‘Oscar não mudaria a minha vida’

O cineasta Andrucha Waddington, 40 anos, ainda se recuperava das filmagens de Casa de Areia, em 2005, quando recebeu o roteiro de Lope e apaixonou-se pela saga do jovem sonhador que queria mudar o mundo com seus versos. A história parece atual, mas o século era o 16

Estadão

24 de outubro de 2010 | 12h00

O cineasta Andrucha Waddington, 40 anos, ainda se recuperava das filmagens de Casa de Areia, em 2005, quando recebeu o roteiro de Lope e apaixonou-se pela saga do jovem sonhador que queria mudar o mundo com seus versos. A história parece atual, mas o século era o 16 e, ao menos a Espanha o poeta Lope de Vega (1562-1635) conquistou – e é até hoje um dos expoentes culturais do país. Coprodução de cerca de 10 milhões de euros ou R$ 24 milhões (o filme nacional mais caro, Nosso Lar, foi orçado em R$ 20 milhões), Lope, épico que mistura aventura e romance e foi pré-indicado ao Oscar, foi execrado na Espanha, louvado em Veneza e chega a São Paulo na Mostra Internacional de Cinema. Waddington falou ao JT.

O Lope, Alberto Ammann, é um ator desconhecido. Como chegou a ele?
Ele foi um presente. Eu estava agoniado, porque a cinco semanas de começar as filmagens eu não tinha um Lope. Queria que fosse uma pessoa desconhecida, que dominasse o idioma espanhol. A aceitação foi unânime. Ironicamente, ele é argentino.

Você teve críticas extremas, boas e ruins. Do que os espanhóis não gostaram?
Na Espanha, também tive críticas muito boas, mas houve um preconceito por eu ser brasileiro. O cinema americano é receptivo ao talento estrangeiro, mas nas demais cinematografias, existe um certo bairrismo. Parte da crítica foi extremamente agressiva e incisiva nesse ponto: ‘Por que um brasileiro?’

Dois brasileiros estão no filme, Selton Mello e Sônia Braga. Você os convidou?
Eu queria trabalhar com Selton há tempos. Acho ele um ator extraordinário. Ele faz um playboy daquele século. Foi um desafio para ele incorporar aquele personagem, assim como para mim fazer filme noutra língua.

O Selton falava espanhol?
Não, ele falava o mesmo portunhol que eu. Ele estudou um mês com um preparador aqui em cima das cenas dele. Quando chegou lá, os atores foram muito legais com ele para ensaiar. Ele faz um cara asqueroso, que acha que dinheiro compra tudo.

Daí a ideia do convite? Alguém para fazer humor?
O Selton tira isso de letra. O ponto alto do humor estava no personagem dele. Eu fui muito feliz em tê-lo. A gente se divertiu muito lá.

Sônia Braga está irreconhecível.
Muita gente assiste ao filme e só vê a Sônia nos créditos. Depois vem me perguntar onde ela estava. Ela virou uma velhinha frágil.

O seu espanhol também precisou melhorar então…
Foi uma transformação total. Nesses quatro anos, desde que eu li o roteiro até a hora da filmagem, enquanto levantava financiamento, meu espanhol melhorou, eu consegui o personagem e esse universo. Eu sabia que tinha a Rua Lope de Vega e que ele era um grande dramaturgo, um grande poeta. E só.

O que te fisgou ao ler o roteiro?
É uma história linda, de uma fase da vida do Lope que nem os espanhóis conhecem. As biografias dele passam por ela em três páginas e se aprofundam no que ele fez depois do exílio, onde o filme termina. Dentro da Espanha, ele tem uma dimensão gigantesca. Foi a oportunidade de apresentar o cara para o mundo. Nunca tinha pensado em fazer filme de época. Usar um para falar de temas contemporâneos pareceu interessante. Pensei: por que não? No filme, Lope é, de alguma maneira, um herói. Ele tem a irresponsabilidade e irreverência. Tem uma atitude anárquica, abdica de um posto de prestígio na Armada Espanhola e vira escritor. Não ganhava nada. É irônico, porque ele morreu rico. Lope foi o primeiro a juntar comédia e tragédia. Shakespeare fez isso 20 anos depois.

Quem seria Lope hoje?
Lope era um Don Juan, um mega popstar. Era autor e diretor de teatro. Hoje, Lope de Vega seria um popstar.

Por ser um filme falado em espanhol, acha que é mais voltado ao mercado lá fora e não ao Brasil?
Não acho. O filme tem uma pegada contemporânea em função dos temas que aborda, que são inerentes à humanidade: a jornada de um jovem se transformando em adulto; um cara indo atrás de um sonho; as idiossincrasias amorosas que se vive quando começa a experimentar a vida.

O filme foi pré-indicado ao Oscar na Espanha. Ficou decepcionado por não ter entrado?
Não, até porque não faço filme para ganhar prêmio. A busca pelo Oscar é uma saga que, se vier, maravilha, não vai mudar em nada a minha vida, entendeu? Vou continuar fazendo meus filmes da mesma maneira. Mas foi bacana ter reconhecimento da academia espanhola. O Lope foi um dos três selecionados de 120 filmes.

Qual foi sua maior preocupação nessa superprodução?
Queria que o espectador sentisse o cheiro de Madri na tela. Nos relatos da época, dizia-se que se podia sentir o odor da cidade a 40 km de lá. Era uma cidade muito suja. Eu sempre falei isso: esse não pode ser um filme limpo. As ruas são sujas, o cabelo dos atores é oleoso, os dentes não são branquinhos, a unha é preta. Mas muitos filmes de época ignoram isso.

Quais são seus planos agora?
Agora vou parar para pensar. Quando estava preparando o Eu, Tu, Eles (2000), fiz o Gêmeas, que foi minha faculdade, um filme para aprender a lidar com dramaturgia. Fiz Casa de Areia em 2005. E agora Lope. Tenho quatro projetos andando. Não tenho pressa em fazer filmes.