Roberta Miranda lança DVD para comemorar 25 anos de carreira

Cristiane Bomfim

24 de julho de 2013 | 08h50

POR CRISTIANE BOMFIM
(cristiane@gmail.com)

Foto: Rosa Marcondes

Na adolescência, Roberta Miranda saiu no tapa com outras fãs de Roberto Carlos em frente aos estúdios da extinta TV Excelsior, em São Paulo. Assim como as outras meninas, ela só queria chegar perto de seu ídolo. Talvez tocá-lo ou conseguir um autógrafo. Não conseguiu. Também não esqueceu a frustração.

Com 25 anos de carreira na bagagem, mais de 18 milhões de discos vendidos e o privilégio de já ter cantado ao lado do Rei, ainda hoje a cantora e compositora sertaneja se emociona ao falar do presente que ganhou de Roberto Carlos: um depoimento que foi eternizado no DVD “Roberta Miranda 25 anos ao vivo em estúdio”. O trabalho, que foi gravado nos dias 6 e 7 de janeiro e teve direção geral da própria Roberta Miranda já está sendo vendido na internet e chega às lojas nos próximos dias.

Roberta Miranda tem um estilo personalíssimo de cantar, uma interpretação inconfundível, maravilhosa. Quando ela canta, ela diz com muita emoção o que diz a letra canção. E a gente ouve com a mesma emoção. Ela tem uma voz linda e eu gosto muito dela. Gosto como artista e como pessoa. Bem, eu e todo mundo…”, diz parte do depoimento que ainda divide espaço com as declarações da apresentadora Adriana Galisteu, da cantora Alcione e do crítico de música Zuza Homem de Mello.

“Todos foram importantes. Mas o do Roberto (suspiro)… Eu fiquei uns dois dias desnorteada depois que vi o depoimento”, confessou a rainha da música sertaneja. “Ele fez porque eu pedi e cumpriu o que prometeu”, continuou enquanto se acomodava melhor em um dos confortáveis sofás de seu apartamento nos Jardins, na zona sul de São Paulo, onde atendeu alguns jornalistas.

O depoimento de Roberto Carlos chegou na fase de edição do DVD – três meses após a gravação – e seria um dos momentos mais bonitos do vídeo de 85 minutos, não fosse a homenagem que a cantora fez à sua mãe no pequeno palco montado em uma área de 80 metros quadros nos estúdios Nacena, em São Paulo. A terceira música da apresentação – acompanhada de perto por 25 fãs – é “Maria”, primeira composição de Roberta, quando ela tinha 16 anos. A canção faz parte do primeiro disco da cantora, gravado em 1986, pela Continental. “Homenageei minha mãe em vida e nunca mais eu consegui cantar porque era muito forte”, disse no palco.

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Intimista, o trabalho mostra uma Roberta Miranda com pose de diva, a começar pelas roupas elegantes escolhidas pelo figurinista e amigo Thidy Alvis, que usou cristais nos três modelos vestidos usados pela artista. “Começamos com um figurino extremamente elegante, de diva mesmo, que é como as pessoas enxergam a Roberta hoje. E encerramos com um figurino mais casual – com jeans – que é como as pessoas conheceram a Roberta”, explicou Tidy.

O álbum reúne 15 grandes sucessos de Roberta Miranda e três faixas inéditas. Uma delas é “Quem sentiu”, cantada com Alcione – única participação especial – e possível música de trabalho. “Ainda estamos decidindo”, informou a empresária Célia Moratori após a cantora declarar sua preferência. “Como estamos decidindo, Célia?”, brincou Roberta com certa surpresa.

Para compor o repertório, a cantora escolheu seus principais sucessos. “Gente, eu tenho mais de 400 músicas gravadas. Vocês têm ideia do que foi escolher 18? Então eu passei pelo critério da vendagem das músicas. ‘Vá com Deus’ vendeu 1,5 milhão, então vamos colocar. ‘Majestade o Sabiá’ vendeu 3,5 milhões… não foi com Roberta Miranda, mas foi com as pessoas que gravaram, entrou também. E foi assim”. Outras três ou quatro foram indicadas pelos fãs”. Fazem parte da seleção “Medo”, “São tantas coisas”, “Esperando Você Chegar”, além de “Café da Manhã”, uma composição de Roberto Carlos e seu parceiro Erasmo.

Roberta Miranda afirma que de todos os trabalhos, este ocupa lugar especial no coração e nas paredes de um quarto em sua casa. “Foram dois anos pensando nele. É um presente aos meus fãs e a mim pelos 25 anos de carreira”, disse.

Quatro perguntas para Roberta Miranda:

Nestes 25 anos você foi a grande cantora da música sertaneja. Como é isso? É pesado ser o principal nome feminino na música sertaneja ao longo desse tempo todo?
Roberta – Hoje eu percebo que tudo é mais fácil. Vinte e cinco anos atrás tudo era uma loucura. Eu tive que demonstrar meu talento para adquirir respeito dos meus colegas. Era um mundo exacerbadamente machista, onde quem dominava era a bota e o chapéu. Tinham as Irmãs Galvão, dupla que eu admiro muito. Eu tive bastante dificuldade, sofri muito. E, com paciência, eu tive que mostrar ao longo do tempo que contra o talento não existe argumento e foi assim que eles começaram a me respeitar. E carregar essa bandeira por 25 anos é uma responsabilidade complicada. Porque quando você faz o primeiro disco, como eu fiz, imaginando, idealizando e pretendendo vender só 5.000 cópias para pagar o custo da gravadora e ter certeza de que poderá gravar o segundo, e de repente vê o primeiro disco ultrapassar 1,5 milhão de cópias, é uma surpresa para todos nós. Aí, o segundo é muito mais cobrado, o terceiro mais ainda, e você tem uma cobrança imensa

Você disse que foi uma surpresa para todo mundo, mas para sua família foi maior ainda. Seus irmãos não apoiaram muito no começo, né?
Roberta – Foi uma luta com a família desde os meus 16 anos, porque eles queriam que eu fosse professora e pendi para um lado artístico porque nasci artista. Faz pouco tempo que fiquei sabendo que o meu pai era saxofonista. E ele nunca tinha me falado isso. Descobrimos pelo atestado de óbito. Não me pergunte, porque eu não entendo. Mas a minha mãe era pianista. Ela estudou em um colégio interno. Meus pais foram os que mais me deram força e meus irmãos queriam que eu fosse professora porque eu venho de uma família de educadores: irmãos e cunhadas. Lembro que eles me colocavam no ônibus para ir estudar e quando eu olhava para trás e não os via depois da curva, descia e ia tocar violão por aí. Até que um dia, eles descobriram. Imagine a surra que eu levei.

Quando você começou a tocar, era a época da bossa nova, MPB. Como você caiu no sertanejo?
Roberta – Então, como eu trabalhei 14 anos nos bares de São Paulo e em grandes casas como o “Beco” e fui dirigida por pessoas como Augusto César Vanucci, Abelardo Figueiredo, vez em quando cantava “Índia”, “Meu primeiro Amor”, colocava no meu repertório Cascatinha e Inhana, colocava Zé Fortuna e percebia que pouquíssimas pessoas paravam para olhar e observar o que eu estava cantando. Foi assim que eu fui me apaixonando pela música raiz sertaneja. Até que um dia eu tive o prazer de conhecer Nalva Aguiar – que eu adoro e reverencio – e pedi para ser a secretaria dela. Eu precisava ser a secretaria de Nalva porque eu queria caminhar nesse mundo sertanejo e ela disse: ‘Roberta, eu não posso te contratar porque eu já tenho a minha equipe’. Mesmo assim eu entrava no ônibus da Nalva Aguiar e dava uma volta nesse mundo sertanejo. Aí, a paixão veio mais forte ainda. Eu podia ser o que eu quisesse, por exemplo, ir só para música popular brasileira porque sempre cantei todas as canções desse universo, mas pendi para o mundo sertanejo, porque foi esse que arrepiou a minha alma, foi esse que calou fundo dentro de mim, eram essas músicas que eu ouvia quando era criança. O que me calou fundo foi a melodia e a canção sertaneja.

E você considera a Paula Fernandes a nova Roberta Miranda?
Roberta – Eu gosto muito da Paula. Nós somos amigas, passamos e-mails, nos comunicamos. Ela me convidou para participar do segundo DVD dela e imediatamente eu fui. Eu acho que ela compõe bem, tem uma voz gostosa. Ela tem o caminho dela. É uma artista mais pop do sertanejo. Mesmo colocando um arranjo mais moderno nas músicas, eu ainda prezo por um caminho que eu não pretendo sair. Eu posso, mas eu não saio deste estilo, já que eu tenho como espelho um cara chamado Roberto Carlos. São 50 anos que ele faz sucesso com a mesma verdade. Como ele é o meu espelho, é claro que eu sigo o meu ídolo.

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