Violência urbana não nasceu na democracia

Violência urbana não nasceu na democracia

Marcelo Rubens Paiva

31 de março de 2019 | 13h27

Um dos argumentos dos que defendem a ditadura é que, naquela época, não tinha violência urbana.

Primeiro, na democracia anterior, de 1945 a 1964, tinha menos ainda.

No Estado Novo, muito menos.

Na República que implementou a democracia, de 1989 a 1930, quase nada.

Não foi exatamente por conta da ditadura que a violência urbana saiu do controle?

Deu certo a divisão de polícias, entre Civil e Militar?

A fragilidade institucional do regime que cassava professores, adversários, advogados e juízes não alimentou a epidemia da violência?

CV (Comando Vermelho) não nasceu durante a ditadura, num presídio que misturou contraventores, estupradores, presos políticos e ladrões de banco  (Penitenciária Cândido Mendes, Ilha Grande)?

Foi então que a guerra do tráfico, com novos comandos, como ADA (Amigo dos Amigos), hoje aliada ao PCC, Terceiro Comando, dominou a paisagem urbana.

O Esquadrão da Morte, grupo policial de extermínio, foi incentivado pelo regime, que o oficializou formando os 12 Homens de Ouro, com licença para matar.

A Escuderia Le Cocq nasceu na ditadura.

O Capitão Guimarães, um dos maiores bicheiros do Rio de Janeiro, era do DOI/Codi; foi carcereiro de Paulo Francis.

Assim como Anísio Abraão, de Nilópolis, que levou torturadores do DOI/Codi para serem seus seguranças.

Castor de Andrade auxiliou presidente e general Figueiredo na eleição para impedir a vitória de Brizola.

Consulte o livro Os Porões da Contravenção, para ver a promiscuidade entre agentes da repressão e o jogo do bicho.

Não foi levando agentes da Polícia Civil, como delegado Fleury, para dentro da repressão política, dando carta-branca, que a ditadura passou a combater as organizações de esquerda?

Polícia que percebeu que era mais jogo bandidos trabalharem para ela (plot do filme Lúcio Fávio – Passageiro da Agonia, de Babenco).

Polícia que passou a negociar armas com traficantes, formou milícias, faz lobby (Bancada da Bala) para que jogos de azar nunca sejam permitidos no Brasil, e que a posse de maconha e a proibição da venda continuem crime.

Repressão que saiu do controle, prendeu quem quis, inclusive bispos da Igreja Católica, e boicotou a redemocratização em 1981-1982, como no Atentado do Rio Centro.

Violência urbana, com a tortura, é legado da ditadura.

Foi nela que saiu do controle.