O céu e o inferno de Violeta

Estadão

09 de junho de 2012 | 19h04

Por Felipe Branco Cruz

Ao ser questionada se era comunista, a cantora, compositora, instrumentista e artista plástica chilena Violeta Parra (1917-1967) respondeu: “Sou tão comunista que, se levar um tiro, verterei sangue vermelho”. A resposta, dada em um programa de TV do Chile, deixava claro, mesmo que de forma sutil, que, de fato, Violeta tinha simpatia pelo comunismo.

Essa parte de sua biografia, no entanto, é a menos importante de um currículo que inclui a formação, a pesquisa e a criação da música popular chilena. Deprimida com o fracasso de seus projetos, além do abandono de um grande amor, a cantora se matou com um tiro aos 49 anos. Apesar de ter vivido pouco, sua extensa produção cultural e ativismo mundial a colocaram no panteão dos grandes artistas latino-americanos e sua história é contada no filme Violeta Foi para o Céu, em cartaz nos cinemas.

O longa, do cineasta chileno Andrés Wood, diretor de Machuca (2004), é baseado no livro homônimo de Ángel Parra, filho de Violeta. Coprodução da brasileira BossaNovaFilms com a chilena Wood Producciones e a argentina Maiz Producciones, foi vencedor da categoria World Cinema Dramatic Competition no festival de Sundance (EUA) deste ano e abriu, no fim de semana, a mostra competitiva do Cine Ceará.

Na tela, Violeta é vivida pela atriz chilena Francisca Gavilán, que interpreta algumas canções clássicas da cantora, como Gracias a la Vida e Volver a Los 17. O filme a retrata desde a infância, quando acompanhava o pai em apresentações musicais, até sua peregrinação pelo interior do país em busca de músicos e compositores amadores. Mostra também como a cantora não suportou as adversidades de sua vida. Um de seus filhos morreu ainda bebê quando ela apresentava sua música na Polônia comunista. Anos depois, já como artista consagrada, chegou a ser desprezada pela elite chilena – em um show para abastados locais, foi “convidada” a comer na cozinha – e não foi bem-sucedida quando montou, na Comuna de La Reina, uma grande tenda, com a intenção de transformá-la no centro da cultura folclórica do Chile.

No campo do amor, foi igualmente sofredora. Namorou muitos homens, mas só amou um: o suíço Gilbert Favre (Thomas Durand), com quem ela manteve uma conflitante relação.

Mesmo com uma relevante produção artística, após sua morte e o advento da ditadura militar no Chile, o nome de Violeta caiu no ostracismo. Recentemente, os estudantes chilenos redescobriram a cantora entoando pelas ruas de Santiago a canção Me Gustan Los Estudiantes, em protestos contra as reformas educacionais no país. E foi graças a seu filho, Ángel Parra, que a história da mãe pôde ser preservada. O filme, assim como o livro, é um importante documento, essencial para a divulgação da trajetória de Violeta Parra e da cultura latina em geral.

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