‘Cornos não gostam de música sertaneja’, diz Victor, da dupla Victor e Leo

Cristiane Bomfim

06 de agosto de 2012 | 23h24

POR CRISTIANE BOMFIM
cristiane.bomfim@estadao.com

“Geralmente os cornos não gostam muito de quem ouve música sertaneja. Eu já fiz uma pesquisa sobre isso”, brincou Victor, da dupla Victor e Leo. O encontro com o JT é para falar do DVD Ao Vivo em Floripa, que chega às lojas amanhã, um trabalho gravado em março, com seis músicas inéditas. E um discurso afiado. “Aquele cara que sabe que é corno, mas não admite e fica calado, não gosta de música sertaneja. E nem de quem ouve. Porque dói nele quando você fala de um amor roubado ou de um amor viciado.”
Se é essa a simples razão de tanto nariz torcido para o sertanejo, para a dupla – que completa 20 anos de carreira em 2012 e desde que estourou, em 2007, e vendeu mais de 3 milhões de discos – a música sertaneja vive um caos. “O sertanejo é a bola da vez. Tem cara que nunca soube o que é sertanejo, nunca pisou na terra, nunca ouviu um Tonico e Tinoco, não sabe uma música do Sérgio Reis ou do Milionário e José Rico e diz que é sertanejo porque o termo está em alta”, diz Leo.

O incômodo com a onda dos sertanejos pop, que bomba nas pistas em vez de embalar casais apaixonados na rede, pinica ainda mais o irmão Victor, que é o compositor da maioria das músicas gravadas pela dupla. “As pessoas esqueceram-se da essência, estão buscando oportunidades comerciais vantajosas em cima da falta de cultura, da falta de discernimento do público”, continua.

Para o registro do show ao vivo, então, Victor e Leo, de 37 e 35 anos respectivamente, tentaram mostrar que podem, sim, ser moderninhos, sem abrir mão do sertanejo romântico ou adulto. A gravação teve como cenário uma praia, e não mais o batido interiorzão. Saem os cavalos, a fazenda, entram as paisagens de Florianópolis. “Os shows no Sul sempre foram muito bons. Um dia, depois do quarto ou quinto show em Florianópolis, sobrevoamos a cidade e decidimos que este seria o cenário do novo DVD com um público na frente do palco que nos encanta profundamente. Decidimos isso há mais de um ano e ai pintou a oportunidade de fazer na orla marítima”, explicou Victor.

Sertanejo eclético, na praia

No DVD, que segue o ritmo de uma apresentação convencional, os cantores aparecem suados. Não trocam de roupa. Até erram passagens e entradas. Antes que qualquer fã se assuste, não foi por falta de esmero na pós-produção. A proposta é primar pelo naturalismo e oferecer um retrato o mais fiel possível, sem efeitos exagerados. “Há momentos em que nós estamos atrapalhados, suados mesmo”, admite Leo. “A melhor coisa que você pode oferecer para o seu público é o seu suor. A maioria dos DVDs é fake. É tudo gravado em estúdio, com carinha de ao vivo. Mas cada show tem uma pegada própria. Podem ser dias seguidos, um vai ser diferente do outro. Nunca entrei no palco da mesma maneira”, disse Victor.

A participação dos irmãos foi ativa em todas as etapas; assinam as direções artística e musical, produção e arranjos. Eles também são os responsáveis pela edição final. O repertório, basicamente formado por músicas escritas por Victor – as exceções são as regravações – não se prende ao gênero.

Entre os convidados, ecléticos, há, claro os nomões do sertanejo como Chitãozinho e Xororó (Beijo de Luz), Zezé Di Camargo e Luciano (Quando Você Some), e até Marciano (Se eu não puder te esquecer). Mas também há romantismo, com Paula Fernandes (Meu eu em você), e samba, com o pagodeiro Thiaguinho (Maluco).

Uma levada de reggae (Altas Horas) tem participação de Nando Reis, Haroldo Ferretti e o gaitista Gabriel Grossi. Pepeu Gomes interpreta ao lado da dupla a música Sexy Iemanjá, que foi tema da novela global Mulheres de Areia, de 1993. A música faz parte do repertório da dupla há anos, mas só gravaram no ano passado, daí o convite.

“É o retrato da nossa carreira, da nossa essência. Somos uma mistura de estilos musicais, praças e referências diversas. Temos influências de todos os estilos. Escutamos rock, sertanejo raiz, MPB, blues, R&B e fomos juntando tudo isso com a vontade de fazer algo original”, contou Leo.

Há ainda a cantora novata Nice, autora de uma faixa, Sem Negar – única música inédita que não foi composta por Victor. “Nós a conhecemos no camarim de um show em uma cidade pequena e ficamos emocionados com a história e o talento dela”, contou Leo.

A expectativa dos fãs já é medida antes mesmo do lançamento: 20 mil cópias já foram pré-vendidas. Outra dupla, Jorge e Mateus, gravou seu ao vivo na praia de Jurerê Internacional, também em Florianópolis. Seria um modismo? Vitor e Leo se armam na resposta. “Não somos nem um pouco ligados na moda. Aliás, ficamos ligados na moda para fugir dela”, rechaça Victor.

(matéria publicada no domingo, 4, caderno de Variedades do JT)