O heroico trio do Xingu

No início do século 20, uma vasta área do Brasil era completamente desconhecida do governo. Nesse contexto, o governo criou a chamada Marcha Para o Oeste, incentivando brasileiros a desbravar o interior do País.No grupo, estavam os três irmãos Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998) e Leonardo Villas-Bôas (1918-1961)

Estadão

04 de abril de 2012 | 12h23

Xingu Filme

Na foto: Felipe Camargo, Caio Blat e João Miguel

Por: Felipe Branco Cruz

No início do século 20, uma vasta área do Brasil era completamente desconhecida do governo. Nesse contexto, o governo criou a chamada Marcha Para o Oeste, incentivando brasileiros a desbravar o interior do País. No grupo, estavam os três irmãos Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998) e Leonardo Villas-Bôas (1918-1961), que não só ajudaram nesse desbravamento, como também descobriram tribos indígenas que nunca haviam tido contato com os homens brancos. Assim, entre os feitos dos irmãos, está a criação do Parque Indígena do Xingu (do tamanho da Bélgica), que completou 50 anos no ano passado.

A saga desses irmãos é contada no filme Xingu, que estreia na sexta-feira, dirigido por Cao Hamburger, de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), com Felipe Camargo (Orlando), João Miguel (Cláudio) e Caio Blat (Leonardo) no elenco. O longa teve um orçamento de R$14 milhões, alto para os padrões brasileiros (Tropa de Elite 2, por exemplo, foi de R$ 16 milhões) e será distribuído em 250 salas. Esse investimento é justificado pelas belíssimas locações (não há cenas em estúdios), feitas no Tocantins, Pará e Mato Grosso – Estado este onde está o Parque do Xingu, na porção sul da Amazônia brasileira. “Graças à preservação do parque, aquela região ainda mantém mata nativa”, diz Caio Blat.

Foto original dos irmãos Villas-Bôas

Foto original dos irmãos Villas-Bôas

Por causa do trabalho de proteção dos índios, os Villas-Bôas, representados por Orlando e Cláudio (Leonardo já havia morrido), chegaram a ser indicados ao Prêmio Nobel da Paz em 1971. “Temos um projeto de transformar esse filme numa minissérie da Globo”, afirma Cao. O roteiro aborda os 40 anos de atuação dos irmãos no Xingu, resumidos em 104 minutos de projeção, desde o engajamento deles na Marcha até se tornarem líderes das expedições e encarregados pelo exército no contato com os índios.

Toda essa aventura é mostrada com suas contradições e acertos. Por exemplo, quando os irmãos levaram a gripe para uma tribo, dizimando metade da população local. Daí, eles passaram a ter acompanhamento de médicos que vacinavam os índios. Ou quando Leonardo engravidou uma índia, e foi repreendido pelos irmãos e forçado a abandonar a expedição. O longa mostra ainda a antagônica relação deles com os governos civil e, depois, militar. Em comum, entre os dois governos, apenas a sede expansionista. Por ali, os únicos preocupados com a preservação parecia ser os irmãos, enquanto o governo queria devastar a floresta para criar gado e lavouras.

Ao todo, os Villas-Bôas abriram 1,5 mil quilômetros de picadas, percorreram mil quilômetros de rios, construíram 19 campos de pousos, ajudaram a fundar 43 vilas e contactaram 14 tribos.

Cena do filme 'Xingu'

Cena do filme

Baseado no livro Marcha Para o Oeste (1994), de Cláudio e Orlando Villas-Bôas, o filme não é totalmente fiel à história dos irmãos, modificando algumas passagens e romanceando outras. “Numa tribo indígena, diziam que Orlando era um tirano que os obrigou a migrarem para o Xingu. Em outra, dizem que ele foi um herói. É uma história cheia de contradições”, diz Cao.

Xingu é um épico sobre o Brasil profundo. Uma incrível história sobre brasileiros que ajudaram a desvendar o País, aventurando-se num ambiente hostil e completamente desconhecido. “Por incrível que pareça, a trajetória dos irmãos ainda é desconhecida dos brasileiros. Queremos mudar isso”, conclui Cao.


ENTREVISTA: FELIPE CAMARGO

‘Os índios é que são os brasileiros’

Você já conhecia a história dos irmãos?
Eu era bem ignorante com relação à história. A construção dos personagens começaram a partir da leitura do roteiro e pesquisa de materiais escritos, como o livro Marcha para o Oeste, além de trabalho de laboratório. O que me fascinou foi que me deparei com heróis da paz, da ecologia e da defesa dos direitos raciais. Os índios não têm a consideração dos brasileiros. Os índios é que são os verdadeiros brasileiros.

Você sente uma responsabilidade maior por fazer um personagem que existiu?
Houve uma liberdade criativa. Não é uma coisa de copiar o Orlando. Ele tinha um português mais arcaico. Uma maneira de falar diferente. Acho que ele falava desse jeito muito por ter se isolado. Mas não falei dessa maneira, porque era muito diferente do que estamos acostumados. Eu também não poderia falar como eu falo normalmente, até porque tenho sotaque carioca.

Tem alguma cena especial do filme para você?
Gosto muito da cena que tenho com o militar, na época da construção da Transamazônica. É um Orlando mais velho e fragilizado, impotente. Ali o Orlando quer provar que o progresso não é bom e vai buscar o Cláudio, que estava isolado numa outra parte da floresta.


ENTREVISTA: CAIO BLAT

‘Meu padrinho foi à expedição’

O que atraiu você neste personagem?
O Cao (Hamburger) me falou desse filme em 2007. Que o filme seria no Xingu e que estava pensando em mim. Fiquei fascinado pela ideia e já achava a história deles absolutamente fascinante. Meu padrinho participou da expedição original. Durante muitos anos, lembro dele no Xingu e voltando de lá cheio de artefatos, flechas, lanças, couro de jacaré.

Este filme foi muito difícil de ser feito?
Acho que o filme mais difícil de se fazer é aquele que não tem patrocínio. Ansiava em entrar nesse filme de cabeça. Minha primeira entrada na reserva foi depois de viajar por 12 horas de barco. Quando chegamos lá, achamos que o filme não iria acontecer por causa da poluição. Estava tudo destruído por causa das queimadas ao redor. Tinha tanta fumaça que não dava para enxergar. O avião com mantimentos não chegou e tivemos de ir pescar com os índios, porque não tinha comida.

Como é sua relação com os índios?
Quando pensei que iria ficar absolutamente isolado no Xingu, vi que lá tinha computador com internet via satélite e gerador. Ainda mantenho contato com eles pelo Facebook e no Skype.


ENTREVISTA: JOÃO MIGUEL

‘O personagem é rico em conflitos’

Você se vê como o protagonista deste filme?
Quando estava fazendo o filme, não. Mas vendo agora, talvez. Porque o Cláudio é o narrador da história. Durante as filmagens, achei que seria possível optar por vários pontos de vista. Acho que o filme é feito de três protagonistas e, para mim, era muito importante o sentimento de fraternidade entre eles.

Como se preparou para esse personagem?
Sinto uma super responsabilidade. Esse homem existiu. Há imagens reais dele. Inevitavelmente, minha atuação é um olhar sobre o personagem. Mas o filme tem cenas que a gente não sabe se foram reais ou não, como a chegada deles, pela primeira vez, à aldeia. Fiz um personagem ficcional a partir do real. Há várias versões sobre a história do Cláudio. É um personagem rico em conflitos.

O que você sabia sobre os irmãos Villas-Bôas e a região do Xingu?
Quase nada. Muito pouco. Sabia da existência dos irmãos. Mas acho que, como a maioria das pessoas, a memória foi falhando e, de fato, fiquei muito encantado com essa história e a trajetória deles. A Amazônia é de uma riqueza sem igual no planeta, localizado no nosso País e nós olhamos pouco para isso.

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