filmes que parecem não tratar diretamente do assunto. Ele fala de relações, e a família vem embutida. No seu longa anterior, ‘Ricky’, ele contou a história de um menino que nasce com asas e termina voando para a vida. De certa maneira, realizou seu desejo de falar sobre o que considera o mais duro dos temas – a morte de uma criança. Em ‘Ricky’, o desafio da família, da mãe, era se reconstruir após o desaparecimento do garoto.

Em ‘O Refúgio’, seu novo longa, que estreia hoje, Ozon fala sobre a maternidade. Curiosamente, sobre o desejo de maternidade de uma mulher que não quer ser mãe, como ele conta numa entrevista por telefone, de Paris. Em janeiro, durante os Encontros do Cinema Francês, na capital da França, Ozon e sua atriz, Isabelle Carré, já haviam sido entrevistados pela nossa reportagem.

Como você explica esse seu desejo de decifrar o mistério da maternidade?
Sua pergunta já carrega um pouco a resposta. A maternidade é um mistério da mulher que escapa ao homem. Podemos estudar cientificamente as transformações que ocorrem em seu corpo e ainda assim haverá uma zona de sombra. As próprias mulheres se surpreendem, muitas vezes, ao vivenciar o processo de gestação. E há aquelas que reagem contra o ser que cresce dentro delas, que o consideram um estranho. Queria entender um pouco o fenômeno e, por isso, há tempos acalento o projeto de ‘O Refúgio’. Sempre, ou pelo menos há muito tempo, queria fazer esse filme sobre a maternidade, mas me pareceu que seria interessante contar a história de uma grávida que, no limite, não quer ser mãe. Não queria contar nenhum caso clínico. A morte do homem amado me pareceu uma solução interessante. Ele morre de overdose. Isabelle (Carré), sua personagem – ao menos –, quase morre, também. Durante o salvamento, os médicos descobrem que está grávida. Ela decide ter o filho sozinha, mas o que quer, no próprio corpo, é prolongar a vida do homem amado e que perdeu. Minha personagem encara o desafio da maternidade sem ter o desejo de ser mãe.

A atriz do filme, Isabelle Carré, estava grávida durante as filmagens. Foi difícil convencê-la a fazer o papel?
Sempre tive muito claro que, se queria fazer o filme para tentar entender a maternidade, não poderia, sob hipótese nenhuma, trapacear comigo nem com o espectador. Não queria uma atriz usando uma barriga falsa. O projeto existia, mas meio vago. Quando soube que Isabelle estava grávida, contactei-a e ela primeiro se assustou, por causa da ambiguidade da personagem, mas depois começou a achar esse verdadeiro paradoxo – a grávida satisfeita de sua condição, mas que rejeita o bebê – em enigma que também quis decifrar. Tive de escrever um roteiro rapidamente, montar a produção. Mas, considerando-se o atropelo, as coisas terminaram dando certo. Isabelle é muito talentosa. E é uma estrela na França. A rodagem, necessariamente, atrairia os paparazzi. Sabíamos disso, mas ela não se intimidou. Só me fez algumas exigências, que achei perfeitamente razoáveis. Ela queria que o filme fosse feito na ordem cronológica e que a produção fosse interrompida, se colocasse em risco o bebê. E ela me pediu que o refúgio, o seu ninho, fosse na Provence. Foram exigências perfeitamente aceitáveis. Depois, durante a filmagem, descobri que ela se cansava muito e dormia entre os takes. O ritmo da filmagem de ‘O Refúgio’ foi algo inédito para mim.

Você se projeta no cunhado homossexual que invade o refúgio da jovem mãe. Já havia, desde o começo, esse desejo de falar de novas concepções de família, como Pedro Almodóvar fez em ‘Tudo Sobre Minha Mãe’?
Você diz a solução dramática da história? Com certeza. Mesmo na França, um país cuja maioria silenciosa é hipócrita e conservadora, o desejo e o direito de os homossexuais constituírem família têm sido amplamente debatidos. Se estou discutindo a maternidade de quem não quer ser mãe, me pareceu interessante acrescentar outra discussão, sobre o desejo dos que querem constituir família. Nunca fiz nenhum filme que não quisesse fazer, mas este possui características peculiares que o tornam mais pessoal.

Você ainda acredita na canção de Danielle Darrieux em ‘Oito Mulheres’, de que ‘Não existe amor feliz’?
Você sempre me pergunta isso, acho que na expectativa de me ver mudar de opinião. Cada história de amor é única. Existem amores felizes, mas a maioria é complicada. Relações são difíceis e eu tenho de me regozijar por isso. Material não vai me faltar para os próximos filmes.

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