Hollywood à brasileira

Estadão

10 de maio de 2012 | 14h53

“Quero voltar a filmar em Hollywood, mas agora com outros termos. Não vou mais filmar a qualquer custo”

“Quero voltar a filmar em Hollywood, mas agora com outros termos. Não vou mais filmar a qualquer custo”

Por Felipe Branco Cruz

Quando decidiu dirigir uma produção hollywoodiana, em 2004, depois de lançar o filme Nina, o cineasta brasileiro Heitor Dhalia não sabia nem falar inglês. “Minha primeira providência foi estudar a língua”, diz ele. Oito anos depois, o primeiro trabalho regido por Dhalia em Hollywood, o suspense 12 Horas, que estreia amanhã, traz no elenco a estrela Amanda Seyfried (de A Garota da Capa Vermelha e Mamma Mia!). Tarimbado por produções como À Deriva e O Cheiro do Ralo, ele levou um grande susto ao embarcar no cinema americano. “Falando friamente, fui mão de obra barata” (leia mais sobre o filme abaixo).

Em 12 Horas, quem detinha o poder de decisões era o produtor Tom Rosenberg, que já ganhou um Oscar por Menina de Ouro, de melhor filme de 2005, compartilhado com Clint Eastwood e Albert S. Ruddy. Dhalia era o único estrangeiro entre os americanos. “Sugeri 100 nomes de fotógrafos, negaram todos e mandaram eu escolher entre dois. Escolhi um deles e o produtor mandou contratar o outro. Eles fazem isso para tirar o poder do diretor no set”, revela. O diretor não podia nem ensaiar com a atriz. “Tinha de decidir como a cena seria pouco antes de filmá-la. O que me salvou foi que fui muito organizado e já chegava para as filmagens sabendo o que queria fazer”, diz ele.

Depois de pronto, após testes com o público, Dhalia ainda foi obrigado a refilmar o final, porque pesquisas mostraram que não estava bom. “Esse filme tem um público específico e tínhamos que agradar a ele. Por isso, refizemos todo o final”, justifica ele, que acredita que Hollywood contrata diretores estrangeiros por serem mais fáceis de controlar.

Outros 16 diretores, americanos, disputaram a vaga, mas o brasileiro foi o escolhido. “A indústria cinematográfica é um grande cassino ou uma bolsa de valores. Eles estão apostando muito dinheiro ou investindo em ações em baixa. Vai que no futuro eu me transforme em um diretor mundialmente conhecido.”

Para se ter uma ideia de seu grau de afastamento das decisões, ele nem ficou sabendo do orçamento do filme (US$ 24 milhões), mas também não quis revelar quanto ganhou de cachê. “No dia que ganhar mais de um milhão, eu conto”. Da sua influência nas filmagens, Dhalia conta que decidiu em aspectos puramente técnicos, condizentes com o trabalho de um diretor, como que tipos de lentes usar.

A atriz Amanda Seyfried, no entanto, só mereceu elogios de Dhalia. “Ela é um amor de pessoa. Foi super competente e profissional. “Nos momentos de dificuldade – e foram muitos, segundo ele -, o diretor, pernambucano, dizia que ouvia Luiz Gonzaga. “Filmamos na fria cidade de Portland. Para mim, que sou nordestino, nunca senti tanto frio na vida.”

Dhalia comparou sua participação neste longa ao trabalho de um matador de aluguel. “Há os serial killers, que têm prazer em matar e há os matadores de aluguel, que são pagos para isso. Mas que também gostam do que fazem. Neste filme, fui um matador de aluguel”, diz. A experiência serviu para Dhalia conhecer de perto como funciona a indústria do cinema americano. “Quero voltar a filmar em Hollywood, mas agora com outros termos, que sejam mais favoráveis a mim. Não vou mais filmar a qualquer custo.”

Filme peca por desfecho previsível

O primeiro trabalho de Heitor Dhalia em Hollywood foge dos temas que caracterizaram a carreira do diretor. Em 12 horas, não há nada de doentio, como em Cheiro do Ralo, ou de solar, como em À Deriva. Trata-se de um thriller que contaa história de Jill (Amanda Seyfried), uma garota que foi atacada por um serial killer há dois anos e vive paranoica com um possível retorno do maníaco. Um dia, depois de voltar do trabalho, Jill percebe que sua irmã não está emcasa e passa a suspeitar que ele a tenha sequestrado. Quando vai à polícia denunciar o sumiço da irmã, ninguém acredita na história, já que Jill tem um histórico de internações em instituições psiquiátricas. Sem ajuda da polícia, Jill passa a investigar o paradeiro da irmã por conta própria e, por tabela, a arriscar sua vida.

Com um roteiro pouco original e um final previsível, o longa, que estreou no dia 24 de fevereiro nos EUA, teve uma péssima bilheteria no país. Com orçamento de US$ 24 milhões, até o momento ele arrecadou só US$ 12 milhões. Como diz o próprio Heitor Dhalia, trata se de um filme de gênero e, como tal, entrega aquilo que um espectador espera de filmes como esse: suspense, perseguições, tiroteios e reviravoltas. Nas entrevistas com a imprensa no Brasil, Dhalia parecia redimir-se do fracasso do filme, eximindo-se da responsabilidade criativa do longa.

Tecnicamente, o filme não deixa a desejar e apresenta uma boa fotografia, trilha sonora e montagem. Justamente os elementos que estavam à disposição do diretor. Ofinal, extremamente batido, não era o final feito inicialmente por Dhalia. Talvez o diretor tenha ousado um pouco mais no desfecho para não deixá-lo óbvio demais, não se enquadrando nas regras de Hollywood.

 

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