Violeiros mantém tradição na zona leste de São Paulo

Cristiane Bomfim

21 de agosto de 2011 | 14h31

Por Marici Capitelli

A música é daquelas que não se ouve nas rádios, mas todo mundo sabe a letra e canta junto. É com esse misto de emoção e preservação da cultura que um grupo de cantores caipiras se apresenta gratuitamente toda semana na União dos Moradores Pró Vila Santa Clara e Adjacências, na região da Vila Ema, zona leste. Os músicos têm plateia garantida, inclusive com jovens do bairro.

As apresentações ocorrem todas as noites de sexta-feira e a cantoria se estende por cerca de três horas. “Nossos moradores são pessoas mais idosas, a grande maioria vinda do interior, e os shows fazem com que recordem o passado. É por isso que alcançam tanto sucesso”, explica o advogado Emídio Piccoroni, de 51 anos, presidente da associação de moradores. Ele mesmo, apesar de não ter nascido no interior, é um apaixonado pela música caipira.

Os shows começaram com uma brincadeira na associação de moradores, mas caíram no gosto da vizinhança e já completam três anos de sucesso.

Em média, seis violonistas se apresentam no palco da associação. São homens com idades entre 60 e 80 anos, moradores da zona leste, que tocam e cantam músicas ao estilo de Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada, Tião Carreiro e Pardinho. Nenhum deles ganhou a vida como músico, embora façam parte de duplas e tenham CDs gravados.

Todos os dias Jarbas Vilaça Martins, de 80 anos, toma mel e mastiga cebola para manter a voz em ordem. Como os demais músicos, não recebe remuneração. “Gosto muito desses shows porque me fazem bem. A música lava a alma”, justifica Martins, morador do Parque São Lucas.

Desde os 18 anos ele toca música caipira. Embora nunca tenha vivido da arte, durante mais de 20 anos fez parte da dupla Roceiro e Lavrador. Ele e o parceiro, que já morreu, se apresentaram em rádios e fizeram shows pelo País. “Mas nunca vivi da música porque precisava de estabilidade para criar meus três filhos.” É aposentado como supervisor de segurança. “Hoje, são meus filhos que me incentivam a continuar cantando. Vou até quando minha voz aguentar.”

Araci Gonzaga Rocha, de 66 anos, conta que há 50 a música caipira entrou em sua vida, quando morava em Penápolis, no interior do Estado. Sempre teve de conciliar o trabalho de metalúrgico com as apresentações que fazia com seu parceiro, Novaes. Eram conhecidos como os Carga Pesadas. “A música caipira é a minha vida.” Ele ainda faz de dois a três shows por mês em que ganha entre R$ 400 a R$ 1,5 mil.

Como os colegas, o violeiro Luiz Aparecido dos Santos, de 69 anos, aprendeu a tocar música caipira sozinho. Embora as canções caipiras tenham sido sempre a sua paixão, também priorizou o trabalho para sustentar a família. Ainda hoje é pasteleiro no Parque São Lucas, mas nas noites de sexta, solta a voz e os dedos no violão. “No tempo que sobra, eu me dedico à música caipira.” Sonha em montar um festival na associação. “Pelo interesse do público que temos aqui, acho que daria certo.”

* A matéria foi publicada hoje no 1º Caderno da edição impressa do Jornal da Tarde

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