Muito além do alcance de Hollywood

Começa amanhã (16/09) em São Paulo o Festival Indie de cinema, que reúne no Cinesesc 66 filmes de 18 países, além de homenagens à obra de dois ícones do gênero, o japonês Kiyoshi Kurosawa e o tailandês de nome impronunciável Apichatpong Weerasethakul

Estadão

15 de setembro de 2010 | 09h31

Kiyoshi Kurosawa ganha retrospectiva no País no Festival Indie. Entre os destaques do cineasta japonês está o terror de fantasmas ‘Loft’ (2005)

Kiyoshi Kurosawa ganha retrospectiva no País no Festival Indie. Entre os destaques do cineasta japonês está o terror de fantasmas ‘Loft’ (2005)

Fernanda Brambilla

Por definição, cinema indie quer dizer cinema independente, e sob sua aba se reúnem títulos produzidos fora dos grande estúdios, longe de Hollywood e a indústria padrão de entretenimento, com orçamentos mais modestos. Na prática, o espectador pode esperar roteiros cheios de mistério e questões filosóficas, terrores densos, altas doses de videoarte e elementos regionais de culturas distantes. Começa amanhã (16/09) em São Paulo o Festival Indie de cinema, que reúne no Cinesesc 66 filmes de 18 países, além de homenagens à obra de dois ícones do gênero, o japonês Kiyoshi Kurosawa e o tailandês de nome impronunciável Apichatpong Weerasethakul.

Inédita no País, a retrospectiva de Kurosawa (que nada tem a ver com Akira Kurosawa, vale lembrar) traz 23 títulos da obra do diretor de 55 anos, inclusive os que chamaram atenção no mundo Ocidental, como Cure (1997), filme policial sobre um detetive que investiga uma série de assassinatos brutais, que se desenrola num questionamento profundo sobre o significado da morte, os instintos humanos e as expectativas da sociedade. Dois filmes que compõem o rol ganharam reconhecimento internacional: Futuro Brilhante (2003), nomeado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, e o mais recente, Sonata de Tóquio (2008), que valeu o prêmio do júri da mostra ‘Um Certo Olhar’ do prestigioso festival francês.

Para reunir uma amostra considerável da produção de Kurosawa, a curadoria entrou em contato com o diretor, mas nem ele soube dizer onde conseguir alguns de seus filmes, já que o cineasta não faz parte de nenhum estúdio. “Ele não tem nem um assistente. Foi muito solícito conosco, mas não sabia dizer onde estavam seus filmes”, conta uma das curadoras, Franchesca Azzi, que começou a busca no ano passado. “Depois que finalmente as encontramos, esperamos meses até que a alfândega liberasse os pacotes”, conta.

Outro grande nome do cinema indie, o tailandês Apichatpong Weerasethakul, se apoia em aspectos regionais, pesquisas de campo e até no budismo em seus belos filmes. Em maio deste ano, foi consagrado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes com o curta Uma Carta para Tio Boonmee, o que causou espanto nos cineastas europeus – o jornal francês Le Monde o chamou de “anjo bizarro”. O curta premiado foi incluído em um dos quatro ‘Programas’, que reúnem 20 curtas-metragens do tailandês.

Segundo a curadora, valem destaque também as produções da Romênia, como o drama familiar A Garota Mais Feliz do Mundo, de Delia Cristina, e Terça-feira, Depois do Natal, que fala sobre um triângulo amoroso e também teve participação em Cannes. Outros autores de peso do universo indie são o americano Todd Solondz, que retoma os personagens de seu antigo longa Happiness em Vida Durante a Guerra; a francesa Clare Denis, ‘outsider’ do cinema francês que explora a guerra civil da África em White Material e o sul-coreano Hong Sang-Soo, com Hahaha. “Sang é o Woody Allen do cinema indie”, diz Franchesca. “É só abrir a cabeça e conferir”.

Trailer do filme ‘Loft’, de Kiyoshi Kurosawa

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