Fãs imortalizam histórias favoritas

Estadão

30 de junho de 2010 | 15h30

Cena do filme

Cena do filme "Harry Potter e o Príncipe Mestiço" (Crédito Divulgação)

Pedro Antunes

Era madrugada de 21 de julho de 2007, de sexta para sábado. Fãs do mundo inteiro aguardavam a estreia oficial do último livro da saga de Harry Potter, em inglês. Naquele dia, 11 milhões de pessoas enfrentaram filas nas portas das livrarias para descobrir o fim da história do bruxo. Ardorosa fã da história de J.K. Rowling, Bruna Moreno, então aos 17 anos, era uma no meio dessa multidão.

Ela sequer esperou o lançamento do livro em português, que só aconteceria em novembro daquele ano. Comprou em inglês, mesmo. Bruna precisava saber qual seria o destino dos personagens que pareciam muito mais próximos a ela do que de outros fãs. Uma proximidade similar àquela existente entre criador e criatura. De tão envolvida no universo do livro, Bruna havia tido, dois meses antes, uma ideia sobre o futuro do personagem Severo Snape, um bruxo amargurado, professor da escola de Hogwarts, onde Harry Potter estuda. Mas ela não apenas teve a ideia. Bruna colocou tudo no papel. Ou melhor, na internet.

“Quando li a história original, vi que era exatamente o que eu tinha imaginado. J.K. Rowling (autora da fábula) escondeu de todo mundo, mas eu advinhei”, diz ela, orgulhosa. “Eu me senti a verdadeira fã”, conta a paulista Bruna, hoje aos 20 anos, estudante de Letras e Jornalismo. Ela faz parte de um grupo de novos autores denominados “fanfiction” – algo como “ficção de fã”, em inglês. No Brasil, o nome já foi abreviado para fanfic. A coisa é simples. Os fãs mais ardorosos de uma história de ficção mergulham tão fundo no universo do livro, que passam a escrever, eles mesmos, contos sobre os personagens das fábulas. E usam a internet para divulgar sua “obra”.

Apesar de ter tudo a ver com o moderno mundo digital, as fanfics nasceram muito antes da rede mundial de computadores e do surgimento do fenômeno Harry Potter. Tudo começou há 41 anos – em 1969 -, com o fim da série de TV Jornada nas Estrelas. Inconformados, os fãs passaram a escrever continuações das histórias, universos paralelos e até romances impensáveis entre os personagens do seriado. No mesmo ano, foi lançada uma revista chamada Spockanalia, em alusão ao alienígena Spock – um dos personagens mais marcantes do seriado -, na qual eram contadas novas histórias da saga estelar.
 
Muitas outras fanfics surgiram desde então, até chegarmos ao bruxinho Harry Potter, que conquistou fãs apaixonados pelos quatro cantos do planeta. No Brasil, foram as aventuras do jovem bruxo que fizeram surgir a onda das fanfictions. Até por isso, o país ainda engatinha neste universo. “Essa ficção de fã preenche os espaços livres que ficam na imaginação dos leitores. Quando as séries de livros terminam, essas histórias são as únicas coisas que eles têm”, explica a gaúcha Maria Lúcia Vargas, 42 anos, mestre em Letras pela Universidade de Passo Fundo e autora do livro “Fanfictions: Novas Leituras e Escrituras Em Meio Eletrônico”, resultado de sua pesquisa de mestrado, lançado em 2005.
 
Com a chegada da internet, ficou muito prático, rápido e econômico para os fãs-autores lançarem suas histórias na web do que em revistas, como os aficionados de Jornada nas Estrelas fizeram há 41 anos. A força dessa espécie de mercado editorial informal – e digital – é impressionante. Os números da saga Harry Potter são eloquentes. O site Fanfiction.net (www.fanfiction.net) contém um dos maiores acervos de fanfics do mundo. Ali, há 369 mil histórias não-oficiais apenas sobre as aventuras do bruxinho, sendo que 295 mil estão escritas na língua inglesa. Em português, são 13 mil – o que coloca o nosso idioma em quarto lugar das fanfictions sobre o personagem. Mas também há fábulas de Harry Potter em vietnamita (onze), em croata (três) e – acredite – até em latim (duas).

As fanfics não se restringem ao cinema, séries de televisão e livros. Os mangás (quadrinhos japoneses) e até bandas musicais, como Jonas Brothers, também são retratados. Tudo é possível nas fanfics. “É como brincar de Deus”, explica Júlia Polaschini, 18 anos, estudante de Física, autora de histórias sobre a banda japonesa The Gazette.

Alguns fãs são tão criativos que misturam personagens de obras distintas. É o chamado crossover. Aí, surge de tudo. Uma das mais inusitadas coloca, no mesmo conto, o sarcástico Doutor House,da série de TV, e a babá Mary Poppins. “É divertido misturar coisas diferentes”, explica autora dessa façanha, Ana Carolina Webster, ou Nina, como assina suas obras. Nessa, em especial, Nina transformou a filha da Cuddy (diretora do hospital no qual House trabalha) numa menina inquieta e teimosa, que precisa de uma babá. E quem assume a tarefa? Mary Poppins. Seria como se o Zorro casasse com a Feiticeira e o filho deles fosse um mutante: Wolverine.

Outros, preferem manter os personagens das fanfics fiéis aos originais. “Quando crio as histórias, eu busco deixar a personagem com as mesmas características que eu vejo descritas no livro. Por exemplo, eu vejo no livro um Draco Malfoy (de Harry Potter) arrogante. Em uma fanfic fica estranho de repente eu descrevê-lo como um cara legal e simpático”, contrapõe a autora Lucy França, ou Lucy Holmes, como ela assina as histórias, de 30 anos e tradutora. “Acho até um pouco esquisito ser mais velha do que o pessoal que escreve, mas conforme os livros de Harry Potter eram publicados, surgiam novas idéias e eu continuava a gostar, consequentemente continuava a escrever”, explica.
 
Assim como acontece com os escritores – digamos – convencionais, as situações cotidianas também inspiram os autores de fanfics. A estudante Natália de Araújo Marretti, 20 anos, escreve sobre o mangá japonês Bleach e sobre a banda The Gazette. Certa noite, ela foi perseguida por punks em plena Avenida Paulista. Dessa situação, criou uma história na qual Kai (baterista da banda japonesa) também era perseguido. “Eu consegui escapar, diferentemente do Kai”, conta.

Segundo Maria Lúcia Vargas, são poucos os autores que rechaçam as fanfictions. Anne Rice, autora da série Crônicas Vampirescas é uma delas proibe. J.K. Rowling, autora de Harry Potter, por sua vez, adora: “Em sua página na internet, ela já deu uma menção honrosa para um site brasileiro de fanfitions sobre o bruxinho”, conta Maria Lúcia “As fanfics não interferem nos direitos autorais do escritor original, contanto que sejam feitas por verdadeiros fãs e sem fins lucrativos. Eles se dedicam a dar continuidade a essas histórias por prazer. É um sinal de que amam o trabalho do escritor”, conclui. De fato. Amam tanto que acabam criando sua própria versão para a obra.

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