Especialistas dizem que campanha protagonizada por Leonardo tem efeito de ‘curto prazo’

Cristiane Bomfim

12 de junho de 2012 | 08h45

Por Cristiane Bomfim

Começa a ser veiculada hoje, 12, nas emissoras no do norte e nordeste do País a segunda campanha gravada pelo cantor Leonardo pedindo prudência aos motoristas. A peça foi produzida pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e deve ficar no ar até o fim do mês, já que as festas juninas serão o foco.

O primeiro vídeo, com slogan “A dor de um acidente pode durar para sempre”, teve circulação nacional entre 4 de maio e ontem. Nele, o cantor usa o acidente sofrido pelo seu filho Pedro Leonardo, de 24 anos, para sensibilizar os motoristas: “Gente, o meu filho sofreu um acidente porque estava dirigindo cansado depois de um show”, começa o cantor.

De acordo com Ede Cury, assessora de Leonardo, o sertanejo foi abordado “pelo pessoal do Denatran” quando visitava Pedro Leonardo no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e “aceitou na hora” por achar o assunto importante. A assessoria do Denatran informou em nota que “Leonardo tem altruísmo e desprendimento a ponto de falar do drama pessoal. As pessoas se sensibilizam com a mensagem, principalmente quando ela é real e parte de um fato de conhecimento público.  Nesse caso, o cantor falou o que realmente sente, gerando emoção e credibilidade à mensagem publicitária”.

Mas, para especialistas, a estratégia de usar o drama real de uma personalidade para tentar reduzir, neste caso, acidentes de trânsito tem efeito limitado, “de momento”.

“O grande objetivo de campanhas como essa é alterar o comportamento dos motoristas. Mas o efeito é de curto prazo e só funciona quando existe uma consequência além da campanha, como por exemplo, aumento na fiscalização e no valor das multas”, explica a professora e analista do comportamento do Centro de Psicologia da Universidade São Judas, Lívia Ferreira Godinho Aureliano.

Para Hélio Roberto Deliberador, professor do Departamento de Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a figura do artista fica mais humanizada quando situações dramáticas acontecem. “O artista é normalmente visto como herói. Quando um fato como este acontece com ele, lembramos que pode acontecer com qualquer um”, explica. Por isso, ele acredita que a criação de propagandas com dramas reais podem ajudar a reduzir os números da violência no trânsito. “Desde que sejam realizadas ações contínuas de educação e fiscalização”, diz Deliberador.

Acidentes

No dia 20 de abril, Pedro Leonardo sofreu um grave acidente de carro perto do município de Tupaciguara, em Minas Gerais, quando voltava de um show. Ele foi levado ao Hospital Municipal de Itumbiara, em Goiás, e foi submetido a uma cirurgia no baço. Seis dias depois, o cantor e filho do Leonardo foi transferido para o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. O cantor, de acordo com a assessora, se recupera bem e já perdeu 27 quilos. A previsão é que ele permaneça mais 30 dias hospitalizado.

Embora ninguém tenha tocado no assunto, este não é o primeiro acidente de carro envolvendo a família do sertanejo Leonardo. Em novembro de 2003, Leonardo perdeu o controle de uma Land Rover Defender e capotou seis vezes na BR-070, perto de Jussara, a 223 quilômetros de Goiânia. O cantor e outras quatro pessoas estavam no veículo. Uma delas, Sebastião Figueiredo Arantes, na época com 48 anos, morreu na hora.

Sobre o assunto, o Jornal da Tarde fez um pingue-pongue com a professora da PUC-SP e psicanalista junguiana, Liliana Liviano Wahba.

JT – A participação de pessoas famosas que viveram dramas, contando sua história e fazendo apelo por prudência em campanhas como esta é capaz de mudar o comportamento dos motoristas?

Devido à tendência a projetar o que sentimos, figuras famosas despertam emoções e as pessoas tendem a se identificar positivamente ou negativamente. No caso haveria solidariedade com o sofrimento de um cantor publicamente reconhecido, que “entra” no espaço familiar. Mas isso somente afeta uma reação de momento, não tem o poder de mudar comportamentos, que são arraigados e repetitivos, com motivações profundas e hábitos aprendidos e exercidos durante anos. Agrava-se o fato de acidentes estarem associados a adições como álcool e drogas, difíceis de mudar sem sustentação consolidada.

Qual é o peso de uma celebridade ou formador de opinião em campanhas educativas?

As celebridades influem na opinião certamente, seria bom que elas se envolvam mais em campanhas educativas, pois servem como exemplo. Em vez de somente consumir bens, ostentar luxos e frequentar lugares privilegiados elas podem veicular valores, tais como solidariedade, empatia. Mobilizações coletivas são úteis e por isso a insistência em apelos, campanhas, Facebook, redes sociais, deve continuar.

Somente a campanha na TV é suficiente para mudar o comportamento das pessoas ou é preciso de outras medidas como multa, fiscalização, educação?

Certamente é insuficiente, o efeito é transitório. A coerção é útil em certa medida, a conscientização é mais difícil de alcançar, mas seria mais duradoura. Campanhas educativas precisam começar na infância, na adolescência, e serem acompanhadas por um trabalho de identificação de motivações. Por exemplo: o jovem que se precipita em uma corrida disparada de carro, vivencia de certa forma o herói e isso precisa ser percebido, ajudá-lo a refletir sobre outras maneiras de vivenciá-lo sem arriscar sua vida e dos outros. Ajudá-lo a conter o ímpeto heroico ou a limitar a onipotência e aprender a lidar com as frustrações da vida. A campanha educativa formal tem pouco alcance se não for acoplada com compreensão psicológica e reconhecimento de estrutura de identidade, assim como de transtornos emocionais. As escolas deveriam introduzir grupos de debate, de dramatização, com esses temas. Outro fator a ser levado em conta é um “complexo social” de poder, de passar à frente competindo desmesuradamente. Por exemplo, a campanha contra acidentes de moto pouco resolve se as empresas continuarem pagando os motoboys por número de entregas diárias. Ou seja, é necessária uma revalorização cultural gradativa, sem ingenuidade ou idealizações ilusórias.

Em 2003, o cantor Leonardo se envolveu em um acidente de carro que matou um amigo dele. Escolher o cantor para a campanha foi uma boa ideia?

Seria uma ideia melhor se ele reconhecesse publicamente a dor que o acomete agora com o filho e a penosa lembrança do fato anterior. O público identifica sentimentos como arrependimento, exemplos de vida, aprender com os erros de outro.

Números de morte no trânsito no Brasil (a fonte é o Denatran, ligado ao Ministério das Cidades):

2007 – 37.407 óbitos
2008 – 38.273 óbitos
2009 – 37.594 óbitos
2010 – 42.844 óbitos

Números de morte no Estado de São Paulo:

2009 – 7.068 óbitos
2010 – 7.397 óbitos

Estados com mais mortes no trânsito em 2010 (último levantamento do Denatran):

Minas Gerais – 4.176 óbitos
Paraná – 3.423 óbitos
Rio de Janeiro – 2.909 óbitos
Bahia – 2.593 óbitos
Rio Grande do Sul – 2.280 óbitos

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