John Lennon antes do mito

O filme O Garoto de Liverpool, que estreou nesta semana, fala da gênese da genialidade de Lennon. O fato de ele ter vivido em relativa pobreza, em Liverpool, e de não ter sido criado pela mãe foram responsáveis por composições como Julia, Mother, God, Woman e My Mummy's Dead

Estadão

05 de dezembro de 2010 | 00h00


Felipe Branco Cruz

Os primeiros vinte anos de John Lennon – ou seja, metade de sua vida, já que ele foi morto aos 40 anos, no dia 8 de dezembro de 1980 foram tão importantes para a vida do ex-Beatle quanto os vinte anos seguintes, quando ele conheceu o estrelato mundial. É difícil imaginar que algo que aconteceu antes de Lennon viver os anos loucos da Beatlemania ou durante sua carreira solo, quando compôs clássicos atemporais, como Imagine, são tão ou mais importantes para ele do que quando era jovem. Pois é sobre esse período que o filme O Garoto de Liverpool, que estreou nesta semana, fala. Aliás, a gênese da genialidade de Lennon está nesse período, inclusive a própria formação dos Beatles. O fato de ele ter vivido em relativa pobreza, em Liverpool, e de não ter sido criado pela mãe foram responsáveis por composições como Julia, Mother, God, Woman e My Mummy’s Dead.

John Lennon não gostava do estrelato. Em entrevistas dadas no ano da sua morte, ele dizia que gostava de morar em Nova York porque lá podia ter uma vida relativamente normal, que talvez remetesse à que ele teve nos anos 50, em Liverpool. A juventude de Lennon, no entanto, não pode ser considerada normal, sob nenhum aspecto. O filme, dirigido por Sam Taylor-Wood, foca a conflituosa relação que o músico (interpretado por Aaron Johnson) teve com sua mãe, Julia (Anne-Marie Duff), que o abandonou quando ele tinha 5 anos. Na adolescência, alguns anos antes de Julia morrer, atropelada por um carro guiado por um motorista bêbado, Lennon a procurou para uma reconciliação. Até os 19 anos, ele foi criado pela tia Mimi, uma inglesa linha dura que o educou de forma repressiva e que lhe deu o primeiro violão. Mas foi a mãe dele, no entanto, que lhe ensinou os primeiros acordes. Nesse período, Lennon também procurou saber quem era o seu pai e descobriu que ele havia abandonado a família.

A amizade com Paul
John Lennon tinha todos os elementos para se tornar um delinquente. E poderia ter sido um, não fosse pelo rock and roll e pela amizade que iria desenvolver com Paul McCartney, a partir dos 17 anos, quando os dois se conheceram. O filme recria o exato momento em que Lennon conhece McCartney. O futuro baixista dos Beatles, dois anos mais novo do que Lennon, assistira a um show que a banda Quarrymen, de Lennon, tinha feito durante uma quermesse em Liverpool. Aos 15 anos, McCartney tocava violão melhor do que Lennon, mas percebeu que o futuro amigo também era bom. Ao final do show, ele pediu para entrar na banda. Um ano depois, conheceriam George Harrison dentro de um ônibus.

Paralelamente a esses fatos históricos, o filme mostra como Lennon desenvolveu, aos poucos, a relação com sua mãe. Quando os dois parecem estar se entendendo, vem a tragédia, com a morte de Julia. Esse fato ajudou a aproximar ainda mais Lennon e McCartney, que também havia perdido a mãe, que falecera poucos anos antes, vítima de um câncer.

O Garoto de Liverpool pode até mostrar a gênese de um dos maiores compositores do século 20. Mas ele é mais do que isso. A história ali retratada, de fato, é uma daquelas que, quando escutamos, pensamos: “Isso daí daria um bom filme”. Não espere, portanto, ouvir qualquer música ou referência aos Beatles. O filme é mais um drama de fazer chorar os corações mais moles do que uma ode à música pop mundial. Deixando de lado o universo de John Lennon, uma curiosidade a respeito do longa é que foram durante as gravações que o ator Aaron Johnson, 20 anos, começou a namorar a diretora Sam Taylor-Wood, 23 anos mais velha do que ele.

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