Voyeuse

Voyeuse

Marcelo Rubens Paiva

22 de maio de 2009 | 12h45

A primeira vez em que fui ao LOVE STORY, “A Casa de Todas as Casas”, boate que abre às 3h e é ponto de encontro de garotas de programa [que vão se divertir depois do trampo], foi no seu aniversário de dez anos, para fazer uma matéria para a ILUSTRADA.

O caderno de cultura da FOLHA era editado por SÉRGIO DÁVILA, jornalista com faro, que não tinha o jeitão de editor da ILUSTRADA, apesar de oriundo da VEJA SP, e por isso mesmo foi um dos melhores que o caderno já teve e deixa saudades; ele virou correspondente. Foi o momento em que me dediquei à carreira de repórter cultural, deixei os releases de lado, as resenhas feitas em casa e fui fazer matérias in loco.

Eu e SÉRGIO viramos amigos grudados. Cada pauta mais ousada do que a outra era sugerida em bares. Ríamos, todas as vezes que bolávamos uma. E o caderno ganhou uma agenda que não tinha antes- verificar quantas vezes a palavra “traseiro” era citada no disco do É o Tchan; cobrir a feira erótica; especular se havia sugestões de incesto nos shows de Sandy & Junior, que cantavam músicas apaixonadas se olhando.

Passei o dia e a madruga no LOVE STORY. A matéria saiu com destaque. Tio João, um dos donos da casa, orgulhoso, já que era a primeira vez que era citado pela grande imprensa, enquadrou e colocou na porta. A partir desse dia, tive passe livre. Todas as vezes que eu ia à boate, furava a fila, ganhava a melhor mesa, bebida de graça e um segurança particular, que se postava nas minhas costas.

Meus amigos souberam do privilégio e passaram a me convocar para conhecê-la. Voltei lá algumas vezes. Inclusive com namoradas, correspondentes estrangeiros, gente do meio acadêmico, que pesquisava o submundo. Certa vez, uma socióloga americana, Laura Muray, dançou no cano. Para piorar, o DJ parava a música e dizia, em bom tom: “Queríamos anunciar a presença do grande escritor Marcelo Rubens Paiva!!!” Meu parco prestígio escorria pelo ralo.

A partir de então, comecei a frequentar outras boates da região. Usava a desculpa: pesquisar para o meu livro mais recente, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, que trata desse universo.

Passei a levar amigos ao KILT e VAGÃO, em que há shows de striptease e sexo explícito. Também me dão a melhor mesa. A dona do VAGÃO chegou a me dizer uma vez que eu era “da família Vagão”, sabe-se lá o que isso significa. A boate existe desde os anos 60 e tem o som baixo por uma simples razão: ela detesta música alta.

Encontrei outros inferninhos mais undergrounds. Conheci a rotina desses lugares. Fiquei amigo de garotas, cafetinas, seguranças e porteiros. Tais espetáculos não excitam ninguém. Muitas garotas fazem strip para elas mesmas, viradas para o espelho. Quando não estão falando no celular, combinando programas.

Fiquei marcado na região. Se estou com algum amigo novo, evito. Pois quando ando por ali, escuto dos porteiros, “boa noite Marcelo”, “não vai entrar hoje?” Minha irmã NALU, que mora na França, até comentou, quando a levei ao KILT: “Não sabia que meu irmãozinho virou um cafetão”.

Bem, publiquei o livro no final do ano passado. Mas não perdi o fascínio por esse mundinho tão paulistano e revelador. Será que tem cura?

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