O que os homens falam na mesa do bar

Estadão

23 de junho de 2012 | 18h15

Por Felipe Branco Cruz

Por Felipe Branco Cruz

Depois de ter levado mais de 3 milhões de espectadores ao cinema no ano passado com o filme Cilada.com, uma das maiores bilheterias de 2011, o ator e humorista Bruno Mazzeo parece ter descoberto a fórmula do sucesso. O longa E Aí, Comeu?, em cartaz na cidade, segue a mesma linha e despeja, nos 100 minutos de projeção, piadas sexistas e diálogos rasos com o objetivo de fazer graça a partir de situações cotidianas. Como resultado, eles esperam ultrapassar a marca de 1 milhão de pessoas – número que nenhum título nacional ainda conseguiu alcançar este ano.

A pressão por bons resultados de bilheteria, no entanto, não preocupa Mazzeo. “Quanto mais pessoas assistirem ao filme, melhor, mas não encaro essa responsabilidade”, diz. Uma adaptação da peça teatral homônima de Marcelo Rubens Paiva, o longa tem orçamento em torno de R$ 5,5 milhões.

Com direção de Felipe Joffly, o filme conta a história de três inseparáveis amigos de infância, cada qual com seus problemas com as mulheres. Todos os dias, eles se reúnem no bar Harmonia para tentar entendê-las. Bruno Mazzeo interpreta Fernando, que acabou de se separar da namorada Vitória (Tainá Muller) e se apaixona por Gabi (Laura Neiva), que é sua vizinha e menor de idade. Marcos Palmeira faz o papel de Honório, jornalista, pai de duas garotas e em crise no casamento com Leila (Dira Paes). O último amigo é Fonsinho (Emilio Orciollo Netto), um escritor fracassado que vive saindo com prostitutas e se apaixona por uma delas, Alana (Juliana Schalch).

Ainda no bar, eles recebem conselhos do garçom Seu Jorge, que, por ser muito parecido com o cantor, ganhou esse apelido dos amigos. O garçom é interpretado pelo próprio Seu Jorge.

Dira Paes, que já fez papéis densos, como em Baixio das Bestas (2007), dirigido por Cláudio Assis, aposta no sucesso da comédia. “Fazer humor no Brasil é uma ousadia”, diz. O título do filme, apesar de soar machista, na opinião dos atores, é uma homenagem às mulheres. O objetivo, segundo eles, é revelar para elas o que homens falam no bar. “É como se elas pudessem olhar pelo buraco da fechadura e ouvir o que falamos”, diz Palmeira.

O filme, na realidade, é uma sequência de piadas manjadas e situações clichês. Como, por exemplo, a ex-mulher do personagem de Mazzeo ter muitos pares de sapatos que são confiscados por ele após a separação. Quem busca uma diversão leve certamente vai se divertir com E Aí, Comeu?. O humor brasileiro, no entanto, já produziu filmes melhores e mais inteligentes do que esse.

Bate-papo com o alenco

Emilio Orciollo Netto  ATOR, INTÉRPRETE DO ESCRITOR FONSINHO

O filme é um Sex and the City para os homens?
Queríamos falar sobre relacionamentos e entender como o homem se relaciona com a mulher moderna. Está tudo muito aberto e livre. Todo mundo fala e ninguém se escuta. Essa falta faz com que as relações não se concretizem e sejam mais efêmeras.

De onde veio a inspiração para esse personagem?
Cada personagem complementa o outro. Eu observei como as pessoas se relacionam na rua e em como os meus amigos enfrentam a solidão hoje em dia.

Prefere humor ou drama?
Gosto de bons personagens que te proporcionam bons conflitos. Não importa se é mocinho ou bandido.

Cilada.com foi um sucesso de bilheteria. Qual é a sua expectativa para E Aí, Comeu?
Sou pé quente. Fiz Tropa de Elite 2 e fiz O Palhaço. Espero que o longa dê uma reaquecida no cinema nacional nesse ano. Esse é um filme que tem frescor.

Marcos Palmeira – ATOR, INTÉRPRETE DO JORNALISTA HONÓRIO

Acha que o filme é machista?
Meu personagem é um jornalista sindicalista. Ele traz o machismo. Acho que vivemos numa sociedade machista, mas isso está mudando. Você vê que o filme tem uma fragilidade e insegurança por trás. Se fosse outro, o título seria hipócrita. Não estamos tentando dizer uma coisa que não é. Trata-se de um filme que fala de amor.

Você já conhecia a peça de Marcelo Rubens Paiva?
Sim. Fizemos algumas leituras e fomos construído o roteiro em cima de informações que trazíamos. Na mesa de bar, esquecíamos o roteiro. O Bruno é meu primo, eu o conheço desde pequeno. E o Emilio é meu grande amigo. Foi fácil montar tudo.

Como foi atuar mais uma vez com a Dira Paes?
Ela é uma companheira antiga. Temos uma cumplicidade. Fizemos uma cena sem cortes de seis minutos. Construímos o texto praticamente juntos de uma discussão do casal. Fiquei feliz com o resultado.

Bruno Mazzeo – ATOR E PRODUTOR, INTÉRPRETE DO ARQUITETO FERNANDO

Acha que seu filme consegue dialogar com todas as classes?
Mercadologicamente, quando o filme ultrapassa 1 milhão de espectadores, você já atingiu a classe C. Essas pessoas que foram assistir ao filme são aquelas que não têm o hábito de ir ao cinema. Percebi isso no Cilada.com. Temos uma dificuldade de mercado que é a questão do número de salas, que poderia ser maior.

Como lida com as críticas?
Infelizmente, os filmes de maior bilheteria não agradam à crítica, os chamados “inteligentinhos”. Pega mal para eles.

Você acha que os críticos falam mal de um filme porque “pega mal” falar bem?
Acho que o crítico tem um comprometimento com ele mesmo e com o pessoal que janta com ele da editoria de esporte. Isso aconteceu com Villa-Lobos, com Caetano Veloso, com Tom Jobim. É uma coisa comum do brasileiro. É muito fácil escrever sobre um filme para detonar. Se for para detonar, eu falo mal até do filme Casablanca.

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