Viver ou continuar morto?

Viver ou continuar morto?

Marcelo Rubens Paiva

04 Julho 2016 | 12h35

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Quando uma história real sensacional cai no colo de um escritor, não se pensa duas vezes.

Quando uma história real sensacional tem como protagonista o próprio escritor, não se pensa, age.

O que aconteceu com o escritor J P Cuenca [na real vida] levantou mil questionamentos.

Mas só havia um caminho, escrever sobre. Só pela trama, já seria o livro da vida dele.

Ou o livro do ano.

E é ambos.

Num certo dia, ele descobriu que fora expedido seu atestado de óbito.

Para a teia infernal da burocracia, ele estava morto, e, pior, seu cadáver, reconhecido.

Provar que estava vivo não era tão simples assim. Desejar-se vivo…

Como num dilema de Antonioni, ele foi atrás da história, descobriu quem era ele morto, descobriu que o local da morte não existia mais: foi tomado pela escavadeira que transforma o Rio no momento pré-olímpico.

Desistir ou insistir.

Alguns amigos desaconselharam a se aprofundar na história.

Mas Cuenca percebeu em sua morte algo recorrente, a morte de um escritor após cada obra, a morte de uma relação, a morte de uma cidade, que é morta e se reconstrói, a inutilidade da vida, sua fugacidade.

Que diferença faria ele estar vivo ou morto para o circuito que frequenta?

E se a mulher larga dele, porque ele não quer ter filho, perdeu sua função social?

Sua genética se encerrará nele? Seus livros bastarão?

Se Pornopopéia [Reinaldo Moraes] é a tragicomédia da pretensiosa vida cultural paulistana, em DESCOBRI QUE ESTAVA MORTO, livro que acaba de lançar, vê-se um Rio [Brasil] tentando resistir à sua mais uma vez eminente decadência [cultural].

Depois da decolagem abortada pela The Economist.

Três momentos o compõe.

A descoberta da morte.

Aceitar ou ir atrás.

Investigar [vai morar onde um corpo foi reconhecido como o seu, um prédio novo da nova Lapa].

Se aproveitando do dito de outro defunto-narrador, “franqueza é a primeira virtude de um defunto” [Brás Cubas], ele traça um perfil impiedoso do indiferente carioca, que durante o tiroteio numa comunidade vizinha aumenta o som, evita as janelas e não para a festa.

Numa alienação gestbyniana, de tudo acontece na festinha inconsequente de Santa Tereza.

Inclusive a degustação de um peixe cru preparado com os temperos e calor de uma… vagina, o shoshomi [“sashimi marinado dentro da xoxota de uma mulher”]

Aqui vai um trechão.

Livro imperdível:

este trecho extraí de uma prova em pdf

 

Naquele Rio de Herdeiro, bolsa de capital social onde

todos eram afilhados, filhos ou protegidos de alguém, meu

brilhareco de escritor publicado era visto com curiosidade e

certa condescendência. Eles sabiam que eu não tinha vínculos

cartoriais ou de nobreza. E tampouco algum tostão.

Falava-se muito. Nosso aparente autofascínio escondia

um espírito de competição, uma hostilidade latente. Em

todas as conversas havia o desejo de mostrar-se mais feliz,

mais saudável, mais adaptado, mais jovem, mais bonito,

mais sofisticado e mais caro. Melhor. E sempre naquele

agora um pouco adiantado ao tempo, no limiar entre o que

já era e o que será, no instante anterior à adoção em massa.

Na moda.

Assim, quando não falavam da alta dos preços dos

aluguéis, essas rodas podiam passar horas a fio listando cafés

biológicos (3 pontos), restaurantes orgânicos (5 pontos),

praias privativas no Mediterrâneo (6 pontos) e casas de

jazz (8 pontos) ou clubes clandestinos de música eletrônica

(10 pontos) que só eles conheciam em terras estrangeiras.

Os homens descreveriam receitas exclusivas de risoto

com trufas (6 pontos), o intenso e amplo buquê do vinho

californiano do mês (8 pontos), a qualidade da maconha

hidropônica importada por cem euros o grama (10 pontos),

as propriedades de um novo equipamento quadrafônico e

valvulado de som recém-chegado da Inglaterra (15 pontos).

As mulheres falariam de suas aulas de Hatha (3 pontos),

Ashtanga (6 pontos), Bikram (10 pontos) e outras variações

de ioga, de como as roupas estavam baratas na Top Shop em

Nova York (5 pontos), como furaram a fila para a bolsa-desejo

da última estação na Céline em Paris (20 pontos), da dieta

bem-sucedida do verão (10 pontos), da sua obsessão pelo

redesenho de partes específicas do corpo (15 pontos), dos

orgasmos conquistados nas últimas semanas (20 pontos) e,

claro, dos fi lhos que tinham (500 pontos) ou pretendiam ter

(-500 pontos).

Os filhos eram parte indispensável dessa busca pela

perfeição e pela vida fabulosa que queriam conquistar.

Muitos desses casais, por volta dos trinta e poucos anos de

idade, começavam a se multiplicar como coelhos em ondas

simultâneas. Logo trocariam suas fotos de perfil nas redes

sociais por imagens dos bebês que, nos anos seguintes, se

transformariam no centro gravitacional das suas vidas, dos

seus desejos e das suas personalidades. Até que, em algum

ponto da adolescência dos filhos, vissem sua fantasia de

controle ruir.

Mas, bem antes de sentir-se órfã do filho que teve, a

mulher que conquistasse esse requisito seria calorosamente

invejada, em silêncio pouco discreto, pelas outras sem-filho.

Para elas, L’enfant-roi não apenas sacramentava a utilidade

final dos seus úteros, trompas e tudo o que os acompanhava,

mas também a aparente tomada definitiva do marido, o sonho

do homem-próprio recém-conquistado – mesmo que depois

tivessem que fazer terapia de casal e desejassem o marido ou

a mulher do próximo.

Para fugir desse roteiro, eu adiava planos com a minha

mulher e, naquela mesma semana, quando falávamos de

mais um casal que anunciava sua prole, informei, distraído,

enquanto passava um café e ela fritava um omelete:

– Se você engravidasse, eu te pediria para fazer um aborto.

Ela engoliu o choro.

Na festa, eu bebia encostado numa parede e via os casais

se distraindo dos seus acordos de fidelidade.

Estava sozinho naquela noite, o que me permitia

observar de fora o desvio das conversas, já envoltas numa

sombra turva e nebulosa de bebedeira, para o tema da

orgia, da suruba, do casal liberal, de quem faria um ménage

à trois com a amiga atriz – sempre havia um inesgotável

estoque de atrizes belas e disponíveis nos sofás do Rio de

Janeiro – ou mesmo uma troca com o casal sentado ao lado.

E, então, os homens iera comum que permitíssemos que

Suas nossas mulheres se beijassem e nos issemseduzíamos

com calculada liberdade, para depois emvoltarmos para

casa ae roncarem ao lado das própriascompanhias de

sempre. Aquele mundanismo não costumava ultrapassar

palavras e olhares, com a exceção de esporádicas visitas a

boates de burlesco e swing que eles frequentávamosa com

a expressão antropológica de velhas francesas em excursão

à África Colonial.

Aqueles jovens casais de sucesso dissolveriam-se pouco

a pouco na modorra de suas produtivas e bem-adaptadas

rotinas, até seus divórcios serem negociados em termos

saudáveis, como tudo deveria ser. Eles prolongariam seus

matrimônios ao limite das suas possibilidades pelo simples

medo de que seus parceiros pudessem ser felizes com outra

pessoa, alguém que fosse a antítese das suas limitações.

Ou pelo menos era o que eu fazia na época. Era

insuportável a ideia ade que minha mulher pudesse ser feliz

com outro homem. Eu não conseguia transformar o maior

amor da minha vida em algo deste mundo ou mesmo num

interesse concreto. Ainda não a havia largado apenas porque

a considerava minha propriedade.

Tudo acaba. A merda é que depois continua, eu pensava,

até que os dois terminassem como dois soldados exaustos,

perdidos, lutando do lado do inimigo.

 

2

Empunhando um telefone dourado, um jovem adulto

mostrava as fotografias de seus dois últimos lares em

diferentes continentes:

– Exatamente o mesmo apartamento.

Aquela era uma bolha com pretensões cosmopolitas. As

conversas, modas e bebidas, em festas como a do Tomás

e nos bares e clubes correspondentes a elas, tentavam

ultrapassar a geografia. Quando cheguei, um grupo de

executivos comentava suas temporadas em megalópoles

financeiras. Mudavam de casa entre Londres, Hong Kong ou

Nova York sem hesitar, como o fluxo flutuante de capital que

administravam. A cada novo endereço, usavam um serviço

que lhes arranjava desde a decoração da casa até a escola

inglesa das crianças e uma lista aprovada de restaurantes de

cozinha internacional e lojas de design.

– Ela achou um imóvel com o formato igual ao anterior. E

mandou refazer o piso, sem que pedíssemos, para que match

o que tínhamos no Upper East e os tapetes.

A sala em tons de cinza, o sofá Chesterfi eld de trinta mil

dólares, a poltrona Charles Eames original, a luminária em

formato de refletor de cinema, o tapete irônico de zebra.

Dentro do circuito que ansiávamos frequentar, o mundo

era algo semelhante a isso: um bar de hotel, uma casa da

Wallpaper, um ensaio de moda da Monocle com a trilha

sonora de uma playlist da Pitchfork. A estética domesticada,

que transformava endereços Time Out em McDonald’s do cool

e expedições à Somália em turismo exótico por publicações

como a Vice, era consumida com avidez por esses agentes do

capitalismo e pela parte menos hábil para o trabalho dessa

jovem boemia – a maioria de nós naquele apartamento, então

trabalhando como freelancer em comunicação, publicidade,

jornalismo, tv ou nas margens do mercado editorial e do

mundo acadêmico.

Esse segundo grupo, como dispunha de tempo e não

obedecia horários de escritório ou de bolsas asiáticas,

relia romances de Bolaño com lupas, acalentava vagas

inquietações metafísicas, estocava discos de vinil em casa e

frequentava festivais de música pelo mundo – uma vez por

ano, quando a cotação do dólar permitia. Era uma forma de

se sentir menos miserável ao lado de quem desfrutava do

dinheiro e do poder ao qual nunca teriam acesso. Ao menos

lhes restava comprar identidade por meio com um gosto

supostamente original e independente.

Enquanto alguns se concentravam no que comprar, a

preocupação dos estrangeiros que frequentavam as festas

do Rio pré-olímpico era precisamente a oposta. Em tempos

de crise europeia, impressionava o número de jovens

portugueses e espanhóis dispersos por esses salões, falando

em voz baixa e cuidadosa com os brasileiros prósperos e

estabelecidos.

– Estou cá a prospectar.

– Sí, un taller de arquitectura.

– Lá en el alto del Vidigal. Bien lá no topo.

Eram como os ingleses bem-vestidos e com cara de fome

no jardim de Jay Gatsby. Sem dúvida, tentavam vender alguma

coisa – ou a si mesmos. Pareciam fantasiar com a quantidade

de dinheiro que rolava solta naquela vizinhança e estavam

convencidos de que tudo seria deles mediante poucas palavras

no tom certo. Bando de otários. Mas não era difícil culpá-los.

Em 2011 o céu andava azul-turquesa como uma nota de cem

reais, e uma oferta aparentemente ilimitada de riqueza e gente

chegava ao Rio de Janeiro sob a nuvem inebriante de poeira

levantada pelas novas construções.

Não apenas o Tomás e seus amigos financistas

comemoravam, mas também os grandes empreiteiros, os

conglomerados de comunicação, os concessionários públicos

de transporte e serviços, os célebres ilusionistas midiáticos

exploradores de commodities alavancados no capitalismo de

Estado, os condes da burocracia estatal e, por fim, a classe

política, agente e sócia do dinheiro que a empossava. Andares

abaixo, todos nós esperávamos por alguma migalha grudando

no dorso desses tubarões como rêmoras famintas – unidos

por um enorme e aparentemente incondicional talento para a

esperança. Entre a primeira e a segunda década do século xxi,

o mesmo processo econômico que fez os preços dos imóveis

se multiplicarem por três ou quatro transformou o real na

moeda mais sobrevalorizada do mundo. E, na cozinha do

apartamento, um homem de calça cáqui agora dava conselhos

a Tomás Anselmo girando o dedo num copo de uísque com

soda e muito gelo:

– Olha, meu caro, se eu fosse você, jogava todo o investimento

no di e a rentabilidade naquele fundinho de ações. Eu tenho

conversado com o pessoal do Factual e eles têm sido obscuros

sobre o mercado, então é papo de proteger o seu principal e só

tirar a rentabilidade de um fundo de renda fixa.

Menos informados, nativos de todas as idades arregaçavam

as gengivas para repetir orgulhosos as manchetes do New

York Times e do Guardian sobre o aumento do custo de vida

no país – sem desconfiar ou esquecendo propositadamente

que a abundância de dinheiro era a mesma que financiava

empréstimos de risco e os negócios de megapicaretas

célebres e que drenava a competitividade da indústria.

Quando a Economist publicou, em novembro de 2009, pouco

depois que o Arcanjo Gabriel anunciou a Profecia Olímpica,

que o Brasil em algum momento da década “posterior a

2014” seria a quinta economia do mundo, superando o

Reino Unido e a França, que o único risco do Brasil, dali em

diante, seria o orgulho excessivo, que o Brasil, ao contrário da

Índia, não tinha conflitos étnicos e insurgentes, que o Brasil,

ao contrário da China, era uma democracia, e, ainda, que

o Brasil, ao contrário da Rússia, exporta mais que petróleo

e armas, acreditou-se que o futuro do país do futuro do

pretérito havia chegado.

Anos depois, o mesmo Tomás Anselmo diria na sua pose

de burguês tomador de uísque e intelectual especulativo:

– A edição da Economist com o Cristo Redentor decolando

na capa foi o início da nossa derrocada. Eles penduraram

essa revista nas paredes dos escritórios da cidade inteira,

como um quadro num altar. A maioria nunca leu o especial

de vinte páginas sobre o futuro mágico do Brasil, mas

tinha aquilo enquadrado. Que semanas e que meses: havia

manhãs naquele tempo! Aceitaram aquela matéria como

uma teofania, como se tivesse sido escrita não por um grupo

de jornalistas gringos com tentáculos ligados aos fundos de

investimento do próprio Belzebu, mas por um apóstolo em

êxtase transcrevendo a voz de trombeta de Deus lhe narrando

o paraíso e mandando que enviasse o texto às Sete Igrejas

da Ásia. Acreditamos naquele momento que estávamos

condenados à prosperidade… e, infelizmente, esse não foi o

nosso último ato ingênuo. Antes a puta da Economist tivesse

reproduzido em suas páginas sobre o Brasil o apocalipse de

São João, já que agora as coisas antigas desapareceram e tanta

gente enxuga dos olhos toda lágrima, disso não há dúvida.