Românticos para sempre

Cristiane Bomfim

19 de abril de 2012 | 12h02

Hoje, os irmãos Zezé Di Camargo e Luciano celebram 21 anos de estrada. AoJT, falaram, com exclusividade, de carreira, fama e da briga que tiveram no ano passado

Por Cristiane Bomfim 

José Patrício/AE

“Se disserem que é preciso citar três artistas conhecidos em qualquer canto do Brasil e que todo mundo já ouviu falar, Zezé Di Camargo e Luciano vão estar entre estes três. Não tenho dúvida.” A frase pode até parecer arrogante, mas, ao completar hoje 21 anos de carreira, com 130 shows por ano, cachê médio de R$ 200 mil e dono da voz de Mentes Tão Bem, a segunda música mais tocada nas rádios em 2011, Zezé Di Camargo, que forma dupla com o irmão Luciano, não se faz mais de modesto.

Desde que lançaram o primeiro disco da carreira, em 19 de abril de 1991, Zezé Di Camargo e Luciano já venderam mais de 36 milhões de cópias de seus 19 álbuns de carreira, quatro coletâneas e dois CDs em espanhol. O novo trabalho, um DVD intitulado Zezé Di Camargo e Luciano – 20 Anos de Sucesso, gravado ao vivo em setembro, para comemorar as duas décadas de estrada, chega às lojas em 7 de maio. No mesmo dia, a dupla lança um CD com 15 faixas, sendo sete inéditas. Eles falaram, com exclusividade, com o JT.

A coerência na carreira de vocês pode ser a resposta para explicar estes 20 anos de sucesso?
Zezé – A música romântica vai ser sempre eterna. Você não precisa ter 20, 30 ou 40 anos para sentir frio na barriga quando você vê aquela pessoa que você gosta. É nesse momento que a gente entra, um momento muito importante da vida das pessoas. É diferente de uma música da moda, que você curte pelo baratinho que ela está dando, pela dancinha que você vai fazer. Qual é emoção que um cara vai ter quando ouvir, daqui a dez anos, a música “hoje é festa lá no meu apê”. Ai Se Eu Te Pego é do momento. Mas daqui a dez anos, ele vai continuar ouvindo “detalhes tão pequenos de nós dois” e vai sentir a mesma emoção. A música romântica fica.
Luciano – A música Mentes Tão Bem fez sucesso em um momento em que a música sertaneja romântica está em segundo plano. Estamos há 20 anos fazendo música romântica e renovando sem sair deste nicho. Somos a dupla mais romântica do Brasil e deste título eu não abro mão.

Mas o sucesso de um artista não depende só do repertório ou do talento de um artista…
Zezé – Até hoje, não sei o que é carisma. Por que eu tenho carisma agora e não tinha aos 16 anos? Por que ele só passou a existir depois que eu fiz sucesso? Acho que o carisma tem de andar junto com o sucesso e é você cantar e falar aquilo que emociona as pessoas. Você tem de ser o príncipe encantado que as pessoas imaginam que você seja. Tento me portar assim.

Como é ser o príncipe encantado? Ter de ser um exemplo cansa?
Zezé – Eu nem sou exemplo. Sou uma pessoa correta na minha vida, com relação à bebida, nunca mexi com droga. Sou um cara correto, família. Mesmo assim pegam no meu pé, acham que sou o maior paquerador do Brasil e que tenho uma namorada em cada Estado do Brasil. Estou na base do quer falar, fala. Já me preocupei muito com isso. Hoje não, sou bem tranquilo. Além disso, ser certinho demais é muito chato, né?

José Patrício/AE

O sucesso tem uma parte ruim?
Zezé – Não. Quem quer ser famoso, quer exatamente isso. Quer ser reconhecido. Esse papo de eu gosto de ir para Miami, para a Europa porque lá posso andar na rua sossegado é hipocrisia. Se ficar dois dias sem ser reconhecido, vai sentir falta. Quem fala que essas coisas perturbam está mentindo. Perde o sucesso para ver se não fica desesperado. Sucesso é sinônimo de ser querido pelas pessoas, de trabalhar e fazer o que gosta. Sou privilegiado, porque ganhei a minha vida, arrumei a vida da minha família toda, e ajudei várias pessoas, fazendo o que eu mais amo, que é cantar. Tem coisa melhor que essa? Em todos os lugares onde eu chego, as pessoas quererem me ver, saber como estou.
Luciano – Quando você atinge o sucesso, você é do público. Você saiu de casa, tem de sorrir, tem de estar bem. Se você não estiver a fim de retribuir um carinho e parecer bem, então, não sai de casa. Sou desse jeito. Claro, o que mais afeta um artista são as pessoas que estão em volta, que trabalham com ela. É um produtor, um diretor, até mesmo um empresário que, às vezes, quer ser mais que o artista. O que me levou a brigar com o meu irmão (referindo-se ao desentendimento que ocorreu antes de um show em Curitiba, no ano passado), por exemplo, foi uma série de problemas com as pessoas que estão à nossa volta. Depois disso, decidimos que tudo o que um precisasse falar para o outro seria sem intermediários.

Zezé, sobre o desentendimento do ano passado, Luciano disse que foi por causa de pessoas que trabalham com vocês. O que aconteceu?
Zezé – O motivo foi atendimento no camarim. Tínhamos 80 pessoas para atender e o Luciano ficou bravo com o número. E fiquei puto com ele. Ele queria atender antes do show e eu queria atender depois, porque a gente tem mais tempo com o pessoal. E a menina que produz para a gente já tinha reclamado para mim, no almoço, que o Luciano nunca ficava tempo suficiente para atender aos patrocinadores e fui falar isso para ele na hora da discussão. Aí, o bicho pegou.

José Patrício/AE

O Leonardo disse que pretende se aposentar. E você, Zezé?
Zezé – Aposentar de quê? Nunca fiz porra nenhuma na vida. Aposentar é para quem trabalhou a vida inteira. Para mim, cantar não é trabalho, é diversão. Sou pago para me divertir. Aquele trabalhador que levanta às 6h da manhã a vida inteira, pega ônibus lotado para ir trabalhar e voltar para casa cansado e, no dia seguinte, de novo ir trabalhar é quem pensa em se aposentar. Não vou me aposentar do que estou fazendo, de cantar, de subir no palco, de soltar a voz.

Você tem medo de virar um artista decadente? Passa pela sua cabeça a possibilidade de, daqui a alguns anos, ninguém se lembrar de você?
Zezé – Acho que isso não vai acontecer. Construímos uma história muito importante para ser esquecida. E, se tivesse de acontecer, já teria acontecido. Já vi muitos artistas que chegaram depois da gente e já foram. E se acontecer é um processo natural da vida e você vai se adequando à sua nova realidade. Você tem de ter a felicidade naquilo que faz. Minha felicidade é cantar, subir no palco. Hoje faço megaproduções para 50, 60 mil pessoas, mas, se daqui a alguns anos, eu estiver cantando para 200, 300 pessoas, mas com qualidade, já está gostoso do mesmo jeito.

Qual o melhor lugar para se fazer show?
Zezé – Tudo tem uma particularidade. Às vezes, a gente pensa: ‘Caramba, o que eu estou indo fazer lá?’. E quando chega, não acredita. É uma surpresa. Há uns três meses, fomos fazer um show no Pará, e pensei: ‘Caramba, estou fazendo 20 anos de carreira e o que estou fazendo aqui?’. A cidade tinha 6 mil habitantes, mas 30 mil pessoas foram para o show. Eu olhava na plateia e via muito índio, com as faixinhas na testa escritas Zezé e Luciano. Tem coisa melhor no mundo? Fiquei encabulado, e é isso que vale a pena. Vai gente de cavalo, de carroça. E depois do show, você passa pelos caminhões indo embora e o povo todo em cima. Outro dia, fomos fazer um show em Mato Grosso, numa cidade distante uns 300 km de Cuiabá. Ficamos hospedados numa cidade que era maiorzinha, onde tinha um hotel. Na estrada, uns 20 km antes de chegar à cidade, a rodovia estava toda parada. Olhei pela janela e tinha gente em caminhão, caminhonete, todo tipo de carro e até fusca com oito pessoas dentro. Vi muitas motos com as mulheres de vestido e salto. Todos indo para o nosso show.

Como vocês medem o sucesso?
Zezé – Se disserem que é preciso citar três artistas conhecidos em qualquer canto do Brasil e que todo mundo já ouviu falar, Zezé Di Camargo e Luciano vão estar entre estes três. Não tenho dúvida. Zezé Di Camargo e Luciano estão na história da música popular brasileira. Gostando ou não gostando, pode estar onde for, você já ouviu falar Zezé Di Camargo e Luciano.

Qual é o melhor álbum de vocês?
Zezé – O novo. Está lindo, lindo. Maravilhoso. Gosto muito do CD Double Face, de modão. Mas meus favoritos são os volumes 6, 9 e 10.

Luciano, se você não fosse cantor, teria um plano B para sua vida?
Luciano – Nunca tive um plano A para minha vida e nunca tive um plano B em relação a nada, nem na profissão. Eu morava em Goiânia e só estudei até a terceira série primária. Hoje, seria um cara sem mão de obra qualificada, sem estudo para poder gerenciar alguma coisa. Cantar aconteceu. Aquilo foi uma brincadeira e virou sucesso de verdade. Com o passar do tempo, você começa a adquirir experiências, gostos diferentes.

E como isso foi para você?
Luciano – Passei a ler mais, a buscar informações. Acho que poderia ser jornalista por ser essa pessoa inquieta que quer sempre saber mais. Sou fascinado com a arte das pessoas de entrevistar, de ir a fundo numa matéria e descobrir o que tem por trás de alguma coisa que está acontecendo. Mas não que eu tivesse essa ideia quando era pequeno. Falo isso porque eu passei a conhecer. Não busquei nenhum objetivo na minha vida. Aliás, passei a conhecer as coisas depois que comecei a cantar.

Como é ficar o dia inteiro com o irmão, resolver todas as questões de trabalho, viajar juntos, fazer show juntos? É pesado?
Zezé – Eu e o Luciano ficamos pouco tempo juntos. Venho para o estúdio, faço a produção toda, coloco a minha voz. Ele vem aqui depois, coloca a voz dele. É muito pouco. Ele não fica o tempo todo no estúdio. Eu, sim, fico aqui, produzo e escolho repertório. Quando viajamos para fazer shows, cada um fica em um quarto. No nosso avião, sentamos separados. E, na folga, fazemos coisas diferentes. O Luciano é muito urbano. Já eu gosto de ficar no meio do mato.

(a matéria foi publicada na edição de hoje, 19, do Jornal da Tarde. No caderno Variedades)

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