vou te apresentar uma amiga incrível

vou te apresentar uma amiga incrível

Marcelo Rubens Paiva

12 Fevereiro 2013 | 13h43

O homem desiludido, abandonado e traído, que vaga solitário pelos calçada deserta, prefere a sombra da pequena aglomeração, cruza a pista de dança só para ir ao banheiro, que só vai a bares com balcão, para assistir aos efeitos do aquecimento global nos gelos do próprio copo, sente falta do amigo cigarro, proibido em ambientes fechados, para se esconder atrás da fumaça banida como uma usina nuclear soviética, que no supermercado seleciona as menores porções, a meia garrafa, uma meia dúzia, que nem liga o som quando chega em casa, quiçá abre um vinho para jantar sozinho, percebeu que ele é uma commodity valiosa, o cara disponível, o amigo separado, mas faz pouco para se promover nas operações da bolsa de mercadoria futura.

O que este sujeito mais escutou no tempo em que durou seu celibato forçado, vítima do estado de desânimo relacionado a uma redução na transmissão de impulsos e sinais nervosos em regiões do cérebros que regulam o humor, depois de que aquela ingrata cujo nome recusa a falar o largou, foi:

Vou te apresentar uma amiga incrível!

Se a frase foi proferida por outro cara, ele certamente é casado, pois jamais apresentaria uma amiga bacana, gostosa, muito menos incrível ao separado cobiçado. Ficaria para si, como a riqueza de um subsolo. Ela seria estatizada num monopólio sem concessões. E se for apresentada, é porque ela talvez tenha um defeito incrível e está sendo passada adiante.

Se a frase foi proferida por uma amiga, terapeuta, médica, gerente de fundo de investimentos, advogada da separação, colega de pilates, mãe de santo ou a ex de quem você consegue pronunciar o nome, pode acreditar que a amiga não é tão incrível.

Se disse “vou apresentar uma amiga linda”, ela é linda para a amiga, invejada em academias, mas que não dialoga com a libido hibernada entre glândulas espalhadas pela alma e corpo masculinos. Dificilmente o que é bonito para uma mulher o é para um homem. O que é atraente, irresistível e digno de ser apresentado a um amigo disponível carrega as qualidades de que a amiga gostaria para si.

“Vou te apresentar uma amiga que é uma gata!”

Raramente é uma gata. E, se for, será descoberta no primeiro encontro a intolerância dela a frutose, glicose, sacarose e glúten. Não come carne ou alimentos que têm olhos ou vêm crus. Não bebe, não fuma, não dirige, sem contar que mora num bairro do qual você nunca ouviu falar, acha Tarantino excessivamente violento e é da torcida organizada do time rival. Gata. Olhos lindos. Em forma, já que não come nada e pula sem parar em arquibancadas de estádios da primeira e segunda divisão. Porém…

O que as mulheres não sabem é que o gosto masculino não segue um padrão randômico, nem pode ser comparado ao diálogo num balcão do açougue. Tem lógica, sutilezas e romantismo. Duvida?

A prima – A primeira paixão, apesar do tabu. Nunca se determinou se na prima está oculto o desejo reprimido do incesto. Da boneca da irmã arrancamos a cabeça. A da prima, consertamos. O diário da irmã, queimamos. O da prima, fuçamos. Dos namorados da irmã, ficamos até amigos. Dos da prima, invejamos, depomos contra, acusamos. Os cabelos da irmã são um tormento, entopem ralos e pias. Os da prima, são lindos e sedosos. A irmã rouba nossa roupa. A prima pega emprestada. Mas é uma fantasia confusa, como uma primeira paixão deve ser.

A Bandeirante – O primeiro amor, se do ramo guia ou dirigente. Sempre alerta! Diz o juramento: “Ser Bandeirante é merecer confiança, ser leal e respeitar a verdade, servir ao próximo em todas as ocasiões, valorizar a estima e a amizade, ser amável e cortês, preservar a natureza, saber obedecer, enfrentar alegremente todas as dificuldades, usar os recursos com sabedoria, agir, pensar e ser coerente com os valores éticos.” Quer mais? O uniforme? Tênis surrado, meias brancas até um dedo abaixo dos joelhos, saia de brim azul, abotoada na frente, com gola em vê e lenço. Carregam no peito estrelas, broches com mapas, símbolos misteriosos. Na manga esquerda, tags costurados (patch scout) indicam as especialidades: fogueira (acende o fogo com elementos da natureza), primeiros socorros (quais seriam estes?). São alegres, só fazem o bem, convivem com a natureza, praticam a vida ao ar livre e o trabalho em equipe. Lema: incentivar o conhecimento de novas culturas, estabelecer um senso crítico e proporcionar um desenvolvimento criativo. Se um asteroide se chocar contra a terra, é ao lado de uma que você gostaria de estar.

Tenista do Leste Europeu – Pode ser russa, bielorrussa, ucraniana. Segura uma raquete como se empunhasse uma AK-47. Com sua saia provocante, não esconde as pernas longas, torneadas, bronzeadas. Joga com raça e determinação, como se defendesse o cerco de Leningrado. Camarada alta, forte, grita em cada jogada, nos obrigando, amantes platônicos, a instalar janelas antirruído antes de convidá-la para uma vodca com frango a Kiev. Alguma amiga apresenta uma atleta eslava?

Vizinha do Bloco B – Quem será? Passa correndo e nem repara em você. Nunca se encontrarão no elevador, pois você mora no Bloco A. Não aparece na piscina nem nas reuniões do condomínio, como se fosse heresia se socializar com a vizinhança. Nunca está na fila da entrega da pizza de domingo. Nem o porteiro sabe seu nome. Sempre tem pressa. Estaciona, aciona o alarme, carrega pacotes sem pedir ajuda. Mora sozinha, e semanalmente a buscam ou a deixam na porta do prédio; sempre é um cara diferente. Não adianta procurar de luneta pelas janelas do Bloco B. Você verá o seu síndico nu dançar um tango com o rodo. Jamais a vizinha misteriosa.

Gordelícia – Calma lá, patrulha! Reflita antes de iniciar o julgamento. Não se fere códigos de conduta nem há resquícios de preconceito neste termo. Ao contrário. Para as colegas, a gordelícia está gorda! Deve ser combatida e evitada. No entanto o mundo masculino a venera. Não considera gorda, mas fora de forma, uma delícia. Uma resistência à ditadura da bulimia que enxuga as mulheres. É a garota Canal Brasil, que mexe com os arquétipos do desejo renascentista impregnado no inconsciente coletivo. É aquela que tem onde nos segurarmos e o que pesquisar com nossos seis sentidos, que geralmente, por ser discriminada, além de deliciosa, é divertida.

 

+++

 

São elas gordelícias ou delícias que desprezam o padrão imposto e por vezes ficam mais saudáveis, fortinhas [como dizem minhas tias italianas], graças a deus…?