Hollywood com sotaque brasileiro

Depois de servir de cenário para a série de TV Alcatraz, que foi exibida no Brasil pelo canal por assinatura Warner até o início do mês, a ilha que abriga a famosa prisão homônima agora será retratada no cinema em produção de origem brasileira

Estadão

23 de junho de 2012 | 18h18

Por Felipe Branco Cruz
De Los Angeles

Depois de servir de cenário para a série de TV Alcatraz, que foi exibida no Brasil pelo canal por assinatura Warner até o início do mês, a ilha que abriga a famosa prisão homônima agora será retratada no cinema em produção de origem brasileira. O suspense The Last Boat to Alcatraz (na tradução livre O Último Barco Para Alcatraz), com previsão de estreia nos Estados Unidos para 2013, tem, por trás, a produtora paranaense Helena Hilário, de 26 anos, que há três anos mudou-se para os Estados Unidos para estudar na New York Film Academy, em Nova York. Há menos de um ano, mudou-se para Los Angeles, na Califórnia, para tentar a sorte em Hollywood. E a sua hora parece ter chegado.

O filme de baixo orçamento (menos de US$ 1 milhão) contará a história de um grupo de amigos que decide fazer um passeio, ilegal, à noite, na ilha de Alcatraz. Presos no lugar, decidem explorar a ilha, onde começam a presenciar estranhos fenômenos sobrenaturais. No elenco, estão outras duas brasileiras, a sul mato-grossense Stefanye Falco e a carioca Luciana Faulhaber, ambas de 28 anos. Stefanye mora há seis meses nos EUA; Luciana, há oito anos. O elenco, que também tem americanos, conta ainda com jovens atores de Portugal e Inglaterra, que são dirigidos pelo cineasta italiano Mario Pece, de apenas 22 anos. Pece é especialista em efeitos especiais da empresa Ingenuity Engine, sediada em Los Angeles. Mas, curiosamente, o dinheiro veio do Brasil, da produtora G8 Entertainment Group (leia ao lado).

Helena Hilário conta que só conseguiu o investimento depois de garantir que filmaria na histórica ilha-prisão. “O aluguel de Alcatraz corresponde a 40% do orçamento”, diz, sem revelar o total do valor. Atualmente, 60% do longa já foi filmado. Além da ilha, foram usadas locações nas cidades de São Francisco e Los Angeles. “É um filme muito comercial. Suspense vende em todo o mundo”, arrisca a brasileira.

O trabalho, que começou meio por acaso, é feito entre amigos. Helena e Stefanye, por exemplo, se conhecem de longa data, estudaram juntas no Brasil. O diretor Mario Pece é namorado de Helena e o casal mora junto em West Hollywood. Eles dividem o apartamento com o ator português James Serra, de 22 anos, também no filme. Entre atores, técnicos e produtores, a equipe de filmagem tem cerca de 20 pessoas. “É um daqueles filmes em que as pessoas se juntam por amor ao cinema. Ninguém está ganhando muito dinheiro”, diz Stefanye, que atuou na novela A Vida da Gente (Globo), de Jayme Monjardim.

A produtora Helena Hilário e a atriz Stefanye Falco

A produtora Helena Hilário e a atriz Stefanye Falco

“Estou vivendo o sonho”, diz a produtora, citando uma frase comum entre os jovens que tentam a sorte na disputadíssima indústria de cinema americano. “Helena e eu fomos para São Francisco nas férias e fizemos o passeio noturno em Alcatraz. Achamos o ambiente bastante assustador e tivemos a ideia de criar uma história de suspense”, conta Pece, fã de Martin Scorsese, Michael Bay, Christopher Nolan e Tim Burton. “Dirigir um longa está sendo um sonho, estou muito feliz com esta oportunidade.”

O filme sobre a prisão não é o primeiro trabalho do casal nos EUA. Antes, eles estavam produzindo Out at Home, longa sobre um jogador de beisebol que se envolve com drogas e assassinatos. Helena diz que parte da trama veio do caso real de Bruno, ex-goleiro do Flamengo, acusado de assassinato. “Adaptamos ao universo do beisebol”, diz ela. O filme não está pronto, mas o trailer foi premiado em festivais de lá.

Em Los Angeles, o casal respira cinema 24 horas por dia. Em seu apartamento, além das centenas de DVDs, têm uma moderna ilha de edição e um aquário cheio de peixes palhaços. “São iguais ao Nemo”, lembra Helena, citando a animação Procurando Nemo.

Independentemente se o longa ganhará público e reconhecimento, Helena e Mario, tão cedo entenderam como funciona a indústria cinematográfica, e com ajuda brasileira, já deixaram, nessa aventura, sua marca em Hollywood.

 

Cena do filme The Last Boat to Alcatraz feita dentro da prisão

Cena do filme The Last Boat to Alcatraz feita dentro da prisão

Empresa brasileira financia filme feito nos Estados Unidos
Há quase dois anos no mercado, a empresa G8 Art & Entertainment Group, é a responsável pelo financiamento do longa The Last Boat to Alcatraz. No currículo está também o financiamento do filme O Tempo e o Vento, do diretor Jayme Monjardim, e a produção da banda brasileira Kiara Rocks. Os empresários Pablo Martins, de 35 anos, e Mario Marcuso, de 44, estão por trás desses projetos. “Nossa aposta é no talento de Mario Pece e de Helena. Esperamos, claro, ter lucro com o filme, mas estamos investindo nas pessoas”, disse Pablo. Segundo ele, até o momento, eles já injetaram cerca de US$ 900 mil no The Last Boat to Alcatraz. “Nosso objetivo é criar um time de diretores, roteiristas e produtores, descobertos pela nossa empresa. Não concordamos com o atual modelo de mercado e resolvemos montar o nosso”.

A respeito do filme de Monjardim, segundo Martins, para finalizar o longa, o diretor precisava de mais dinheiro, e a G8 entrou para completar o orçamento. Ao todo, O Tempo e o Vento, que deve estrear no início de 2013, vai custar R$ 16 milhões, igual a Tropa de Elite 2, e será transformado em minissérie de Globo.

Cena da série de TV

Cena da série de TV "Alcatraz"

Alcatraz no cinema e na TV
Durante 29 anos a prisão de segurança máxima de Alcatraz abrigou presos como Frank Morris e Al Capone. Fechada em 1963, após a fuga de Morris, Alcatraz virou ponto turístico e um concorrido cenário de cinema. Em 1979, por exemplo, Clint Eastwood filmou Fuga Impossível, que conta a história de Morris. Talvez o mais famoso longa feito na ilha, A Rocha (1995), teve Nicolas Cage, Sean Connery e Ed Harris. Nele, bandidos usam a ilha como base para um ataque nuclear. Recentemente, o local serviu de cenário para a série de TV Alcatraz (foto), exibida no Brasil na Warner Channel entre janeiro e junho. O programa teve produção de J.J. Abrams, de Lost, mas foi cancelado por conta da baixa audiência.

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