o punk ñ morre

o punk ñ morre

Marcelo Rubens Paiva

27 de março de 2012 | 13h37

Ontem os carros pararam para eu atravessar uma faixa de pedestres na Rua João Moura.

Numa quadra tranquila, que tem até lombada.

Tão civilizado, que os sabiás pararam de piar.

Diante de uma escola e uma casa modernista, que o kassabismo quer colocar  abaixo.

Haverá sábado, 15h, na Praça Benedito Calixto, manifestação contra a verticalização de Pinheiros.

Fenômeno que está acabando com São Paulo.

Atravesso a faixa até a metade, agradeço com a cabeça os educados motoristas, sentindo que cidadania é aquela semente que, se regada…

Vou atravessar a outra metade, quando 1 carro quase me atropela.

Não parou, nem olhou, não respeitou.

Xinguei como um solista de ópera.

Ele me mostrou o dedo e continuou.

O playba ainda tinha um adesivo de uma banda playba no vidro traseiro.

Não sei o que me deu.

Calibrei a velocidade e fui atrás, com minha cadeira motorizada Quickie P200, bateria selada, LEVE, centro de gravidade baixo e pneus de 16″ novos.

Quando a comprei, em 1995, pedi na loja: Quero a mais rápida.

Não sei se ainda é.  Mas chega fácil a 14 km/h.

Uma bicicleta em marcha normal.

Como a ladeira me favorecia, chegaria a mais.

Ah, o desgraçadinho parou no farol.

Acelerei.

Imaginei o playba olhando pelo retrovisor e concluindo: Melhor não encarar, este aí é possuído.

Ou, como costumam falar de cadeirantes irados: Este aí não se conformou

Ao me aproximar, eu já tinha o plano traçado.

Se ele saísse do carro para me encarar, eu voaria com a cadeira até seus 2 joelhos.

E voltaria de ré para atropelá-lo e ficar em cima do seu braço.

Já fiz isso com um frentista francês que tentou me roubar.

Fiquei na dúvida se gritava: “Aqui é curintia!”

Nós, curintia, estamos ligeiramente exacerbados, descontrolados, nos achando os donos do mundo.

Até meus porteiros curintia estão diferente.

Esta arrogância não faz bem…

Mas o cara de tão assustado engatou, foi pela contra-mão e furou o farol vermelho.

Posso confessar que eu, apesar de não aparentar, me sentia mais um jogador de xadrez do que um beque de fazenda num jogo de mata-mata.

Planejei cada passo do ataque.

Um deles era: jogaria o braço móvel da cadeira no vidro traseiro se ele fugisse.

Bem no adesivo da banda de playba.

Mas havia crianças na calçada.

Não adianta.

Sou curintia e da geração que não deixava barato.

Que devolvia bomba de gás para a Tropa de Choque, enquanto a liderança do movimento estudantil gritava: Não reajam!

E estive neste show aí, há 30 anos.

No SESC POMPEIA.

De roupa preta!

Na primeira fila.

Por isso me chamam de metido.

Cadeirante tem que ficar em casa deprimidinho.

Vai nessa…

No mesmo ano, mesmo local, lancei FELIZ ANO VELHO

E depois BLECAUTE, que “retrata” o fim do mundo.

DEMOCRACIA CORINTIANA era desta época também.

Como os primeiros discos do TITÃS, IRA, LEGIÃO…

E a derrota do dream team, a SELEÇÃO DE TELÊ.

Vai ter muita coisa fazendo 30 anos.

Os planetas estavam alinhados.

 

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