Doentes de amor na Boate Azul

Cristiane Bomfim

07 Setembro 2011 | 12h24

A dupla Joaquim e Manuel foi a primeira a gravar o clássico ‘Boate Azul’, em 1985. De lá pra cá quase todos artistas sertanejos já cantaram esta canção. A história da música – e da dupla – foi contada pelo jornalista Júlio Maria, em matéria publicada no há uma semana no Caderno de Música do Estadão. Leia abaixo ou no link: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,doentes-de-amor-na-boate-azul,767869,0.htm

Por Júlio Maria

A jararacuçu não tem senso de humor. Machos cinzas vivem com suas fêmeas amareladas nas matas da América do Sul e buscam sua vítima com um golpe olímpico capaz de atingir até dois metros de distância. Quando grudam os dentes na infeliz, injetam grande quantidade de veneno com uma vontade de quem quer acabar logo com o serviço. O chato foi que, naquele 8 de dezembro de 1951, o alvo era a perna de Vitorio, um menino de 11 anos. A dor foi grande e o tratamento custoso – e ninguém imaginava que dali, um dia, sairia prazer. A jararacuçu que o picou, pensando bem, merecia uma estátua.

Foi com a perna em apuros que Vitorio saiu de sua cidade, Indiana, no interior de São Paulo, e chegou ao Hospital das Clínicas, na capital. Ali sentiu que sua vida seria trilhada na cidade grande. Curado, foi feirante, taxista, motorista de ônibus, casou-se e, com sua mulher, esteve no lugar certo, na hora certa: um restaurante qualquer no qual um jovem cantava um bolerão chamado Boate Azul, que só o cantor parecia conhecer. Vitorio gostou, pegou a letra da música e fez o bolero virar guarânia. Gravou um disco em 1985 com sua versão de Boate Azul e mudou de vida, mas tudo isso já depois de ter virado Joaquim.

Vitorio passou a ser Joaquim em 1976. Seguindo a dica do humorista Murilo de Amorim Correia, que também era produtor da CBS, inventou uma dupla com um estilo diferente, que eles chamavam de lusitano satírico, uma espécie de Roberto Leal em suas vozes e mais escrachado. Ainda sem nome definido, pensava em algo enquanto tomava um café na padaria. Ao olhar para frente, viu os portugueses Joaquim e Manuel servindo seus clientes. Era aquilo, sua dupla levaria o nome dos sócios da padaria. Ele seria Joaquim e seu par, quem quer que fosse, seria o Manuel.

O primeiro Manuel, Roberto Paschoa, morreu aos 37 anos, vítima de complicações de uma cirrose. Joaquim então virou a mesa. Jogou fora o lusitano satírico e investiu em sertanejo, uma música que dava o que falar naqueles meados de anos 80 em São Paulo. O segundo Manuel, Otávio Corrêa, que gravou Boate Azul, deixou a dupla em 1997. Edvaldo Santos, 47 anos, o Manuel terceiro, canta Boate Azul há 16 anos. E ninguém pensa em fechar a tal boate. Joaquim e Manuel, desde que regravaram a canção, em 1985, viraram a “dupla Boate Azul”. Uma antiga pesquisa da Sicam, Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais, conta Joaquim, concluiu que Boate Azul era a música mais tocada nas noites do País, sobretudo em churrascarias e karaokês. “Chegamos a repeti-la até três vezes durante um show”, conta Joaquim. E agora está tudo certo para o lançamento de um novo disco da dupla, que já passou dos 30 álbuns, com simplesmente três versões do dito estabelecimento: Boate Azul em forma de guarânia, outra em ritmo de samba e uma outra com jeitão de bolero.

Uma das canções mais regravadas por duplas sertanejas, assinada por Benedito Seviero e Tomaz, foi inspirada em uma boate real, “ali da zona sul”. “A boate não tinha este nome, virou Boate Azul na música”, diz Joaquim.

Já que tudo que deu certo a ele veio escrito em forma de garrancho, com Boate Azul não foi diferente. Assim que a fez virar guarânia, antes de lançá-la em disco, gravou a música em um estúdio e levou a fita para um aval de Benedito Seviero, o autor da canção. Benedito não gostou nada. “Você não vai fazer sucesso com isso nunca”, disse, e lhe deu as costas. Crente de que estava no caminho, fez então a gravação chegar ao radialista totem de todos os sertanejos, Zé Bettio, a maior audiência do gênero por décadas. E aí veio a segunda maldição. “Faço um programa família, não vou tocar música que fala de boate nunca.” O tempo fez seu trabalho, o público ligou pedindo, e Boate Azul virou hino. Joaquim e Manuel fazem de oito a dez shows por mês. Ninguém ficou rico, mas uma boa parte da história sertaneja, Joaquim acredita ter escrito.

BOATE AZUL

Benedito Seviero e Tomaz

Doente de amor, procurei
remédio na vida noturna
Com a flor da noite em uma boate aqui na zona sul
A dor do amor é com outro amor que a gente cura
Vim curar a dor desse mal de amor na boate azul
E quando a noite vai se agonizando no clarão da aurora
Os integrantes da vida noturna
se foram dormir
E a dama da noite que estava
comigo também foi embora
Fecharam se as portas,
sozinho de novo tive que sair

Sair de que jeito, se nem sei
o rumo para onde vou
Muito vagamente me lembro
que estou em uma boate
aqui na zona sul
Eu bebi demais e não consigo
me lembrar sequer
Qual é o nome daquela mulher
a flor da noite na Boate Azul