Daniel ousa e faz musical para comemorar 30 anos de carreira

Cristiane Bomfim

25 de abril de 2013 | 20h08

POR CRISTIANE BOMFIM
(cristiane@gmail.com)

Trinta anos atrás, Daniel ao lado de seu parceiro e amigo João Paulo buscavam o reconhecimento. A dupla que se formou em Brotas, no interior paulista, tentava a todo custo emplacar suas músicas nas rádios e encher casas de shows durante suas apresentações. Em 2013, já sem a companhia de seu melhor amigo (João Paulo morreu em um acidente de carro em 1997) e em carreira solo, o cantor assiste junto com o público sua história ser contada em um musical com 16 atores e bailarinos em duas apresentações em São Paulo para comemorar os 30 anos de trabalho profissional.

A trilha sonora, com 30 músicas, mescla os sucessos ao longo desse período e canções que fizeram parte a história do ídolo sertanejo. O show ocorre hoje, 25, no Credicard Hall, na zona sul da capital, e vai virar um DVD comemorativo intitulado “Daniel 30 Anos – O Musical”, com lançamento previsto para o segundo semestre. Ontem, o artista se apresentou no mesmo local apenas para convidados, entre eles o padre Antônio Maria, Roberta Miranda, Sérgio Reis, Alexandre (da dupla com Ataíde), Maurício Manieri, Tiago (que faz dupla com Hugo), Solange Frazão, Peninha, Luiz Ayrão, radialistas e jornalistas.

Dividido em dois atos, o show começa contando a infância do cantor e sua paixão pela música e a saída família de Brotas com destino a Jaú. Entra em cena o pequeno Daniel, interpretado por Matheus Braga (que também está em cartaz como o pequeno Simba, no musical “O Rei Leão”). No palco são apresentados trechos importantes da história do cantor que já vendeu mais de 13 milhões de discos: a formação da dupla João Paulo e Daniel em 1980, os primeiros shows sem público, as visitas nas rádios distribuindo discos de vinil e o reconhecimento nacional em 1992, quando os amigos conquistam o primeiro disco de platina com o disco “João Paulo e Daniel – Volume 4”).

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O fim da dupla em 1997 – com a morte prematura de João Paulo, interpretado por Rafael Machado – é retratado de forma sutil, porém emocionante. A canção “Tocando em frente” (escrita por Renato Teixeira e Almir Sater) mostra a solidão do artista e a decisão de continuar a carreira, mesmo sem o parceiro. Mais uma vez o sucesso e os questionamentos: “De repente, tudo o que eu conquistei passou a valer tão pouco”, disse no palco. O encerramento do show é feito com “Tantinho” atual música de trabalho do sertanejo. Escrita por Carlinhos Brown, ela é uma homenagem à Lara e Luiza, filhas de Daniel.

Além de inédita para o gênero sertanejo, a ideia de transformar um show popular em um musical foi ousada. Mas Daniel garante que não se preocupou com um possível resultado perigoso. “Eu tinha curiosidade de ver qual seria o resultado final. Tinha consciência que seria um projeto pelo qual as pessoas poderiam amar ou odiar. E eu acho que foi muito positiva a resposta de quando apresentamos em São Paulo esse show”, explicou Daniel. Em dezembro do ano passado, o cantor fez duas apresentações prévias do show que vai virar DVD. Foi uma espécie de laboratório. De lá para cá, o projeto original sofreu algumas mudanças. É difícil encontrar alguém que não tenha se emocionado nas duas horas de apresentação. E a proposta era exatamente essa, segundo o cantor.

Na última terça-feira, o cantor deu uma entrevista coletiva em São Paulo em companhia do diretor do espetáculo Marcelo Amiky. Em determinado ponto do bate-papo, o cantor assumiu que a possibilidade de encerrar a carreira, mesmo depois da consagração da carreira como solista, esteve presente. O nascimento das filhas Lara e Luiza o fizeram mudar de ideia.

PerguntaPor que fazer um musical pra comemorar os 30 anos de carreira?
Daniel – Tudo partiu de uma coisa que eu busquei. Eu sempre gostei de musicais desde que eu tive a oportunidade de me deparar com o primeiro musical que eu assisti. E isso foi em 1998, quando assisti “O Fantasma da Ópera” em Nova Iorque. Aí, poxa, eu fiquei fascinado e me perguntei se um dia eu conseguiria levar uma história dessas para o meu show. E é logico que requer um monte de coisas. Principalmente a questão técnica como ‘microfonação’ e escolha do ambiente. E aí pensamos em fazer um teste. Foi o que fizemos no fim do ano passado quando ensaiamos – bem rapidamente – e definimos que faríamos. Tivemos cerca de 15 dias para ensaiar o show. Fizemos duas apresentações no Credicard Hall e depois fomos para o Rio de Janeiro, com uma única apresentação. Foram as únicas vezes que nos apresentamos nesse formato e percebemos que a coisa funcionava. E, agora, demos uma aperfeiçoada nesse show e resolvemos registrar em comemoração aos 30 anos de carreira.

PerguntaQual é o roteiro do espetáculo?
Daniel – De uma forma cronológica, nos contamos através de musica essa historia dos 30 anos de carreira. E é tudo diferente porque você tem em cima do palco elementos que além dos bailarinos – que estão sempre presentes nos meus shows – são atores, cantores. Então, eu estou dividindo a minha historia com eles e vendo a minha historia passar na minha frente. Ou seja, é superinteressante. Batemos a cabeça com questões como cenografia, porque o musical normalmente coloca a banda no fosso e nós queríamos valorizar a banda, deixar ela aparente. Aí, tivemos a ideia de colocar ela (a banda) para cima do nosso patamar. Foi legal porque aproveitamos a cenografia e no palco fica só para a galera do balé e os atores. Foi tudo muito rápido e ainda a gente não tem no Brasil tanta gente preparada para esse tipo de coisa, né? Mas eu estou muito feliz com o resultado.

PerguntaVocê também encena?
Daniel – Sim, junto com eles. Na verdade, muito mais eles, mas eu também. Em alguns trechos eu faço parte da cena. Bom, mas eu estou sempre no palco. E o interessante é que neste show eu estou trazendo um pouquinho mais, tentando mostrar para as pessoas, num determinado momento, o que ocorre nos bastidores. Porque grande parte das vezes as pessoas te veem só no palco cantando, passando música e a mensagem, mas o que ocorre depois que as cortinas se fecham é difícil as pessoas visualizarem. É um show que tem pitadas de alegria, de felicidade, mas também tem muita emoção. Conseguimos costurar da forma certa.

PerguntaComo foi a escolha do repertório?
Daniel – Eu acabei incluindo algumas canções que eu tinha vontade de cantar nos shows e elas acabaram se encaixando de uma forma tão interessante que se pontuam com momentos que eu vivi ao longo dos 30 anos. A escolha foi muito difícil porque você acaba repetindo algumas canções porque são musicas que se eternizaram. Mas ter uma história para contar é muito bom. Você ter algo de útil para passar para as pessoas é muito legal e acho que é o sonho de todo artista.

Pergunta Como foi a escolha do elenco?
Amiky – Quando decidimos fazer o musical, apesar de continuar sendo um show, partimos também para um processo diferente. Porque as necessidades eram diferentes. Marcamos uma seleção mesmo, nos moldes dos musicais. Divulgamos entre os profissionais que atuam nesse mercado, fizemos dois dias de seleção e escolhemos grande parte da equipe que está aqui. E, do show de dezembro para cá fizemos algumas adaptação não só por conta do repertório, mas porque mudamos algumas coisas no roteiro. Alguns personagens são exatamente desse mercado de musicais, como o Tumura (Marcos Tumura, que interpreta José Camillo, o pai do Daniel) e o Matheus (Matheus Braga, que faz o papel do Daniel criança), o Rafael (Rafael Machado), que faz o João Paulo. E algumas pessoas que vinham mais do mercado de dança. Também tivemos uma preparação de canto para o show de dezembro, que foi estendida até agora. Então é uma mistura. No total, são 16 bailarinos no palco.

PerguntaVocê acha ousado transformar a música sertaneja em um musical? Teve a preocupação que poderia ficar brega?
Daniel – Eu não tive preocupação com isso não. Eu tinha curiosidade de ver qual seria o resultado de arranjos, principalmente, e eu acho que foi de uma felicidade tão grande do maestro Carlos Iafelice, um jovem de musicais. Eu tinha essa curiosidade. Acho que quando se trata de música, independentemente de estilo – e não é só música sertaneja, o show traz também uma música do Jessé (Solidão de Amigos, de autoria de Mário Maranhão e Eunice Barbosa), tem uma canção fabulosa do Elvis Presley (“Bridge Over Troubled Water”). É um mesclo. Eu sempre me preocupei em deixar meus shows mais universais e misturar ritmos diferentes como o samba, o arrasta pé, o country, que é muito presente na minha história. Então eu não vejo como ousado. Eu vejo o resultado como o todo. E ficou além do que eu imaginava. A minha preocupação deixou de existir nos primeiros arranjos que ouvi. Hoje você vê tanta coisa tecnológica, né? E eu acho que a gente tem que se aproveitar disso, mas a música, talvez, os artistas esquecem essa coisa da essência, de fazer ao vivo de mostrar a verdade musical. E aqui está todo mundo com esse propósito. Eu não me preocupei em se tornar uma coisa brega. Pelo contrário, acho que ficou uma coisa classuda. O legal é trazer um impacto para as pessoas e trazer algo de diferente, de inovador.

PerguntaVocê recebeu esse comentário de ser ousado?
Daniel – Acho que é interessante inovarmos de vez em quando. Música é isso. Ouvi varias vezes nessa questão. Tinha consciência que seria um projeto pelo qual as pessoas poderiam amar ou odiar. Acaba sendo prazeroso para gente também porque são desafios e nós temos que nos sujeitar a isso e não ficar sempre na mesma mesmice. É um projeto audacioso, tanto que é difícil montarmos em outros lugares, porque queremos levar esse show para algumas capitais do Brasil. Mas requer uma estrutura porque é muita gente e eu não saberia dizer ao certo quantos profissionais estão envolvidos. Com certeza mais de 300 pessoas, brincando. É muita gente. E para tudo isso estar em sincronismo e passar uma ideia do que são estes 30 anos de carreira, não é fácil. A questão de edição e como vai ficar o DVD para não se perder o que foi visto ao vivo é muito complexo. Mas vamos chegar lá.

PerguntaQuando você disse que o espetáculo abordaria os bastidores… Será abordada a vida pessoal?
Daniel – Não. É aquela coisa do dia a dia de cada um. Todo mundo tem seus altos e baixos, seus momentos de crise. O artista também tem. A coisa de repensar se eu estou fazendo exatamente aquilo que eu queria. Será que está valendo a pena. Depois que, infelizmente, o João Paulo partiu pintou muito isso na minha cabeça, sabe? De incerteza, de vontade de querer parar. Uma coisa que ficou insistindo na minha mente. E é uma coisa que a gente resolveu mostrar para as pessoas verem que nem tudo são flores.

PerguntaA paternidade interferiu na sua música e carreira?
Daniel – Olha. Pelo menos para mim ocorreu algo transformador. Quando a Lara chegou, até no sentido de indecisões. A chegada das minhas filhas me fortaleceu para que eu enxergue que tem gente com muito mais problemas que eu. E eu vivo em função das minhas filhas e estou muito mais inteiro em tudo que estou fazendo. Sempre amei o que faço, mas confesso que estava meio capenga um tempo atrás. E elas me ajudaram nesse sentido. Minha vida deu uma reviravolta. Eu me vejo uma pessoa transformada, além de conhecer esse outro sentimento de ser pai.

PerguntaVocê estava pensando em desistir da carreira?
Daniel – Ah, eu pensava, hein? Mas uma coisa muito consciente. Não que eu fosse ser frustrado, mas você se deparar com situações em que você está fazendo uma coisa sem estar bem… ‘Poxa, então por que fazer?’ Eu estava assinando uma coisa que eu não queria para mim que era desanimo e má vontade. Então, isso graças a Deus, deixou de existir e eu vejo minha vida de uma forma diferente. Eu tenho muita coisa para fazer e construir e uma das maiores razões para isso são as minhas filhas.

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