Eduardo Costa fala sobre música, gostos e manias. Entrevista exclusiva

Cristiane Bomfim

03 de abril de 2012 | 07h30

Por Cristiane Bomfim

Minutos antes de subir no palco, o cantor sertanejo Eduardo Costa se olha no espelho. Primeiro, de frente. Depois, de lado. Pede a opinião dos produtores e do seu estilista pessoal. Olha mais uma vez para o espelho e levanta a camiseta branca. Eduardo é um cara vaidoso, gosta de malhar (duas horas por dia, menos nos fins de semana), e vestir roupas coladas ao corpo. Anda sempre perfumado, tem dezenas de botas (mas diz que acaba usando sempre a mesma nos shows). Aprendeu a se maquiar para disfarçar as irregularidades da pele e prefere produtos da marca MAC.

“Eu não sou vaidoso. Dizem que quem se olha muito no espelho é inseguro. Acho que é o meu caso”, diz o cantor ao ser perguntado sobre o assunto. Uma marca de expressão entre os dois olhos o incomoda. “Fico com cara de bravo. Já fiz preenchimento, mas não resolve”, continua.

Embora negue, a vaidade fica explícita nas fotos que o cantor publica nas redes sociais: a maioria sem camisa. “É que eu sempre gostei de andar sem camisa, mas antes não fotografava porque tinha uma barriguinha”, explica. E a vaidade também ficou clara quando, em tom de brincadeira, o cantor disse que gostaria de ter uma estátua ou dar nome a um viaduto. Tudo isso porque ele foi perguntado se acha que será um artista famoso e lembrado depois da morte.

Eduardo também tem manias. Confessa que gosta de pensar na decoração da casa e que ela esteja sempre muito bem arrumada com cada coisa em seu lugar. As roupas devem estar alinhadas no guarda-roupa. E diz que se sente incomodado se, por exemplo, os interruptores de um cômodo estiverem virados para lados opostos.

Aos 33 anos, Eduardo Costa comemora o sucesso da carreira que insistiu em demorar para acontecer. No início de março, lotou o Credicard Hall, em São Paulo, nas duas apresentações da turnê De pele, Alma e Coração. Solteiro e com dinheiro, diz que “ainda se diverte com as mulheres erradas até encontrar a certa” para, só então, poder casar. Mas sua principal preocupação hoje é manter uma carreira sólida e longa como o seu maior ídolo, o também sertanejo Leonardo, fez. E quando o assunto é música, o cantor fica sério e fala com a autoridade de quem já ralou muito para fazer sucesso

JT esteve com Eduardo Costa no dia 2 de março. O encontro foi no hotel Bourbon, no centro, onde ele costuma se hospedar quando está em São Paulo. A conversa começou no quarto quando ele ainda se maquiava e definia – com seu estilista – quais roupas levaria para usar na apresentação do Credicard Hall. E o papo, divertidíssimo, continuou na van a caminho da casa de show e no camarim.

Por ser muito longa, a entrevista será publicada em partes, com direito a fotos e alguns áudios dos melhores trechos.

JT – Qual foi a pergunta que você mais respondeu para jornalista?
Eduardo Costa – Não é bem pergunta. As pessoas sempre têm um pouco de medo de mim. Acho que eu tenho cara de bravo. Mas o que mais fizeram nesse tempo todo foi a comparação da minha voz com a do Zezé di Camargo. Foi uma coisa que me encheu o saco demais. Foi a coisa que mais falaram na minha cabeça. Virou um coro de gente falando disso.


JT – Isso ainda incomoda ou já passou?
Eduardo Costa – Incomoda ainda, mas eu não deixo transparecer. Respondo normalmente porque eu nunca quis imitar o Zezé. Nem outro artista. E se eu quisesse imitar alguém, imitaria o Leonardo, porque eu sou fã do Leonardo demais. E gosto do Zezé também e acho que todo mundo gosta. Mas o cara que eu mais gosto é o Leonardo, eu gosto dele como artista, como ser humano, como humorista. E eu não quero imitar ninguém. Mas, se um dia eu tivesse que imitar alguém seria o Leonardo. E eu até acho que eu tenho um pouquinho dele. Como nós somos muito amigos, acabamos tendo coisas em comum.

JT – Qual é o preço do sucesso?
Eduardo Costa –Não tem preço não. Sucesso é só coisa boa. Acho que o preço do meu sucesso é o mesmo que o de um engenheiro, de qualquer pessoa bem sucedida. Você trabalha mais, você tem que dar mais atenção, tem que se preocupar com o que você fala, com o que você faz. Você tem que ser um bom exemplo. Mas eu acho que é isso. Eu busquei isso. Eu procuro levar uma vida extremamente normal. Meus fãs me respeitam muito e eu acho que eu consegui uma coisa muito importante que é credibilidade. Quando eu gravo um CD, as pessoas não querem ouvir primeiro para depois comprar. Elas compram e depois ouvem. Poucos artistas tem esse privilégio hoje, principalmente na atual circunstância por qual passa nossa música.

JT – Você disse que tem que se preocupar mais com o que fala, com o que faz. Você se preocupa em ser exemplo mesmo?
Eduardo Costa –Eu tento. Tenho fãs crianças que gostam das minhas músicas e jovens que estão começando a vida agora e que gostam da minha história de vida, gostam do que eu faço, do que eu falo. Antigamente eu era um cara mais desleixado. Eu falava bobagens de cachaça, de bebida alcoólica. E continuo falando. Só que hoje, moderadamente. E o conselho que eu dou para as pessoas é que tem que ter um motivo para beber. E depois, quando for beber, se preocupar com a quantidade. Tem gente que acha que o mundo vai acabar em cachaça e tem que beber tudo no mesmo dia. As pessoas têm que se divertir, mas com moderação. Eu tenho uma filha pequena (com cinco anos) e me preocupo em ser um bom exemplo.

JT – O que é ser um bom exemplo?
Eduardo Costa – Existe uma diferença entre você ser um fake. Tentar ser um exemplo e não ser e realmente ser um bom exemplo. Eu acho que eu sou um bom exemplo. Eu não fico fazendo média com ninguém. Não quero agradar ninguém, quero ser um bom exemplo porque acho que Deus me cobra isso. Até pelo dom que ele me deu. Eu quero ser um bom exemplo porque Deus pode tomar o dom que me deu. Isso acontece com um monte de artistas. Um bom exemplo é um homem que paga as contas em dia, que se preocupa em ser um bom filho, ser um bom pai, em não mexer com drogas pesadas. (Um bom exemplo) é ser um cara se preocupa com os horários. Eu tenho compromisso com meus fãs.


JT – Antes do sucesso você passou muita necessidade. Qual foi a primeira coisa que você comprou quando ganhou dinheiro?
Eduardo Costa – Eu passei até fome. O primeiro dinheirinho que eu ganhei foi um empresário quem me deu. Eram R$ 30 mil na época. Nesse dia eu não tinha nem R$ 10 no bolso, nem expectativa de onde arrumar. Lembro que peguei R$ 20 mil e dei para minha mãe e pedi para ela usar só em extrema necessidade. Peguei os R$ 10 mil e guardei. E fui no supermercado e comprei R$ 2 mil de arroz, feijão, macarrão, massa de tomate e sardinha. Eu lembro que quase chegou um caminhão em casa. E eu comprei do arroz mais barato. Deu uns 150 pacotes de arroz. Aí eu pensei: “fome eu não passo tão cedo. Eu como esse trem até vencido”. Isso faz oito anos. Foi quando eu gravei meu primeiro CD.

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JT – Quando você sentiu que já podia esbanjar um pouco mais, o que você comprou?
Eduardo Costa – Foi uma caminhonete Dakota preta linda. Modéstia parte eu sempre tive muito bom gosto para casa e carro. Sou muito enjoado e bem detalhista. Sou um cara que cuida de casa. Eu saio para comprar lençol, roupa de cama. Quando eu casar, minha mulher não vai precisar se preocupar com essas coisas, porque são coisas que eu tenho paixão. Eu gosto de decorar a casa, de desenhar os móveis. A primeira casa que eu comprei foi para minha mãe e depois para o meu pai, já que eles são separados. E depois  comprei um sítio para eu morar. Aí depois eu tive Ferrari e essas coisas de velho. Tipo, Ferrari para mim é um carro de velho. Quando vejo uma parece que vai sair um velho de dentro dela. Por exemplo, eu tive uma Lamborghini, aí um dia eu desanimei porque fui em um restaurante perto de casa e parou uma Lamborghini igual a minha. Desceu um senhor do carro, ele tinha uma bermuda no joelho, um tênis, uma meia na canela e estava de boné. Aí eu desanimei. Hoje eu gosto de carro potente e mais barato. Descobri que esses carros esportivos caros são para velhos porque jovens não têm condições de comprar. E eu também gosto de moto, a minha favorita é uma chamada Aprilia, que é importada e muito bonita e gosto de moto esportiva da Yamaha também.

JT – Como você escolhe o repertório?
Eduardo Costa – Eu pego alguns CDs de compositores, de pessoas que me mandam, seleciono as que mais gosto. Só eu escolho e não passa pelo meu produtor que é o César Augusto, um dos melhores do Brasil. Normalmente eu ouço os CDS no carro. Aí nessa hora eu até gosto de trânsito. E a música tem que me arrepiar. Se eu eu for gravar 15 músicas, eu seleciono 10 e cinco eu tenho obrigação de fazer. Eu me cobro isso.

JT – E é difícil compor?
Eduardo Costa – É difícil. Porque eu não componho por compor. Eu só componho quando estou inspirado e não é sempre que eu estou. Eu tenho uma regrinha de compor de noite. E maioria sai de dia. Mas pela minha cabeça tem que ser de noite. Às vezes pinta um clima aqui e agora eu guardo a ideia e escrevo em casa. E eu faço dois tipos de música: ou muito melosa ou muito engraçada.

JT – Você gosta mais das músicas melosas ou das engraçadas?
Eduardo Costa – Existe momento pra tudo. Eu me preocupo com o momento. Quando gravo um CD, me preocupo com o momento em que as pessoas vão estar ouvindo ele. Se ela está feliz, ela vai acordar no domingo e lavar o carro – é uma coisa que eu gosto de fazer – aí você não vai colocar uma musica melosa. Tem que ser uma coisa mais agitada Você vai malhar ouvindo Julio Iglesias? Você começa a chorar.

JT – E a mulherada?
Eduardo Costa – A mulherada fala que eu sou galinha. Eu já falei que eu não sou galinha. Eu sou cachorro. É diferente. Eu não encontrei a pessoa certa e estou me divertindo com as erradas.

JT – Por ser famoso, você acha que pegam mais no pé e controlam mais a sua vida pessoal?
Eduardo Costa – Eu não ligo não. Até porque nunca fui de beijar na rua. Se eu beijar um beijo muito gostoso. Sabe aquele beijo? Se eu beijar esse beijo, eu tenho que transar. Eu não consigo dar aquele beijo em uma mulher e só ficar naquilo.

JT – Daqui 20, 30 anos como você imagina sua carreira?
Eduardo Costa – Eu tenho hoje 33 anos. Quero chegar aos 50 anos e não precisar mais me preocupar com quantos shows eu preciso fazer no mês. Eu quero ter uma carreira bonita. Por isso que eu não gravo qualquer coisa. Quando chegar nessa idade, quero fazer poucos shows para que as pessoas possam apreciar uma boa música, mas sem exageros. Até porque a gente tem que se preocupar com o futuro, porque as coisas passam, o mundo dá muita volta, a gente não sabe o que vai acontecer. Então eu quero fazer um pé-de-meia, montar uma vida estruturada. Eu vejo tantos artistas se preocupando em fazer shows. Eu não sei se eles estão precisando de dinheiro ou se de fato ele quer se autoafirmar como artista, apesar de não precisar mais. Mas a gente vê uns artistas correndo atrás do sucesso numa idade em que eles já não precisavam mais disso.

JT – Você se preocupa em não lotar casas de shows?
Eduardo Costa – Sim. Chegar num parque de exposições que cabe 20 mil pessoas e só ter 3 mil me preocupa. A gente tem que pedir a Deus para que não aconteça. Aí a gente vê vários artistas que tinham uma carreira bonita, bacana e que podiam ter segurado um pouquinho, feito menos shows, aparecido menos na TV e dado menos a cara. E as pessoas enjoam de ver artista: está toda hora na TV, na internet.

JT – É por isso que você não está sempre na mídia?
Eduardo Costa – Eu não gosto, porque eu acho que as pessoas tem que ter vontade de ir no meu show. E tem artista que está toda hora em todo lugar. Você liga a TV, o cara está lá. Liga o rádio, o cara está lá. Liga o computador, o cara está lá. Ninguém aguenta mais ver o cara. Tem gente que vai no show para ouvir uma música, depois vira fã, mas se voê está o tempo inteiro atazanando a vida do cara no rádio, na internet, na TV, ele cansa. Eu gosto de tocar no rádio, mas acho que tem um limite.

JT – Qual é o peso de programas de TV para a carreira
Eduardo Costa – Claro que o Faustão é importante e todo programa de TV é importante. Só que tem que ser natural. Se você ficar forçando a barra para ir, as pessoas não vão entender o que você está fazendo ali. O legal é ser convidado. Se o cara não te convida, é sinal que você não está fazendo falta lá, entendeu? Tem alguns programas que eu tinha vontade de ir, até porque eu gosto do apresentador.

JT – Quais programas são esses?
Eduardo Costa – Eu gosto da Marília Gabriela, por exemplo. E tenho vontade de ir num programa dela. Mas não porque eu queira aparecer, mas porque eu tenho vontade de conhecer a Marília Gabriela. Eu gosto do Jô Soares e gostaria de ir no programa dele. E para ir no programa dele tem até que ter um pouco de cautela para não passar do bonito para o feio.

JT – Você acha que é um cantor sertanejo ou romântico?
Eduardo Costa – Eu acho que eu sou um cantor de música sertaneja e um cantor romântico. Porque a verdade é que música sertaneja hoje não existe mais. Até as músicas que Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó cantavam nos anos 1990 já não eram sertanejas. Sertanejo é Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e José Rico, Léo Canhoto e Robertinho. Essa música que nós cantamos é a música popular brasileira. MPB é essa que está no rádio o tempo inteiro, que se você vai numa festa de 12 anos, de 15 anos, de 17 anos, de 30 anos, de 50 anos, de 100 anos, a música está lá. Podem até achar que é outro estilo, mas a música popular brasileira é essa.

JT – Como você reage quando dizem que música de verdade é Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e por aí vai? Ainda existe o preconceito?
Eduardo Costa – Eu estudei instrumentos e estudo até hoje. Os meus músicos estudaram música. A nossa música é rica. A música sertaneja é cheia de mistura e gente competente. É claro que tem um monte de gente incompetente que faz também. Mas os que se prontificaram a fazer bem feito, fizeram com autoridade. Existe porcaria em todos os tipos de música. Existe porcaria no rock, no forró e no nosso estilo existe mais porcaria que em todos os outros porque é o que mais faz sucesso. Então, hoje pode-se dizer que 95% do que se faz é ruim.

JT – Como você reage quando é colocado dentro dessa cesta do ruim, do brega, do cafona, do comercial?
Eduardo Costa – Isso mexe com minha vaidade. Porque eu me preocupo de fato com isso. Eu tenho uma das melhores bandas do Brasil para me acompanhar. E me preocupo com a musicalidade. Então quando alguém fala que eu sou ruim, eu queria que ele provasse onde eu sou ruim. Porque aí eu vou colocar numa balança e ver onde estou errando. O cara tem direito de não gostar do estilo que eu faço. Mas dentro do que eu me propus a fazer, posso dizer que faço com autoridade. E eu tenho obrigação de ser bom porque vivo disso.

JT – Você acha que vai ser lembrado para sempre? Você gostaria de daqui 50, 60, 70 anos ser lembrado?
Eduardo Costa – Eu sou da seguinte opinião: morre o homem fica a fama. Eu queria ser lembrado. Queria até ter uma estátua, um viaduto, uma rua. Rua Eduardo Costa. Mas não põe Edson (o nome verdadeiro do cantor), tem que ser Eduardo Costa. Eu penso nisso. Eu queria ser bem lembrado. Mas Deus sabe o que faz e eu quero que Ele me dê inspiração para que eu possa ter censo crítico. Não quero me achar bom e não ser. Para que eu tenha noção do eu estou fazendo e não fique achando que sou o bom e todo mundo rindo da minha cara lá na rua.

JT – Você tem vontade de cantar no exterior?
Eduardo Costa – Não. Tenho nada. O dia que você ouvir que um artista nosso está fazendo sucesso no exterior, tem até que investigar porque a nossa língua é muito complicada de se entender e de se falar. Raramente as pessoas vão consumir a nossa música em outros lugares do mundo por causa da nossa língua. Não por causa da nossa musicalidade. Já tem seis anos que eu faço shows nos Estados Unidos e na Europa, só que é para brasileiro. Não vai gringo porque eles não entendem nada. Tirando o Tom Jobim, que foi um cara que de fato pegou o outro público por causa da bossa nova, eu não conheço outro artista brasileiro que foi para fora e fez sucesso.

JT – Você gosta de fazer shows em lugares populares?
Eduardo Costa – Eu gosto de fazer porque eu sou um artista que vive de rádio. O público que liga pra rádio para pedir a minha música é aquele público. Então eu não posso agora que sou um artista grande, deixar de atender eles, senão daqui a pouco eu volto a ser pequeno, entendeu? E não é porque estou precisando fazer show, é porque eu acho que essas pessoas precisam de mim, elas gostam de mim, elas que me mantém no lugar que eu estou. E é ótimo. Eu prefiro o povão, claro que fazer show nas casas bacanas é legal demais. Você precisa manter todos os públicos.

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