Há 10 anos, Zezé di Camargo reclamou de preconceito

Cristiane Bomfim

12 de setembro de 2011 | 18h44

Por Cristiane Bomfim

Zezé di Camargo e Luciano gravam amanhã (13) CD e DVD para comemorar 20 anos de carreira. Encontrei no banco de dados de notícias do Jornal da Tarde uma matéria bacana sobre a dupla publicada em 7 de outubro de 2001. Até aquela data, os irmãos tinham vendido 18 milhões de CDs e lançado 12 álbuns. Hoje já são 37 milhões de cópias vendidas de 21 trabalhos lançados (sendo dois em espanhol).

A matéria em questão é, na verdade, uma entrevista com Zezé di Camargo e o tema principal é o preconceito com a música sertaneja. “O que mais policia, vigia e põe preconceitos no Brasil são os críticos musicais”, disse o cantor. O bate-papo é ótimo. Entre os questionamentos do cantor, super válido ainda hoje, está a definição do que é bom e ruim quando se fala em música. Afinal, quem foi que disse que rock ou MPB são melhores que sertanejo? Quem vende mais CD hoje no País? Vale a pena ler:

A dupla de 18 milhões de CDs volta a atacar
DESABAFO “O respeito que o artista popular angaria na mídia é pelo que ele representa em números”, afirma Zezé di Camargo 

Por André Domingues 

A dupla Zezé di Camargo & Luciano acaba de lançar seu 12.º álbum de carreira, também chamado Zezé di Camargo & Luciano, um possível recordista de vendas deste segundo semestre. Sucesso nas lojas, entretanto, não é novidade para os sertanejos que, em quase 11 anos de carreira, acumulam a espantosa cifra de 18 milhões de discos vendidos.

O disco segue a bem-sucedida fórmula dos trabalhos anteriores da dupla e investe no repertório romântico que a projetou. Entre baladas, folks e até um hit italiano (Bella Senz’Anima), a dupla apresenta uma série de novas candidatas para as listas de “as mais pedidas” das rádios populares. A faixa Passou da Conta, por exemplo, já conseguiu seu lugar.

Mas nem mesmo depois de seu inegável triunfo popular, Zezé di Camargo e Luciano conseguiram boa reputação entre a crítica de MPB.

Embora estejam em evidência há mais de dez anos e tenham números bastante respeitáveis, os rapazes ainda se queixam da pouca receptividade que encontram nos meios especializados. No escritório da Sony Music, em São Paulo, Zezé di Camargo falou ao JT sobre o disco, mas, principalmente, sobre MPB, mídia e show biz.

Jornal da Tarde – O que motivou vocês na criação desse novo disco?
Zezé di Camargo – Na verdade, para um artista depois de 10 anos de carreira, é difícil achar uma motivação assim, a não ser a continuidade do trabalho. Sou um artista romântico, já falei de todas as maneiras sobre o amor. Vou mudar o lado da moeda? Acho que não é por aí. Então, a motivação de fazer um disco é, quase que total, comercial mesmo: continuar no mercado, na competitividade, e vender todo ano – na pior das hipóteses, igualar os números. Você passa a concorrer com você mesmo.

Jornal da Tarde – Ainda preocupa a possibilidade de ficar fora do mercado?
Zezé di Camargo – Claro. O artista popular não tem esse privilégio de se ausentar da mídia, de ficar dois, três anos sem gravar, como muitos fazem. Ele é respeitado pelo que representa em números. Caetano é respeitado pelo cara maravilhoso, intelectual, que escreve, aquela coisa toda. Gal, Betânia, Chico, também. Esse pessoal conquistou um espaço na música, que dá o privilegio de virar as costas para a mídia na hora que querem. Artista popular não. O respeito que ele tem na mídia, na imprensa, é pelo que representa em números. Até dentro da gravadora é assim.

Jornal da Tarde – A faixa Meu País tem um enfoque social. Você sente falta de cantar mais coisas assim?
Zezé di Camargo – Sinto. O artista, como o político, vive da generosidade do povo, que compra os nossos discos, vai aos nossos shows. Por isso, o artista deve se posicionar como cidadão, com opiniões próprias e uma maneira de pensar. Meu País é exatamente a minha maneira de pensar sobre uma coisa que me atingiu na minha infância e está no dia-a-dia. O mais importante para o ser humano é a barriga cheia. A música fala disso.

Jornal da Tarde – O que é, hoje, a música sertaneja?
Zezé di Camargo – A música sertaneja, hoje, não tem um perfil definido. Os artistas sertanejos, apesar de a maioria ter vindo do interior e ter uma formação musical influenciada pelas duplas sertanejas, acabaram ouvido muita coisa…Qual artista, hoje, não é influenciado pela música americana? Com exceção de alguns gêneros – moda de viola, samba e bossa-nova, que é invenção brasileira –, toda a música brasileira tem influência americana. Sertanejo é apenas um rótulo. Se você for ouvir o nosso som, ele é tão pop e romântico, quanto Luiz Miguel, Fábio Junior, Roberto (Carlos), Júlio Iglesias.

Jornal da Tarde – O romantismo que vocês cantam, ligado à idéia de abandono, de separação, é o sentimento do Brasil?
Zezé di Camargo – Amar, se ama no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa. Se você pegar Beatles, que é denominada uma banda de rock, nenhum dos maiores sucessos deles é rock: é tudo balada romântica – Yesterday, Let it Be… É preconceito dizer que o sertanejo fala de amor sofrendo e coisa e tal.

Jornal da Tarde – Por que a MPB ainda tem uma reserva grande contra o sertanejo?
Zezé di Camargo – É puro preconceito. Acho que o maior valor, a maior maturidade do ser humano é conseguir se despir dos preconceitos. Quando a Bethânia gravou minha música É o Amor, foi achincalhada por toda a imprensa. O que mais policia, vigia e põe preconceitos no Brasil são os críticos musicais. A minha filha Wanessa foi vaiada no prêmio Multishow e o culpado da vaia fui eu. Vaiaram ela por ter sido a revelação do ano diante do filho da Elis Regina e do Simonal.

Jornal da Tarde – Todo mundo era filho de alguém?
Zezé di Camargo – É, e a filha do sertanejo ganhou. Aquilo, para eles, foi uma afronta. Mas era um prêmio verdadeiro, votado pela Internet, pelo público. E ela foi humilde, como todos nós sertanejos somos, e se saiu muito bem quando disse que curtiu Max de Castro. Mentira. Ela não tem nenhum disco do Max de Castro e não curte. Acho que nem ela, nem eu, nem ninguém tem, porque ele não vende nem 10 mil discos por ano. Mas aquilo foi legal porque mostrou a cara do País.

Jornal da Tarde – O Caetano foi um que defendeu vocês.
Zezé di Camargo – Esse é um dos caras mais conscientes que tem na música popular brasileira. Caetano, Djavan, Betânia, Gil, Gal – que já teceu elogios a mim – são pessoas que já estão assentadas na vida. Estão acima da disputa. O que eu digo é sobre uma meia dúzia – principalmente de gente nova, que se denomina como “a nova cara da música popular brasileira” – que se acha dona da verdade. Essa turminha ainda não provou nada, não fizeram sucesso nem no quintal da casa deles. É neles que eu bato e não aceito achar que são mais do que eu, que tenho 18 milhões de discos vendidos e tenho, no mínimo, 20 sucessos de minha autoria e mais uns 40 de autoria de outros cantados pelas bocas do Brasil. Eu bato em quem acha que, por ser comercial, não tem valor nenhum. Me ouçam primeiro. Vejam o caminho que eu quero atingir. Se eu quisesse agradar a alguém, regravaria 500 músicas do Tom Jobim, do Vinicius, sei lá. A família iria adorar, porque eu vendo 1,5 milhão de discos e iria render uma grana legal. Mas eu quero agradar a quem chora no meu show, quem fica duas, três horas de pé me esperando na frente do palco. Eu vim de lá, sou do meio deles.

Tendências: