A vida dos outros à moda francesa

Isabelle Mergault dirige 'Enfim Viúva', que estreia hoje. O filme é sobre mulher casada que tem um amante. Ele é um pequeno armador, que constrói embarcações. Fecha um negócio que o levará à China, por 18 meses, mas quer que ela o acompanhe

Estadão

03 de setembro de 2010 | 05h00

Luiz Carlos Merten

Isabelle Mergault conversa pelo telefone, de Paris, com a reportagem. É sincera – “Os críticos me odeiam.” Acrescenta que nunca fez nada contra eles, seu pecado é preferir se comunicar com o público. E ela faz outra confissão. Isabelle dirige os próprios roteiros para evitar que outros o façam. “Dirigi meu primeiro filme, que foi um estouro de bilheteria e os produtores me cobram novos filmes. Honestamente, não sou muito entusiasmada com o trabalho de ‘plateau'(locação, em francês), mas gosto dos atores.”

Ela dirige ‘Enfim Viúva’, que estreia hoje. O filme é sobre mulher casada que tem um amante. Ele é um pequeno armador, que constrói embarcações. Fecha um negócio que o levará à China, por 18 meses. Quer que ela o acompanhe, mas quem diz que a amante terá coragem de abandonar o marido? Inesperadamente, o marido morre num acidente. Enfim, viúva. A união agora parece possível, mas chegam o filho e as irmãs dela para o enterro. Ela fica mais cerceada ainda. O que poderia ser uma tragédia – de costumes – vira comédia.

“Esse filme começou a surgir há muitos anos no meu imaginário”, revela a diretora. “Meu pai sofria de uma doença degenerativa. Morreu há cerca de dez anos, mas foi um longo processo durante o qual ele drenou a energia de minha mãe e a nossa, dos filhos. Minha mãe vestiu a roupa de viúva, mas um dia, ao chegar inesperadamente em sua casa, ela estava cantando, sorridente. Assim que me viu, fechou a cara e voltou ao sofrimento autoimposto de viúva.

Aquilo ficou comigo. A sociedade francesa é muito hipócrita. Temos, para todo mundo, uma imagem de racionalidade e intelecto, a França das luzes, mas a pequena-burguesia francesa é muito retrógrada, sempre preocupada com o que os outros vão dizer. Minha mãe era a melhor prova disso. Foi a origem da personagem de Michelle Laroque.”

Ela se chama Anne-Marie e é casada com um cirurgião plástico que, no fundo, talvez prefira a cachorra – Sissi –, que a mulher não tolera. O filho, preocupado com a mãe, termina por ser mais opressivo do que o pai, mas ele terá um gesto de grandeza no fim.

“Acho que estou exorcizando a relação com minha mãe na ficção. É a forma de lhe dizer que teria aceitado se ela me dissesse que, depois de tanto sofrimento, a morte de meu pai havia sido uma libertação para ela.” O repórter lembra outro filme francês – ‘A Velha Dama…’ “Indigna”, completa Isabelle, citando o filme que René Allio fez com a lendária Sylvie, baseado em Bertolt Brecht. “Com certeza”, diz a diretora, embora ela reconheça que há muita diferença entre o distanciamento brechtiano e o seu partido de fazer humor para o grande público.

Aliás, embora 2 milhões de espectadores sejam um número muito bom, na França, Isabelle Mergault é a primeira a admitir que formam uma massa bem menos numerosa do que os 4,5 milhões que obteve com ‘Je Vous Trouve Très Beau’, com Michel Blanc, em 2005. O outro filme, lançado no Brasil como ‘Você É tão Bonito’, era sobre fazendeiro viúvo que importa da Romênia uma imigrante para ajudá-lo nas tarefas domésticas e termina se apaixonando por ela. Como Michelle Laroque aqui, Blanc preocupava-se com o que os outros iam dizer e quase perdia a mulher amada.

A diretora e roteirista não escreve para os atores, mas não poupa elogios a seus intérpretes. “Michelle é uma raridade. Não é uma estrela na França, mas não existem muitas atrizes na faixa dos 40 que sejam tão belas e talentosas.” Jacques Gamblin lembra um pouco outro Jacques, Dutronc, o Van Gogh de Maurice Pialat. “É mesmo!”, exclama a diretora, que acrescenta. “Ele é charmoso, viril, tem a voz sexy. É o sonho de toda mulher, e nem precisa ser viúva.”

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