Vida após a morte

Vida após a morte

Marcelo Rubens Paiva

12 de maio de 2009 | 12h52

Minha amiga Paula Cohen perdeu também o pai quando era criança. Me contou que costuma ir a Buenos Aires, onde mora o melhor amigo dele, só para ouvir histórias que não conhecia do pai. Chega a ficar hospedada com o amigo, para escutá-lo. E sempre se surpreende.

Eu perdi meu pai quando tinha 11 anos. De lá para cá, conheci muitas coisas dele. Inclusive detalhes da sua luta contra a ditadura, informações de que éramos privados “por questões de segurança”, como se dizia na época.

Vira e mexe, encontro alguém que o conheceu e me relata ações inacreditáveis, gestos de bondade, esquemas de fuga. Ele viajava muito. Deixou amigos no Brasil e fora dele.

Era de família rica. Mas soube há pouco tempo que ficou amigo de Ho Chi Minh, o místico líder vietnamita, com quem trocou cartas. Por isso que, lá em casa, os cachorros tinham nomes de vilas do Vietnã, como Khe San- onde ocorreu uma batalha em que os americanos levaram uma surra.

A foto acima foi descoberta há pouco, nos arquivos de uma prima que morreu. Da esquerda para direita CLAUDIO PAIVA, JAYME PAIVA, RUBENS PAIVA e CARLOS PAIVA. Os 4 irmãos playboys santistas No Lido, em Paris, numa viagem de um ano que fizeram pela Europa, nos anos 40, em que viram a reconstrução do continente arrasado pela guerra.

Apenas um deles, o mais novo, Claudio, sorri para a câmera. Claro. Os outros 3 já estavam noivos. Como explicar para as pretendentes no Brasil, minha mãe e tias, que se divertiam no Lido. Bem, é a minha interpretação.

A viagem mudou a cabeça deles, motoqueiros farristas. CARLOS entou para o PCB, quando voltou ao Brasil. Circulou entre os modernistas. Boêmio, colecionou quadros. Meu pai virou líder estudantil e entrou para o PSB. Foi exilado, cassado e perseguido. Para horror do meu avô, um conservador da elite santista.

E agora leio o artigo publicado na REVISTA DA USP número 10, por Thomas Maack. Nunca tinha ouvido falar dessa história. Os mortos não morrem.

“Casa de Arnaldo, circa 1964: considerações pessoais sobre a repressão interna na Faculdade de Medicina da USP no ano do Golpe Militar” – Thomas Maack
pp. 120-140

“O concurso [para a cátedra de Fisiologia da Faculdade de Medicina da USP, onde concorriam Alberto Carvalho da Silva e Demóstenes Orsini] começou algumas semanas antes do golpe. Na noite anterior ao início do concurso fui temporariamente detido pelo DOPS quando participava de uma reunião da Frente Nacionalista no Centro Professorado Paulista na Rua da Liberdade. Foi a reunião de lançamento da candidatura de Almino Afonso a Governador do Estado, do qual participavam todos os partidos de esquerda e líderes sindicais. A reunião foi dispersada à força por ordem do governador Adhemar de Barros com uma violência incomum para um período de franquias democráticas – cacetadas, socos e pontapés distribuídos por um contingente uniformizado da guarda civil que invadiu o auditório apinhado de gente. Na ocasião ninguém teve consciência de que seria a primeira demonstração aberta de que a preparação do golpe na cidade de São Paulo estava em andamento.

No melê estabelecido fui agarrado por dois agentes do DOPS que me levaram para uma perua Chevrolet estacionada em frente ao Centro Professorado. Isa também tinha sido apanhada e acabamos sentados lado a lado no banco da perua do DOPS. Eu estava preocupado porque pensava que minha prisão, ao se tornar pública, iria prejudicar Carvalho da Silva em seu concurso. Isa estava preocupada porque tínhamos deixado a nossa filha com um vizinho para participar da reunião. Quando estávamos nos consolando mutuamente alguém subiu no teto da perua e gritou: ‘Eu sou deputado federal. Soltem imediatamente os que estão nessa perua’. Um agente do DOPS comunica-se com a central pelo rádio, explica o que está acontecendo e pede instruções. A voz fanhosa do rádio retruca: ‘Tira o deputado do teto a tapa’. O agente sai para dar as instruções. Um minuto depois ele volta esbaforido e explica pelo rádio que o deputado tinha puxado um revólver e continuava exigindo a nossa liberação. O rádio silencia por um tempo que me parece interminável. Finalmente a voz fanhosa soa: ‘Solta os detidos’.
Isa e eu saímos da perua e lá estava o deputado Rubens Paiva – pernas separadas, pés solidamente fincados no teto da perua, revólver na mão – dizendo para nós “sumirmos” rapidamente, pois não sabia quanto tempo poderia sustentar a situação. De todos os políticos graúdos presentes à reunião, somente Rubens Paiva, a quem não conhecíamos pessoalmente, veio salvar os ‘peixinhos’ das mãos do DOPS. Essa dedicação, essa lealdade ao militante comum, veio a custar-lhe a vida nas mãos da ditadura. Rubens Paiva foi assassinado em 1970 quando procurava defender da tortura uma companheira de prisão que nem conhecia.

Frequentemente associo na minha memória Rubens Paiva e Carvalho da Silva, apesar deles serem pessoas completamente diferentes. Rubens Paiva era valentão, desbocado, discursador. Carvalho da Silva é ponderado, quieto, organizador. Todavia, ambos tinham pelo menos uma coisa em comum, o objetivo político e social no caso de Rubens Paiva, o objetivo acadêmico e ético no caso de Carvalho da Silva. Ambos exerciam essa lealdade com uma coragem moral incomum em que Rubens Paiva aliava-se à coragem física e em Carvalho da Silva alia-se à coragem intelectual.” (pp. 129-130)

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