‘Lula’ disputa indicação ao Oscar

A escolha do filme Lula, o Filho do Brasil, que conta a biografia do presidente da República, para representar o País na disputa por uma das cinco vagas de indicados ao Oscar de filme estrangeiro de 2011 foi recebida com choro e emoção na casa da família Barreto, no Rio de Janeiro

Estadão

24 de setembro de 2010 | 04h56

A escolha do filme Lula, o Filho do Brasil, que conta a biografia do presidente da República, para representar o País na disputa por uma das cinco vagas de indicados ao Oscar de filme estrangeiro de 2011 foi recebida com choro e emoção na casa da família Barreto, no Rio de Janeiro.

“Caímos no choro quando a notícia chegou. Imagine meu pai, aos 82 anos, em prantos? Foi uma completa redenção para ele, para o Fabio e todos nós”, desabafou a produtora Paula Barreto, filha de Luiz Carlos Barreto, o Barretão, e irmã do diretor do filme, Fábio Barreto, que está em coma desde um acidente automobilístico sofrido em dezembro do ano passado, e que recebe tratamento médico em casa desde março. “O filme foi muito bombardeado, de todos os lados, aqui no Brasil. Mas lá fora a recepção tem sido espetacular”, afirmou Paula.

Segundo a produtora, a indicação foi considerada um prêmio e dedicada à equipe. “O que as pessoas não entendem é que fazer cinema dá muito trabalho, não é fazer bolo, não. Ninguém vai se dedicar a isso se não tiver paixão, e a gente tem, acredita na força desse filme”, disse Paula. “É como o Tony Ramos diz na novela: ‘Punto e basta’. Calamos as críticas.”A força do filme, diz ela, está justamente em Lula. “Ele é um self-made man, um cara que venceu na vida sozinho, e americano adora isso. É uma grande história”.

O ator Rui Ricardo Dias, que interpreta Lula na idade adulta, recebeu a notícia no aeroporto, quando desembarcava de Buenos Aires, onde foi divulgar o filme. “O filme tem essa pegada, tem cara de Oscar”, opinou o ator. “Esse filme tem características de épico. É uma junção de coisas boas”.

Para Dias, a repercussão internacional tem sido superior à do público brasileiro também pelo que chamou de “olhar mais puro”. “Lá fora, ninguém vê o filme como político, mas como um trabalho artístico, o que ele é. Em Buenos Aires, Canadá, Nova York, Londres, só recebemos elogios”. Segundo o ator, a discussão política, aliás, precisa ser deixada de lado: “um filme não faz a menor diferença num país”.

Eleito por unanimidade
Depois de duas horas de discussão numa sala da Cinemateca Brasileira, na Vila Mariana, por volta das 12h de ontem, o anúncio do filme foi feito pela comissão formada por nove integrantes indicados pelo Gabinete do Ministério da Cultura, pela Secretaria do Audiovisual do MinC, pela Agência Nacional de Cinema e pela Academia Brasileira de Cinema.

O longa desbancou outros 22 inscritos na disputa, como o sucesso de bilheteria Nosso Lar, campeão na votação popular feita pelo site do MinC, com 70% dos 130 mil votos computados.

Ao fazer o anúncio, o cineasta e presidente da Academia Brasileira de Cinema, Roberto Farias, justificou a escolha. “O filme reflete uma parte do Brasil, e não só a trajetória de Lula, como a de vários brasileiros. Lula é uma estrela, aqui e fora daqui”, disse.

Questionado sobre a repercussão política da decisão, Roberto Farias afirmou que “o filme já está feito, e passou pelo crivo de todas as críticas nesse sentido”. Mariza Leão Salles de Rezende, produtora e uma das integrantes da comissão, completou: “Nosso partido é o cinema brasileiro. A escolha pensou num filme para representar o país com dignidade”. A cineasta Márcia Lellis de Souza (Tata) Amaral, que participou da escolha, também opinou. “Gostaria que a figura do Lula influenciasse a Academia. Nesse sentido, seria ótima essa influência política da escolha”, disse.

Autora do livro homônimo em que o longa foi baseado, a jornalista Denise Paraná disse que não ficou surpresa com a escolha da comissão. “Acho que o filme reúne todas as características que são necessárias à indicação. Retrata o drama humano”, disse. Denise também afirmou que acredita que a escolha não tenha sido influenciada pelo momento político no País. “É claro que vai ter gente dizendo que foi indicado só por causa do Lula. Mas o filme não trata do Lula politicamente, trata sim de como um cara tímido que vendia laranjas se torna um líder de massas”, disse.

Essa é a segunda indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro da carreira do cineasta Fábio Barreto. Em 1995, O Quatrilho chegou entre os cinco finalistas.

O Brasil do Oscar

1959
Orfeu Negro: vencedor de melhor filme estrangeiro, o prêmio da coprodução francesa foi para a França)

1962
O Pagador de Promessas: indicado a melhor filme estrangeiro

1985
O Beijo da Mulher-Aranha: uma coprodução americana, indicado a melhor filme, diretor (Hector Babenco) e roteiro adaptado (Leonard Schrader). William Hurt levou o Oscar de melhor ator

1995
O Quatrilho: indicado a melhor filme estrangeiro

1997
O Que É Isso, Companheiro?: indicado a melhor filme estrangeiro

1998
Central do Brasil: indicado a melhor filme estrangeiro e a melhor atriz (Fernanda Montenegro)

2000
Uma história do Futebol: indicado a melhor curta-metragem, para Paulo Machline

2003
Cidade de Deus: indicado a melhor direção (para Fernando Meirelles), melhor fotografia (César Charlone, uruguaio radicado no Brasil), edição (Daniel Rezende) e roteiro adaptado (Bráulio Mantovani)

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